sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Entrevista com o Professor Roberto Ellery Jr.

1) Ensino superior tem que ser gratuito? Existe alguma razão importante para a UnB ser pública e não privada?
Não acredito que o ensino superior deva necessariamente ser gratuito. Creio até que existam bons argumentos favoráveis à tese que seja parcialmente subsidiado pelo governo, mas o maior beneficiário do ensino superior é o aluno, portanto me parece razoável que este pague por parte do benefício que recebe. Reconheço, porém, que esta é uma decisão da sociedade e que o fato de nenhuma força política significativa contestar esta gratuidade indica que a sociedade deseja ensino superior gratuito.
Tanto a UnB quanto as demais universidades públicas foram criadas com a justificativa que o setor privado não teria interesse ou condições para criar instituições capazes de oferecer ensino de qualidade e pesquisa. Esta mesma justificativa foi utilizada para o estado criar de siderúrgicas a empresas de telecomunicações. Como visto nos anos 90 a iniciativa privada foi capaz de gerenciar e expandir quase todos estes setores de maneira satisfatória. Entretanto o ensino superior público no Brasil te uma peculiaridade, de todos os serviços oferecidos pelo governo é o único em que a sociedade prefere o público ao privado. A maioria das pessoas prefere hospitais privados, segurança privada, transporte privado e etc, mas opta por estudar em universidades públicas. Pode ser devido à gratuidade, mas não tenho certeza, talvez daí possa ser possível encontrar um motivo importante para UnB ser pública, mas eu não sei com certeza qual seria este motivo.

2) A UnB adota a política de cotas. Você concorda com essa política?
Não concordo. Creio que esta política discrimina o aluno cotista além de possuir potencial de criar conflitos. A entrada na universidade deveria ser tão somente devido ao mérito, como todos os grupos étnicos possuem a mesma capacidade intelectual este critério é justo e neutro. Por fim, caso a política de cotas venha a ser generalizada por decisão do governo estaremos diante de uma das maiores agressões já feitas ao princípio da autonomia universitária.

3) Cursos de mestrado/doutorado costumam ser deficitários. Você tem alguma proposta para mudar essa realidade?
Acredito que o curso de mestrado tenda a se tornar cada vez mais próximos do que hoje chamamos de mestrado profissional. A experiência mostra que estes não são deficitários. Quanto ao doutorado (e ao mestrado como existe hoje) se pensamos apenas no curso é quase certo que será sempre deficitário, o custo de formar um doutor é muito alto. Entretanto olhar o doutorado apenas como curso pode distorcer o problema. Programas de doutorado são formados por professores doutores de destaque em suas áreas, vivemos em uma que a maior riqueza é o conhecimento, é difícil imaginar que as maiores “fábricas de conhecimento” sejam deficitárias. O conhecimento gerado por um programa de doutorado possui valor de mercado suficiente para sustentar o curso de doutorado, nesta perspectiva a formação de doutores passaria a ser vista como um investimento na continuidade da “fábrica de conhecimento”.
A proposta está embutida na resposta acima. Programas de pós-graduação (mestrado profissional, mestrado e doutorado) devem ser estimulados a captar recursos em empresas privadas e públicas, organizações não governamentais, organizações sociais, sindicatos, órgãos públicos e qualquer instituição ou pessoa que possa demandar um determinado conhecimento. Esta medida simples melhoraria a situação financeira dos programas e incentivaria linhas de pesquisa que atendessem demandas da sociedade.

4) Você seria a favor de acabar com a estabilidade dos professores universitários, e em seu lugar instalar um regime de tenure-track? Por que?
Sou favorável a esta mudança. A contratação de um professor (como a de qualquer funcionário) envolve riscos. Alunos com excelente formação muitas vezes não se tornam pesquisadores capazes de publicar regularmente os resultados de suas pesquisas. O sistema de tenure-track reduz significativamente este risco, pois permite um acompanhamento desta passagem de aluno para professor sem o compromisso da estabilidade.
Um ponto interessante é que o estágio probatório de três anos (previsto em lei) poderia funcionar como uma espécie de tenure-track, para isto basta que ao final do estágio o departamento que optar por reprovar o candidato possa dispor imediatamente da vaga para um novo concurso. Esta medida não traria nenhum custo adicional para o governo, seria apenas trocar a pessoa que recebe o pagamento.

