sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Little John Armless’s Country ou País dos Joãozinhos sem Braço

Já tentaram fazer negócio no Brasil? Impressiona o número descomunal de joãozinhos sem braço presentes em nossa economia. Eles estão em todos os lugares: universidades, bares, colégios, estádios de futebol, etc. Você mesmo caro leitor deve conhecer vários deles. A característica básica de um joãozinho sem braço é se fazer de desentendido. São membros vitalícios do clube “se colar colou”.

Você vai a um bar com um grupo de amigos, todos bebem, comem algum petisco, jogam conversa fora. Mas, 5 minutos antes de se encerrar a conta aparecem os famosos ditos cujos.... eles se levantam, deixam 5 reais na mesa e vão embora. Aí está mais um joãozinho sem braço. Você empresta um livro para ele e 6 anos depois ele continua sem entender porque você insiste em receber seu livro de volta. Você passou a noite em claro preparando um relatório para a empresa (ou um trabalho para a universidade), surpresa.... na entrada da empresa esta lá mais um candidato a joaozinho sem braço, esperando que você divida os méritos do trabalho com ele. Todos nós conhecemos gente assim, o problema é que no Brasil não só existem muitos joãozinhos sem braço como também seu número está aumentando. Mas isto reflete o óbvio: no Brasil, bancar o joãozinho sem braço vale a pena.

Quando um país é dominado por joãozinhos sem braço, é impossível à sociedade conviver com tantos picaretas sem tomar providências para se resguardar. Em outras palavras, para nos precavermos dos joãozinhos sem braço, temos que gastar um montante razoável de recursos com procedimentos burocráticos de controle. Por exemplo, já notaram a quantidade imensa de documentos que temos que apresentar para uma simples vaga de estagiário? Quem trabalha em universidade vai concordar comigo: o montante de documentos necessários para se contratar um professor é assustador. Pior ainda se o professor tiver doutorado no exterior... aí o infeliz terá que ter um documento dizendo: “Sim, ele é mesmo doutor”. Já tentaram comprar uma casa ou financiar um apartamento? A quantidade de documentos e de carimbos e de certificados que temos que comprovar faz a lista telefônica de São Paulo parecer livro fino.

Para se comprar um carro nos EUA, basta você e o vendedor assinarem um papel do tipo: “Paguei tantos dólares e comprei o carro XX do Sr. Y”. Pronto, o carro é seu. No Brasil a mesma operação demanda a sua ida, e a do vendedor do carro, para um cartório. Ainda assim, com todo esse controle, a quantidade de desonestidade imperando em negócios no Brasil é absurda. Querem outro exemplo? Comprem um imóvel na planta. Imóvel na planta no Brasil é igual jogar na roleta, a única dúvida é se você irá apostar no preto ou no vermelho.

Da próxima vez que você ouvir falar em “custo Brasil” lembre-se do joãozinho sem braço, esse é o verdadeiro custo Brasil. O joãozinho sem braço aumenta de maneira expressiva o custo das transações econômicas; com menos trocas comerciais a sociedade perde eficiência; com menos eficiência a sociedade torna-se mais pobre. Temos que ter em mente que essa quantidade imensa de malandros (conhecida em economia como rent-seekers) traz um custo enorme para a sociedade. Acabar com a cultura da maladragem, vigente em amplos setores de nossa economia, é condição sine qua non para nos tornarmos um país minimamente civilizado.

5 comentários:

Ricardo Rayol disse...

absolutamente perfeito.

Márcio disse...

Estou de pleno acordo, Adolfo. O pior é que os "little Johns" são corporativistas. Elejo o Renan Calheiros como o João do momento.

Fábio Mayer disse...

Genial Adolfo!

Os joõezinhos sem braço são uma praga mesmo. São aqueles caras que fazem força para que os trabalhos escolares sejam sempre em grupo, porque, claro, em grupo terá algum trouxa que vai trabalhar por eles.

Formam-se desde cedo em picaretagem.

Emilson disse...

Vamos considerar os argumentos que voce levantou: ha um numero grande de "free or easy riders" no Brasil e ha uma burocracia enorme que surgiu em funcao dos free riders. Ha portanto um equilibrio ruim no pais. Veja que ser free rider (pelo menos algumas vezes) e para muitos uma "best response" ao grande grau burocratico e o grande grau burocratico (pelo menos algumas vezes) e uma "best response" ao grande numero de free riders. Este equilibrio em estrategias mistas pode ser ordenado em termos de Pareto. Um outro equilibrio em estrategias mistas, com um numero menor de free riders e um montante menor de burocracia, domina o equilibrio atual. Portanto, a questao e buscar meios para efetivar a mudanca de equilibrio. Um aumento no grau de educacao da populacao pode ter um efeito positivo se ele causa um aumento no custo de oportunidade de ser free rider. Uma simplificacao das normas regulatorias reduz o incentivo a ser free rider. As medidas existem e os exemplos de outros paises demonstram que e possivel sair deste equilibrio ruim e alcancar um equilibrio melhor com menos burocracia e um numero menor de free riders.

Iliada disse...

Prof. Adolfo,

Se é solidariedade que o sr. deseja, estou de pleno acordo, mas não se compara à proposta que recebi de uma 'colega'. Primeiro momento Fulana: "Só vc pode me ajudar", como?! "É que gastei o dinheiro do meu pai e o cheque vai voltar, daí eu preciso de 700 reais!" "Resposta: sinto muito, mas eu não tenho nem pra pagar a faculdade, posso ajudá-la em outras coisas, mas dinheiro, não!" Segundo momento (Lanchando)"Aceita a metade do meu misto? "Não gosto, compra uma esfirra pra mim, não trouxe dinheiro." E lá se foram meus 1,20 reais, até hoje nada de me devolver. Será que se eu não tivesse oferecido ela não teria perguntado? Terceiro momento: (Volta para casa na parada de ônibus) "Tem 3,00 reais, não tenho o dinheiro da passagem!" (Pensando com os meus botões: E como ela espera voltar pra casa?) Resposta: infelizmente uso passe e só ando com o necessário." A fulana ou está subestimando minha inteligência ou devo ter cara de bancária. Acredito que nem uma coisa nem outra, se 'colar colou'! Estou craque em dar respostas. Espero que está pessoa leia este blog e 'caia a ficha' pra me deixar em paz. Trabalho para conquistar minha independência financeira, tranquei inúmeras vezes a faculdade por falta de pagamento e nem por isso recorri a nenhum estranho, nem mesmo meu pai, que aliás sempre foi omisso na minha educação. Não tenho rancor nem mágoa, mas sinto uma enorme ofensa quando pessoas se aproximam para nos tirar o mínimo que seja.
Concordo em parte com a proposição do sr, no entanto confesso que já dei uma de 'joão sem braço', não a ponto de agredir a integridade da pessoa, tenho vergonha em afirmar, pois não encontrei nenhum resolução melhor que esta. Em relação aos EUA, não conheço o país, não tenho certeza que o que eles pregam sirvam pra nós. Sugiro ler o livro O espetáculo do crescimento, o autor me convenceu que as intenções dos economistas, entre eles Friedman não servem para os trópicos.

Abraços,
I.

Google+ Followers

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Follow by Email