quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Mais sobre a crise internacional

Nesta semana o noticiário não foi bom para as bolsas de valores, os cenários de queda foram uma constante em todo o mundo. Existe um razoável grau de certeza que problemas no setor imobiliário americano foram o motivador da presente crise. Assumindo que isto está correto, duas perguntas fazem-se necessárias: 1) quais fatores geraram os problemas no setor imobiliário americano?; e 2) o que fazer para gerenciar esse problema?

Vamos começar respondendo a pergunta 1. Meu palpite é que crises assim só ocorrem por dois motivos: a) choque negativo na economia; ou b) falha do governo. No caso “a” teríamos que verificar a ocorrência de i) catástrofes (tipo os atentados terroristas de 11/09); ii) choques negativos de oferta (por exemplo, um aumento significativo no preço do petróleo); ou iii) choques negativos na demanda (como a ocorrência de algum evento que reduzisse significativamente a renda); ou iv) algum fator que levasse a uma queda da produtividade da economia. Caso fique comprovado que nenhum dos eventos acima ocorreu, então eu tenderia a culpar o governo americano – ou mais propriamente, as autoridades americanas que deveriam estar fiscalizando o mercado de crédito – pela crise financeira atual.

Note que minha explicação não culpa o vilão atual eleito pela mídia. Vários noticiários têm posto a culpa nas agências de ratings, que teriam ganho dinheiro para fazer avaliações dúbias sobre o mercado de crédito imobiliário americano. Se isso realmente ocorreu, é caso de polícia; e as agências de rating terão que responder por seus erros. Contudo, é difícil acreditar que um analista de mercado, que gerencia milhões de dólares, confie cegamente nas agências de rating. O mais provável mesmo é que todos sabiam do risco, mas escolheram aceitá-lo para tentar obter retornos maiores. Isso é perfeitamente correto numa economia de mercado: você conhece os riscos e decide se arrisca ou não. O que me chama a atenção foi a ausência de interferência do Banco Central americano (FED) nessa festa. Por que ele (ou outra autoridade federal), mesmo conhecendo o problema de crédito, permitiu que alguns fundos se expusessem tanto aos riscos? Minha resposta é simples: tenho para mim que o FED sabia perfeitamente do risco, mas sabia também que o grosso do ajuste seria pago por outras economias que não a americana. Afinal, a maior parte do ajuste se dará com os detentores dos títulos podres do mercado de crédito; e estes estão em sua maioria fora dos EUA. O governo Chinês por exemplo, é um dos maiores detentores de tais títulos. Em resumo, parece que quem cometeu um erro sério foi o governo chinês.

Por fim, resta a pergunta 2. O que fazer para gerenciar a crise financeira atual? Enquanto o Brasil manter sua taxa de câmbio flutuante não haverão grandes riscos para nossa economia. Contudo, um movimento do governo brasileiro para controlar o câmbio pode nos levar a resultados desastrosos. Para o Brasil não ser muito afetado pela crise basta não fazer nada. Já para os outros países do mundo existe um desafio: como evitar que os fundos que estão recebendo ajuda agora (por meio do aumento da liquidez do sistema) não repitam o mesmo comportamento no futuro? Essa é uma questão que certamente ocupará os teóricos por algum tempo.

3 comentários:

José Oswaldo - IPEA disse...

De acordo com a análise do Adolfo, parece claro a semelhança dessa crise com a que ocorreu com os países asiáticos há exatos 10 anos atrás. Na Ásia ficou constatado pelo FMI: "uma combinação de supervisão inadequada do setor financeiro, gerenciamento pobre do risco, e a manutenção de taxas de câmbio relativamente fixas levaram os bancos a captar grandes empréstimos de capital internacional, boa parte deles de curto prazo, denominados em moeda estrangeira e não protegidos por operações hedge".

Essa dinheirama toda foi financiar investimentos de qualidade duvidosa e deu no que deu. Uma diferença importante em relação a 1997, é que o baixo crescimento na Europa e no Japão reduziam ainda mais as oportunidades de realocações de recursos, o que em termos mundiais aprofundava os efeitos da crise.

Para o Brasil, de fato, não há muito que ser feito. E o estrago de hoje deve ser bem distinto do que o observado em 1997. Atualmente, os nossos fundamentos estão bem melhores do que há 10 anos atrás. O cofre do Bacen está abarrotado de reservas, o câmbio é flexível e gera-se um superávit primário alto. Bem diferente de 1997...

Anônimo disse...

Não creio que tenha ocorrido queda significativa da PTF nos EUA e, por isso, não creio que esta crise venha a ter grandes efeitos reais. Mas isto terá de ser medido. Quanto a China, creio que uma grande crise por lá é só uma questão de tempo, economia controlada pelo estado com altas taxas de crescimento não é novidade nenhuma por aqui... deu no que deu. Como a China ainda é muito pobre, mesmo comparada ao Brasil, pode ser que demore um bocado para entrar em colapso.

Nesta história de risco creio que cada um toma o risco que deseja e ninguém tem nada com isso, o princío continua válido quando as coisas dão erradas. Sou de opinião que o FED não deve socorrer ninguém, no máximo disponibilizar moeda com taxa de juros altas o suficiente para punir quem vai mal.

Abraço,

Roberto

Anônimo disse...

José Oswaldo - Ipea,

Claramente houve um crescimento favorável das reservas internacionais, o câmbio é flexível, o superávit primário é alto, etc, etc. Mas há uma variável que não resiste a qualquer análise, por pouco acurada que seja: os gastos públicos vêm crescendo muito mais rapidamente do que o PIB real. Isto significa que o superávit primário resulta do aumento de arrecadação, apenas. Aí, levando-se em conta os problemas microeconômicos (ausência de marco legal adequado, infraestrutura deficiente, etc), permito-me pensar que os louvados fundamentos macroeconômicos parecem mais realistas do que o rei. A propósito, qual é a carga tribuária ideal? Eu suponho que não seja essa em torno de 40% do PIB. Do que tal taxa ideal depende? Por quanto tempo a carga tributária atual é suportável?

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