terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A Economia pelo lado da Demanda

O Presidente Lula e vários de seus Ministros de Estado vêm afirmando que em 2008 o Brasil se transformará num canteiro de obras. Essa é a idéia do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) proposto pelo governo federal. O PAC já foi inclusive rotulado de “vacina”contra a crise. O PAC usará recursos públicos para financiar investimentos pelo país. Segundo os técnicos do governo, o aumento dos gastos públicos aumentarão a demanda agregada da economia. Com o aumento da demanda os empresários poderiam contratar mais funcionários e teriam mais ânimo para investir. Assim teríamos um aumento tanto no consumo (propiciado pelo aumento no nível de empregos) como no investimento agregado. Em resumo, a economia cresceria motivada pelo aumento nos gastos públicos. Discordo dessa idéia por pelo menos 3 motivos.

Primeiro, gastos públicos, investimento e consumo são todos componentes da curva de demanda agregada da economia. A idéia do governo é que esse aumento da demanda leve a um aumento da oferta. Mas no curto prazo pode ocorrer que apenas os preços aumentem (aumento da inflação). E no longo prazo, nada garante que o governo tenha gasto recursos nos locais mais adequados.

Segundo, os recursos são sempre finitos. Se o governo demanda mais recursos para gastar, ele precisa retirar esses recursos de algum lugar. Se o governo gasta muito, sobram poucos recursos para o setor privado se utilizar. Ou seja, o setor público e o setor privado competem por recursos. Quando o setor público aumenta seu tamanho, no curto prazo, invariavelmente sobra menos espaço para o setor privado. Novamente, o mais provável é que esse aumento dos gastos públicos conduza a um aumento no nível de preços.

Terceiro, a aposta do governo refere-se ao longo prazo. O governo aposta que o aumento dos gastos públicos em obras de infra-estrutura irá estimular o aumento do investimento privado no longo prazo. Com uma melhor infra-estrutura a economia poderia crescer a taxas mais altas. O problema desse argumento é que ele assume que o governo sabe exatamente onde deve investir. E que, além disso, ele é capaz de realizar tais investimentos de maneira mais eficiente que o setor privado. Creio que a evidência histórica demonstra que o governo prefere investimentos grandiosos (e visíveis) à investimentos eficientes.

Nos Estados Unidos, temos a economia pelo lado da oferta (corte de impostos para estimular trabalho e investimento privado). No Brasil, temos a economia pelo lado da demanda (motivada por aumento do tamanho do Estado). Na Alemanha Nazista, a idéia de ter um Estado forte controlando o investimento privado funcionou muito bem. Em menos de 8 anos os nazistas tiraram a Alemanha de um estado de caos para se tornar uma potência mundial. O problema é o que veio depois... O problema é que uma vez criado um monstro é impossível controlá-lo. Como vocês podem notar, minha objeção à economia pelo lado da demanda não é apenas econômica. É também moral.

4 comentários:

Anônimo disse...

Um adendo ou segundo motivo. Se os proprietários originais destes recursos não estavam interessados em investir nestas áreas e ninguém mais estava disposto a tomar emprestado, a juros de mercado, para realizar este investimento é porque, provavelmente, o custo do investimento é maior que o benefício do mesmo. Em outras palavras, só o governo deseja tal obra. Eu acredito piamente que é mais fácil encontrar casos de corrupção do que de externalidades positivas, logo...
Roberto

Badger disse...

Isto aí já foi tentado antes e levou o país a uma crise que durou duas décadas. O brasileiro típico, como insiste em não tomar lições históricas, está predestinado a repetir sempre os mesmos erros.

Fabio disse...

Ótimo comentário, Adolfo. Muito parecido com o do Professor Russell Roberts (ver cafehayek.typepad.com, "Stimulus", 17.01.08 e www.invisibleheart.com). Ele diz que esses PACotes não conseguem mudar os incentivos (palavra-chave em toda análise econômica, não é?). Alguns setores serão "estimulados", mas um número correspondente será desestimulado: afinal, o dinheiro tem que vir de algum lugar. É como, diz ele, pegar um balde d'água da parte funda de uma piscina e jogar na parte rasa: "coisa engraçada -- a água do lado raso não fica mais profunda". A única coisa que o governo está tentando "estimular" com essas PACs é a sua própria popularidade e o seu próprio crescimento!

Anônimo disse...

Bom, nos EUA o pacote fiscal recentemente enviado ao congresso americano como um dos componentes para amortecer o pouso da economia atua pelo lado da DEMANDA. Ela trata sim de corte de imposto, mas a logica e corte de imposto para impactar consumo e estimular a DEMANDA, nao oferta (corte de imposto tbem estimula economia em Keynes, so que menos que o gasto publico).

Uma questao central aqui e a inclinacao da curva de oferta agregada. Se vc acredita que os precos se ajustam rapidamente, realmente nao ha espaco para a demanda. Contudo, por mais que essa hipotese ainda conte com economistas academicos a seu lado, ela esta inteiramente afastada da realidade que pauta a conducao de politica monetaria pelo mundo afora (como os EUA estao provando agora). Pode ser que todos os bancos centrais estejam errados, mas acho isso pouco provavel.

Por fim, vale lembrar a palavrinha externalidade, que pode impedir que o mercado invista em infra-estrutura como deveria.

Ah, antes que me esqueca, o que nao da pra fazer e pegar essa discussao tecnica interessante e "implicar" superioridade moral de um lado do debate, chamando de comunista usurpador da liberdade alheia todo mundo que acredita em preco rigido e externalidade...

Google+ Followers

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Follow by Email