terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Por que somos obrigados a ler obras de escritores brasileiros?

O que você acha de Universidades Estaduais cobrarem em seus respectivos vestibulares conhecimentos regionais? Isto é, imagine um aluno paulista indo prestar vestibular em Santa Catarina, deveria ele ser obrigado a conhecer a história de Santa Catarina? Acredito que a maioria das pessoas irá responder que não. Afinal, um aluno paulista não aprende sobre a história de Santa Catarina no segundo grau. Contudo, um aluno catarinense aprende sobre a história de seu estado. Assim, incluir no vestibular questões referentes a história de uma região beneficia alunos locais em detrimento dos que provém de outros estados.

Se é errado incluir questões regionais no vestibular, então por que somos obrigados a ler obras de escritores brasileiros? Alguns responderão que temos que ler escritores nacionais para conhecer e valorizar a cultura de nossa região. Mas se valorizar a cultura de uma região é lícito, então qual é o problema em se perguntar questões regionais no vestibular? Incluir questões sobre escritores nacionais no vestibular é tão bairrista quanto incluir questões sobre a história de uma região. Afinal, não seria melhor que aos alunos fossem indicados os MELHORES livros e autores independente da nacionalidade? Por que nossos alunos devem ter seus conhecimentos restritos a autores nacionais? Qual é o mal em ser educado no que de melhor a humanidade produziu em termos de literatura?

Se o Brasil fosse capaz de entender que a cultura pertence à humanidade, e não à um país em particular, teríamos muito a ganhar. Quando Shakespeare, ou Tolstoi, ou Balzac, produziram suas obras elas passaram a fazer parte do acervo da humanidade, independentemente da nacionalidade do autor. Negar o acesso de estudantes a tais obras, apenas porque seus autores não refletem a cultura nacional, é um erro grave de concepção da palavra “cultura”. Quando um país nega a seus estudantes o acesso ao que o mundo produziu de melhor, inevitavelmente o acesso ao que o mundo não produziu de melhor passa a ser a única opção. Em palavras, a formação do aluno passa a ser deficiente.

A implicação do parágrafo acima é mais poderosa do que muitos podem imaginar. Por exemplo, uma nova lei esta sendo discutida no Congresso Nacional para OBRIGAR a televisão à cabo a aumentar a inserção de programas nacionais em sua grade horária. Qual é o argumento para essa lei? Resposta: proteger e valorizar a cultura nacional. Da mesma maneira que deveríamos ser favoráveis ao estudo dos melhores escritores do mundo (independente da nacionalidade), também deveríamos ser contrários à qualquer lei que tente nos obrigar a pagar por um canal que não queremos, apenas por ele valorizar a cultura nacional.

Se a cultura nacional é tão importante assim, certamente os indivíduos irão comprar tanto livros de escritores nacionais como pacotes de TV à cabo com programação nacional. Não é necessário que o Estado interfira nesse processo. Aliás, a intervenção estatal nesses mercados, obrigando o brasileiro a consumir algo que não quer, mostra claramente a insignificância da cultura nacional para a maioria dos brasileiros. Nesse ponto o brasileiro está correto: entendeu perfeitamente que a nossa cultura não se restringe ao nosso país. Ao contrário, a cultura engloba o que de melhor a humanidade já produziu. Aceitar que o Estado nos limite o direito a usufruir de tal cultura é um golpe severo na liberdade individual.

6 comentários:

cw disse...

Esse é um ponto que assumimos passivamente. Em outras palavras, quando se exigeum espaço do nosso tempo para "apreciar" algo sob o argumento de que isso é cultura (seja ela local, nacional ou universal), normalmente identificamos isso como algo bom. Pode até ser, mas devemos avaliar isso de forma muito objetiva. As vezes nos vendem ideologia travestida de cultura. Cultura é sempre bom; ideologia só a nossa!

CW

lpereira disse...

Coloquei isto no "Gustibus":


Seu exemplo é infeliz, pois “o buraco é mais embaixo”. O vestibular da Universidade __FEDERAL__ de Santa Catarina (UFSC) contém questões de história e geografia daquele estado. Por exemplo, uma questão sobre os rios do estado: seus nomes, sua importância econômica, seus afluentes (eu acertei em 2000, quando fiz o vestibular, mesmo sendo de São Paulo, porque sabia que algo assim cairia e estudei especificamente).

Ainda! A Universidade para o Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (UDESC - estadual) tem um vestibular que consiste em uma redação vocacionada (relacionada ao curso que você almeja) e 20 questões de História e Geografia de Santa Catarina, só isso.

