quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Entrevista com o Professor Claudio Shikida

1) Seu blog costuma apresentar críticas asperas contra os "pterodoxos". Quem são eles? Por que eles merecem tais criticas? No Brasil, quem foi o maior "pterodoxo" de todos os tempos?

A pterodoxia reúne a fina flor do que há de mais improdutivo em economia: aqueles que não têm idéias e escondem isto de todos. Outro dia um leitor comentou, em tom meio ranzinza, que eu estaria criticando economistas do partido do presidente da Silva ao usar este termo. Mas pterodoxo foi um termo que criei inspirado em algo como "Petrossauro" que era como Roberto Campos chamava a Petrobrás, se não me falha a memória. Um pterodoxo é, basicamente, um sujeito que não olha para a planilha e sim para a ideologia ou para seu patrocinador em primeiro lugar. É também um que fala de econmia sem entender do que fala. Ou então é bom de matemática, mas não tem idéias. Ou é um sujeito verborrágico e que, também, não tem idéias

Mesmo assim, o pterodoxo enche a boca para se chamar de "especialista" (ou, sei lá, "professor"). Pterodoxo também é aquele que, na era globalizada, com a internet e a banda larga tem a desfaçatez de entrar em alguma sala de aula e dizer que "Milton Friedman está errado sobre isto ou aquilo" embora nunca tenha: (a) dialogado com o próprio (com a internet, até a morte de Friedman, quem tivesse algo relevante a dizer, conseguiria se comunicar com ele), (b) publicado algum artigo em periódico científico sério detalhando suas críticas em linguagem lógica (com ou sem um modelo matemático explícito).

Enfim, pterodoxo é igual ao brasileiro: "não desiste nunca". E é por isto que temos sempre que chamar a atenção do leitor para estas tentativas de assassinar a lógica e a ciência em prol da burrice. Às vezes é sábio desistir. Principalmente se é para desistir de falar asneiras.


2) O De Gustibus é um grande incentivador da causa liberal. Como surgiu sua identificação com o liberalismo? Como você conseguiu se desviar da geração de seus professores, provavelmente "pterodoxos", para se dedicar ao liberalismo?

Obrigado, Adolfo. A idéia do blog era não ter muitas discussões normativas, mas confesso que sou um "espectador engajado" (ah, Raymond Aron...) e não resisto a tentar mostrar para pessoas que "outro mundo é possível", com mais liberdade, responsabilidade, humildade e prosperidade.

Anos lecionando me deixaram pouco otimista, mas acho que, em média, somos todos racionais e capazes de aprender. Você fala de professores pterodoxos que tive. É verdade. Cursos de História do Pensamento Econômico começavam em Aristóteles e terminavam em Marx (ou Sraffa, com um salto irreal que ignorava todo o surgimento do pensamento neoclássico). Com o mestrado, eu comecei a refletir: por que esconderam esta literatura de mim? Há algo que preste aqui? Por que acho estes textos menos confusos em sua lógica interna? Meus professores pterodoxos xingavam Karl Popper e diziam que tudo era normativo. Também se diziam (e se dizem) democratas. Mas sempre procuraram esconder dos alunos pensadores como Hayek e Mises. Veja só.

Ajudou um pouco ter a mente aberta (gente da ciência tem que ter a mente aberta) e também ler com prazer tudo o que era achado na biblioteca com os nomes "James Buchanan" e "Gordon Tullock". Eu comecei a ficar mais crítico do otimismo pterodoxo que pretende mudar o mundo via governo (a famosa "Engenharia Social") e mais humilde quanto ao meu próprio conhecimento. Aliás, talvez isto tenha sido o que mais gostei no liberalismo de corte hayekiano: o reconhecimento da limitação de nossa própria mente como restrição importante às tentações interverncionistas. Perceber que a mente humana é limitada e que "engenharia social" é presunção disfarçada de boas intenções, creio, é um primeiro passo individual na direção não apenas do liberalismo, mas de uma vida intelectual mais saudável e responsável.


