sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Entrevista com Orlando Tambosi

Orlando Tambosi é autor do excelente blog: http://otambosi.blogspot.com/ recomendo a visita.


1) O ex-presidente FHC disse que não existem diferenças ideológicas significativas entre o PT e o PSDB. O Sr. concorda com ele? Se FHC acha isso mesmo, então por que ele sempre se aliou ao DEM e não ao PT? O que podemos inferir a partir da afirmação do ex-presidente?

R.: Se FHC reconhece isto, é porque não há mesmo muita diferença. Na verdade, sempre o vi como uma espécie de padrinho de Lula. Foi até paternalista com ele, quando deveria era dar cascudos. O fato é que PSDB e PT têm a mesma origem, a luta contra a ditadura. São primos, como já disse o amigo Roberto Romano. Daí se explica a dificuldade de o PSDB assumir uma posição mais agressiva em relação ao governo Lula. Falando mais claro: assumir um papel de oposição de fato, coisa que até agora não demonstrou ser. Devido a essa ambigüidade, fez alianças com partidos, como o hoje DEM, para sobreviver depois da derrota eleitoral. Talvez, no início, FHC subestimasse a sede de poder e de cargos do petismo. Ora, o PT é hegemonista, jamais cede aos aliados. Compra-os, usa-os, mas não partilha realmente o poder. Seguindo o raciocínio de FHC, não é de estranhar que em Minas, por exemplo, esteja se formando uma aliança entre o tucano Aécio Neves e o PT local. Não tenho dúvida, porém, de que ela trará mais benefícios ao petismo que ao PSDB.

Por fim, acho que é necessário fazer também uma distinção – que não é superficial – entre PSDB e PT. Há que se reconhecer que os tucanos foram e são menos autoritários que os petistas. O PSDB nunca representou um perigo para as instituições e regras democráticas, ao contrário do PT, que, no fundo, despreza a democracia, considerada “burguesa”, “formal” etc. Nos últimos anos, já vimos diversas investidas do PT contra as liberdades.


2) Fidel Castro é um assassino, por que é tão difícil as pessoas, não só no Brasil mas ao redor do mundo, aceitarem isso?

R.: O ditador Fidel Castro marcou indelevelmente o imaginário das “esquerdas” latino-americanas (mas há também os “idiotas” europeus, como ilustra o livro “A volta do idiota”). Mostrou que era possível enfrentar o “império” e encarnou os ideais revolucionários dos anos 60, com suas toscas utopias de sociedade perfeita, justa, igualitária, sem classes etc. Os acontecimentos de 1989/1991 – queda do muro de Berlim e desmoronamento da URSS – jogaram por terra essas idéias, mostrando os horrores que haviam produzido, mas não eliminaram o culto ideológico de grande parte das “esquerdas” à ditadura comunista remanescente, justamente a de Fidel Castro. Não é fácil desvencilhar-se de ideologias; elas confortam espíritos menos inquietos e mais arredios ao conhecimento. Por isso mesmo, é em países atrasados - como os latino-americanos -que as ideologias ainda sobrevivem.


3) O Islã se diz uma religião pacífica, mas seus líderes parecem não recriminar de maneira explícita terroristas como Bin Laden. Por que?

Sempre se falou que existe o Islã moderado, mas a verdade é que, até hoje, ele não mostrou a cara. Se os ditos moderados não condenam o terrorismo, é sinal de que, no fundo, o aprovam. O fato é que o islamismo é avesso aos valores ocidentais, com os radicais difundindo, a partir da Arábia Saudita, uma cruzada contra o odiado Ocidente.
Ayaan Hirsi Ali, que viveu o islamismo, revela em seu belo livro (“Infiel”, SP, Companhia das Letras) que o Islã é incompatível com a democracia. Ela é somali, mas viveu algum tempo na Arábia e em outros países muçulmanos e teve a coragem de dizer que o pensamento reinante sob as leis do Corão é incompatível com os direitos humanos e os valores liberais. Esse tipo de pensamento – são palavras dela – “preserva uma mentalidade feudal arrimada em conceitos tribais de honra e vergonha. Apóia-se no auto-engano, na hipocrisia e em padrões dúplices. Depende dos avanços tecnológicos ocidentais ao mesmo tempo que finge ignorar sua origem no pensamento ocidental. Nessas sociedades, a crueldade é implacável; e desigualdade, a lei da terra. Os dissidentes sofrem tortura. As mulheres são policiadas tanto pelo Estado quanto pela família, à qual o Estado outorga o poder de lhes governar a vida”. Ora, que religião pacífica é esta, e onde estão os moderados?