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Mas digo mais:

Embora esteja plenamente de acordo que a lei é absurda: a programação de TV a Cabo só tem alguma qualidade porque é regida exclusivamente pelo mercado, o seu argumento a respeito de livros não procede.

A diferença específica entre Tolstoi e Pessoa é que o último foi escrito em nossa língua nativa. Uma tradução de Tolstoi, será uma tradução. Pessoa será o original, como ele mesmo (não necessariamente ele-mesmo, é claro) escreveu, sem o intermédio de um tradutor.

Veja que a questão aqui é o idioma. Nunca vi um vestibular que não cobrasse, juntamente com a literatura brasileira, a portuguesa. E, aquilo escrito em nossa língua serviu a formar a nossa cultura. É ela que deve ser cobrada, e não a cultura anglo-saxônica ou germânica -- por mais que elas sejam melhores que a nossa. O que deve ser cobrado, e isso é fato, é que nossa cultura eleve-se aos níveis das demais que nos superam. Mas só faremos isso sem rejeitar nossos caracteres específicos: nossa língua e nosso patrimônio cultural.

Renato C. Drumond disse...

Eu ia fazer o mesmo comentário feito acima: a questão de exigir autores nacionais é que eles foram escrito na língua em que falamos. Eles não são bons porque foram escritos em nossa língua, mas são bons por nos ajudarem a ter um domínio maior do nosso idioma. Claro que isto deveria implicar na leitura de autores portugueses também, e devo dizer que isto dificilmente ocorre.

Por outro lado, isto é um argumento que serve para explicar a proeminência de autores que escrevem em português, mas não justifica que, enquanto estudamos a literatura, nos restrinjamos a literatura escrita em português. Aqui, a universalidade da obra deveria ganhar destaque para seu estudo.

Diego Baldusco disse...

Sou paulista e faço vestibular na UFRGS. Fiz o ensino médio já no RS, mas li um livro do Erico Veríssimo que simplesmente no meu ano eles mudaram, ao invés de cobrar O Continente, passaram a cobrar o Arquipélago. E ainda na listagem incluía alguns outros livros dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Mesmo tendo feito o ensino médio no RS eu estava sendo prejudicado por não conhecer os livros, e os estudantes daqui terem já lido. Assim como em Sao Paulo eu li O Guarani na oitava série, livro que aqui nao cai. Sou totalmente contra esse nacionalismo exacerbado em tudo que vemos. Nao só essa questao do vestibular, mas tambem os casos recentes de Tv a cabo e da proibição de colocar 70% OFF na frente da sua loja, que voce faz com o teu dinheiro(assunto este que falei no meu blog). Só aqui mesmo.

Sávio disse...

Primeiro, devo dizer que o Autor nacional já é bem dificil de se encontrar a preços baixos, imagina o internacional..
Segundo, Professor, nos seus anos de reflexão acerca da cultura, o que o Sr entende por ela? O senhor não acha que uma cultura pode ser subjugada? não aconteceu isso com os maias? e um milhao de outros exemplos...
Professor, quanto colocar autores regionais e historia regional, nada mais justo a cultura local... daqui a pouco o senhor vai reclamar pra não se colocar questões de história do Brasil ou Geografia do Brasil, pois beneficiara os brasileiro, acho que isso quer dizer dos objetvos das Universidades onde foram implantadas, que sempre tem a ver com valorização e desenvolvimento Local atrelado ao nacional...
Quanto as TVS a cabo, A cultura tem que ser valorizada, ou o senhor também vai dizer aqui que as Tvs a cabo não nos enchem com porcarias estrangeiras.

Abraços

Duvidas ou sugestões: pirata_mestre@hotmail.com

Anônimo disse...

Sobre o Assunto da TV a cabo eu até concordo que num tem nada a ver essa obrigação por programas brasileiros, para que tem os canais brasileiros da globosat então? Aquilo é programa brasileiro, e são muitos, se é bom ou não é questão de opinião. Agora Adolfo vc é meio contraditório as vezes, vc que defende a liberdade, a universidade tem o direito de cobrar o que ela quiser na prova, faz a prova quem quer, e lógico que tem q ter regulação, mas tem várias escolhas, e enquanto as questões do livros nacionais, qualquer país no mundo prestigia sua cultura nacional na educação, e alguns até distorcem como o EUA.Só acho que tem que ter espaço para todas, todas são importantes, inclusive a nacional.

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