3) Como você analisa o escândalo dos cartões corporativos?

Para mim é mais um exemplo de que o brasileiro (e)leitor deveria ficar mais atento quando alguém lhe chega falando de "ética na política". Mais ainda, o escândalo mostra que o conceito de "falha de governo" deveria ser mais bem estudado e comprendido pelos alunos de Economia e, claro, por todos os brasileiros.

4) Para 2008, você acredita que a economia brasileira sofrerá com a crise americana?

Eu sou péssimo para previsões, mas uma coisa é certa: a economia brasileira não está em outro universo: a economia brasileira faz parte da economia mundial. Ainda que nossa economia ainda seja incrivelmente fechada, certamente sofreremos com a crise, em algum grau. Acho que grande lição é a do nosso passado: no segundo choque do petróleo, membros do governo procuravam difundir a idéia de que o Brasil era "diferente" e que não sofreríamos com a crise. Deu no que deu.

5) Se você pudesse aprovar uma única lei para valer no Brasil, qual lei seria essa?

Posso ser irônico, com um tom liberal? Aí vai: "é proibido facultar a um único indivíduo o direito de aprovar uma única lei para valer no Brasil, exceto se esta facultar a todos o mesmo direito".

7 comentários:

Cláudio disse...

Nota 10!

Stella Kamilla disse...

Excelente! Parabéns!!!!

Erik Figueiredo disse...

Faltou apontar o maior Pterodoxo do Brasil. Muito boa, parabéns!

Daniel Marchi disse...

Adolfo
A última resposta da entrevista, que remete à fala de Hayek, me faz refletir sobre esse imbróglio dos exportadores de carne com a União Européia. O Ministério da Agricultura tem capitaneado as negociações com o bloco europeu, fazendo listas de fazendas, desfazendo listas, voltando a fazê-las... Pergunto, a quem interessa exportar carnes para a Europa? Os iluminados do governo vão responder “estamos defendendo os interesses nacionais”. Ah bom! Se dentro desse conceito de “interesses nacionais” estiver o tonto do contribuinte, é do interesse desse último que NÃO sejam exportadas essas deliciosas carnes, pois dessa forma sobrará mais produto no mercado interno e os preços cairão. Agora, creio eu que por “interesses nacionais” os iluminados querem dizer, na verdade, que são única e exclusivamente os interesses dos atores da cadeia produtiva da carne. É incrível como se mobiliza todo um Ministério (de necessidade contestável, diga-se) para, despudoradamente, defender os interesses de uma indústria. Quero um ministério pra mim.

Anônimo disse...

Prezado Adolfo,

como frequentador assíduo do seu blog, gostaria de sugerir que fosse feita uma entrevista com o Professor Olavo de Carvalho. Acredito serem de muita iportância as palavras do Professor Olavo e ficaria feliz de ver uma entrevista dele por aqui.

Parabéns pelo trabalho!

Fabio disse...

"Meus professores ... sempre procuraram esconder dos alunos pensadores como Hayek e Mises."

Fantástica, essa frase. Lança luz sobre as táticas da doutrinação esquerdista: além de propagar teorias criminosas e mentirosas, escondem as coerentes. Outra tática é utilizar a "boa intenção" para mascarar a verdadeira intenção. Bem, devem existir milhares. Se alguém souber de um estudo ou livro sobre isso, compartilhe!

"... temos sempre que chamar a atenção do leitor para estas tentativas de assassinar a lógica e a ciência em prol da burrice."

Nessa frase acima, no entanto, acho que o Prof. Shikida abaixou a guarda. Não podemos subestimar a malícia infinita da espécie "pterodoxa", que usa a "burrice" como tática de dominação. A guerra ideológica travada nas últimas décadas foi vencida pelos esquerdistas -- praticamente toda a população concorda com suas teses. Quero saber: o que fazer para reverter esse quadro?

CONSAGRAÇÃO DE UM TEMPO disse...

Sensacional esta entrevista, pena que ja fazem alguns anos! Kd a entrevista com Olavo de Carvalho?

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