4) Por que a filosofia alemã (geralmente enaltecendo o Estado) e não a inglesa (geralmente enaltecendo a liberdade individual) prosperou no Brasil? É possível mudar isso? Como?

R.: O Brasil é um exemplo legítimo de Estado hegeliano: o Estado fundou a sociedade. Na tradição inglesa, ao contrário, é a sociedade que funda o Estado. Mas não diria que o nosso estatismo seja culpa da filosofia alemã. Somos herdeiros da cultura católico-ibérica, antiliberal, anti-reformista, imposta a ferro e fogo pela inquisição. Espanha e Portugal lutaram contra a modernidade e foram os países mais atrasados da Europa até quase o final do século XX. Foram, inclusive, os últimos a se livrarem de ditaduras. Essa é a cultura latino-americana. O Estado é pai e provedor, o coletivo está sempre acima do individual. O individualismo é visto como um mal a ser extirpado.

A igreja católica – ponta de lança da contra-reforma - contribuiu muito para esse pensamento. A riqueza é hostilizada, o mercado é mal visto e o lucro é coisa do demônio. Não há lugar para o indivíduo nessa visão paroquial do mundo. Depois, para completar o quadro, surgiram as idéias socialistas, mais uma vez reforçando o nosso estatismo e colocando o Estado como propulsor da economia. O PT é o desfecho disso tudo.

Não sou culturalista, mas acho que a cultura é um fator que pode tanto libertar quanto criar sérios obstáculos. No nosso caso, foi um obstáculo. É possível mudar? É, mas a luta é gigantesca e sem prazo. Autores e idéias liberais são praticamente desconhecidos por aqui, mesmo dentro das universidades. Em todos os setores, impera um ideário mais ou menos marxista. É preciso começar essa mudança já nas escolas, desde o primário. Não bastam os jornais, a televisão e a internet. Por aí se vê a enormidade da tarefa.

5) Se você pudesse aprovar uma única lei no Brasil, qual lei seria essa?
R.: “Ficam extintos todos os cargos comissionados no Executivo, Legislativo e Judiciário”.

7 comentários:

Anônimo disse...

Compartilho a opinião do Sr. Tambosi.
A coisa é realmente complexa. De minha parte, adiciono que, se os empresários deste país tivessem consciência do perigo que representa, até para si próprios, as ideologias estatizantes, bem que poderiam ser poderoso vetor de conscientização suficientemente eficaz e abrangente.

Anônimo disse...

Respostas claras, coesas, e colocadas de forma agradável de ler. Embora as perguntas sejam sobre assuntos polêmicos, Orlando Tambosi responde de forma objetiva e tranqüila. Fomos brindados com um texto de qualidade, com muita informação e que merece ser guardado para leituras posteriores.

Alcimar do Nascimento

Anônimo disse...

Beleza a resposta sobre a ultima pergunta que o Adolfo insiste em mantê-la. MUitos aqui no blog já teriam dançado.

Orlando Tambosi disse...

Agradeço ao Adolfo

e aos gentis comentadores. Valha a brincaeira: não estamos sós!

Blog do Adolfo disse...

Caro Orlando,

Nós é que agradecemos sua excelente entrevista. Obrigado,

Adolfo

Anônimo disse...

Olá! Produzo um tablóide nanico em Florianópolis - título Ilha Capital, 16 páginas, 9 mil exemplares de circulação mensal, distribuição gratuita. Gostaria de obter sua autorização para publicar a íntegra da entrevista do professor Tambosi. Já obtive o Ok dele.
Grata
Maria Aparecida Nery
obairro@yahoo.com.br; contato@ilhacap.com.br

Andre Bohn disse...

Excelente entrevista, gostaria apenas de acrescentar que para mudar a tendência coletivista, é preciso diminuir a conceito apocalíptico dos ambientalistas no que se refere a sustentabilidade. A liberdade individual é principalmente atacada pelos esquerdistas, pelo fato que esta gera acesso aos bens de consumo, e segundo eles, o mundo não suporta tantos consumidores. No entanto acho muito simplista esta posição, quando ocupamos apenas 7% da crosta terrestre, em um mundo imenso, pensar em esgotamente de recursos naturais, me parece tática para implantação das ideias esquerdistas, além de garantir a dinastia dos super ricos do mundo. Acredito que hoje se utilizam o aquecimento global (farsa), e outros argumentos ambientalistas, para legitimar o socialismo, comunismo e ditaduras, pois esses sistemas são mais facilmente manipulados denovo pelos super ricos, afinal são os paises com maior corrupção no mundo como Russia e Brasil.

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