5) Se você tivesse a chance de aprovar uma norma que valesse para toda a UnB. Que norma seria essa?
Eu faria valer a norma constitucional de autonomia das universidades. Lembrando que o primeiro passo para obter autonomia é ser capaz de se sustentar, não existe autonomia com mesada. Imagino uma situação onde o governo repasse o atual orçamento como forma de financiar o ensino gratuito (enquanto a sociedade assim desejar) e subsidiar áreas com eventuais externalidades positivas (eu sempre suspeito de argumentos de externalidades) deixando a universidade livre para definir suas atividades, suas políticas de pessoal e, principalmente, livre para buscar recursos fora do orçamento público. Estes recursos poderiam ser obtidos por contratos para pesquisa e desenvolvimento, cursos pagos (especialização e mestrado profissional), convênios e uso do espaço físico da universidade.
Além de proporcionar formas de financiar uma melhora do ensino superior esta medida não traria nenhum gasto adicional para o orçamento público e faria com que a universidade caminhasse rumo à verdadeira autonomia. Afinal em lugares civilizados (roubando sua expressão) universidade autônoma não pode depender 100% de um financiador, pior se este for o governo.


Valeu Roberto, muito obrigado.

4 comentários:

Nilo disse...

Muito legal, só faltou perguntar sobre o domínio esquerdista dos currículos das universidades públicas!

Roberto Ellery disse...

Parece que a presença da esquerda na universidade pública foi a dúvida que ficou. Tentarei colocar minha visão do problema e assim responder esta questão e a do tópico anterior. Começo por chamar atenção que não se trata de um domínio de idéias de esquerda na universidade pública, é mais correto falar de um domínio das idéias de esquerda na sociedade brasileira. A universidade pública apenas reflete este fato. Uma explicação para este fenômeno está mais para antropologia do que para economia, mas vou arriscar um palpite (quem não gosta de ler palpites dos outros pode parar por aqui).



Uma característica típica de nossa sociedade é que tendemos a acreditar que existe uma massa que precisa ser esclarecida, somo uma sociedade patriarcal. Sejam os coronéis do NE sejam os tucanos modernos, todos acreditam que são necessários para o bem do povo, que precisam guiar o povo. Chefes, professores, líderes de torcida e etc, todos acreditam que precisam guiar seus subordinados (ou equivalente), a crença geral é que a massa está errada e precisa ser esclarecida e “nós” (por “nós” entenda quem quer que seja o iluminado de plantão) somos as pessoas certas para o trabalho.



Esta característica encontra perfeita acolhida no marxismo. Os conceitos de classe dominada e alienação (um prêmio para quem me disser o que é interesse de classe, eu mal sei quais os meus como indivíduo) se acomodam perfeitamente com nossa vontade de guiar o povo (ou os subordinados, ou os liderados), por outro lado o cerne da idéia liberal é completamente contrário a este princípio. Alguém que acredita que pode “abrir os olhos dos outros” nunca vai viver em paz com a idéia de que cada um é o melhor juiz de seus atos. Segue abaixo uma máxima de Hayek que eu gosto muito:



All political theories assume, of course, that most individuals are very ignorant. Those who plead for liberty differ from the rest in that they include among the ignorant people themselves as well as the wisest.



Responda rápido: É razoável criticar o sujeito que vota no Lula porque recebe bolsa família? Ele é ignorante? Você sabe melhor do que ele o que é melhor para ele? Afinal, somos mesmo liberais ou estamos tentando mostrar a verdade para o povo? Acreditamos que o povo é alienado e nós sabemos a verdade?



Como disse, é só um palpite, mas creio que a resposta para a pergunta está escondia em algum lugar entre a frase acima e o conceito de alienação em Marx.



P.S. O fato do Brasil liderar as consultas por Marx não me deixa tão surpreso como o fato da Índia liderar as consultas por Hayek, este último realmente me surpreendeu.

Anônimo disse...

Meus caros,
Só um comentário sobre o comentário acima. É extremamente racional o sujeito votar no lulla devido ao bolsa família. Isto nós já sabíamos e o modelinho do eleitor mediano previa isto. Mais, eu tenho outra previsão (sou um paranormal!!!!). Nenhum governante acabará com estes tipos de bolsa!!!!! O PT, na verdade, fez uma boa política de comunicação com o povo (ao contrário do PSDB). Este conseguiu disseminar a idéia que o programa era dele (e não do governo FHC) e que só ele o manteria. O sujeito que ganha esta bolsa não quis arriscar e votou no lulla. Mas isto é só uma particularidade desta última eleição. o fato é ESTAS BOLSAS TENDEM A AUMENTAR COM O TEMPO DEVIDO À NOSSA FORTE DESIGUALDADE E NENHUM PARTIDO OU PRESIDENTE BUSCARÁ DIMINUÍ-LO OU ELIMINÁ-LO!!!!!
Um grande abraço

Edinailton Silva Rodrigues disse...

Sobre o palpite do Roberto Ellery, tenho uma sugestão:
Já que estamos em época de cotas para minorias oprimidas, proponho cotas para mulheres bonitas nas faculdades, nas empresas e no governo. O mundo respira melhor quando tem mulher bonita por perto. Elas são o pulmão do mundo.

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