sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Natal, Fé e Capitalismo*

O que é fé? A maior parte das pessoas responderá que fé é a capacidade de acreditar em algo sem ter provas. Por exemplo, ter fé no Natal implica em acreditar que o Natal é uma época mágica, sem precisarmos de evidências em favor disso. MENTIRA. Nós seres humanos NÃO TEMOS a capacidade de acreditar em algo sem termos evidências. Fé é uma busca de racionalização de fenômenos que ainda não entendemos. Temos fé que o Natal é uma época mágica pois nessa época do ano nós nos tornamos seres melhores. Fazemos doações, ligamos para pessoas amadas, enfim, tentamos ser alguém melhor do que somos. É por isso que temos fé no Natal, pois ano após ano ele se repete, e ano após ano tentamos ser alguém melhor, especialmente nessa época.

Eu tenho doutorado e pós-doutorado em economia, já lecionei nos Estados Unidos, já trabalhei como consultor do Banco Mundial, já publiquei diversos artigos internacionalmente. Mas, toda vez que dou aulas de Introdução a Economia (o primeiro curso que um aluno de economia cursa), para alunos de 17 anos, eles NUNCA acreditam no que eu digo. Tenho que provar tudo para eles, caso contrário não aceitam minha explicação. Estão corretos. Com este exemplo, espero ter deixado claro que nossa espécie é incapaz de acreditar em algo sem termos evidências. Notem que minha titulação e experiência, aliada à falta de titulação e pequena experiência de alunos de primeiro ano, deveria implicar que eles acreditassem em mim. Isso nunca acontece. Não é de nossa raça aceitarmos fatos sem questioná-los.

Se temos fé na Bíblia não é por sermos imbecis. Se temos fé no Criador, não é por sermos estúpidos. Nossa fé num ser superior não existe por acaso. Ela existe porque pessoas que confiamos já presenciaram milagres, ou então porque no nosso dia-a-dia nós mesmos presenciamos fatos que reforçam nossa crença. Temos fé que o Natal é mágico porque somos capazes de olhar a nossa volta e notar como, nessa época do ano, o espírito das pessoas muda para melhor. Fé é luz, não escuridão.

Será que o capitalismo acabou com o espírito natalino? NÃO, em momento algum o capitalismo vai de encontro ao ritual cristão. A filosofia cristã se baseia em dois pilares: amor a Deus e livre arbítrio. O capitalismo é justamente o sistema que permite aos indivíduos fazerem suas próprias escolhas. O capitalismo torna a caridade não uma obrigação, mas sim um desejo íntimo, uma escolha. É da escolha do indivíduo amar a Deus, é da escolha do indivíduo aceitar o Natal como uma época mágica. O capitalismo, ao transferir a responsabilidade das decisões para o indivíduo, deixa a todos na posição que nos foi dada por Deus: é nossa escolha amar a Deus ou não, é nossa escolha fazermos o bem ou o mal, é nossa escolha tornarmos o Natal uma época mágica ou não. Talvez seja por isso que tantos odeiem o capitalismo: aqui não há como transferir a culpa de suas ações para outros. De meu lado, é por isso que eu admiro esse sistema: é aqui que o direito sagrado ao livre-arbítrio alcança sua plenitude.

*: o Olavo de Carvalho tem um excelente texto sobre Fé e Natal, extrai algumas idéias de lá.

7 comentários:

Nemerson Lavoura disse...

Texto muito bacana mesmo.
Feliz Natal, professor.

Anônimo disse...

FELIZ NATAL BLOGUEIROS !
SÃO OS VOTOS DE
MARCO B

Cláudio disse...

10!

Nilo disse...

Legal mesmo Adolfo!!!!
Feliz Natal para todos!!!!

Erik Figueiredo disse...

Adolfo, não sei se você leu "Em que crêem os que não crêem" do Umberto Eco e o Carlo Maria Martini. Recomendo!
http://hazardm.blogspot.com/2007/12/eco-e-martini.html

João Melo disse...

Adolfo, aqui direto da floresta amazônica, exilado no meio da mata, este ex-aluno acompanha seus textos e este é mais um nota dez.
Boas Festas e um excepcional 2008.
Abraço, João Melo

GAbiRu disse...

"Nossa fé num ser superior não existe por acaso. Ela existe porque pessoas que confiamos já presenciaram milagres , ou então porque no nosso dia-a-dia nós mesmos presenciamos fatos que reforçam nossa crença"

um dia um amigo me cobrou que eu acreditasse em algum futuro relato que ele mesmo viesse a produzir. calei. consenti?

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