quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Nem Tudo que Reluz é Ouro

Há alguns anos atrás uma nova metodologia influenciou profundamente os estudos em economia. Esse novo método de comparação de dados internacionais chamava-se Paridade do Poder de Compra (PPC). A idéia era a seguinte: não podemos comparar dados de países diferentes de maneira direta, pois o custo de vida é diferente nos distintos países. Por exemplo, quando calculamos o PIB da China o corte de cabelo contribui com 5 dólares (o preço do corte de cabelo naquele país), já o mesmo corte de cabelo contribui com 15 dólares no PIB americano (preço do corte de cabelo nos Estados Unidos). Assim, temos que o mesmo serviço é valorizado de maneira distinta em países diferentes. Para eliminar esse problema surgiu a idéia da PPC. Pela metodologia da PPC, produtos similares são contabilizados pelo mesmo preço. Ou seja, o corte de cabelo na China passa a ter o mesmo valor do corte de cabelo na América.

A idéia central da PPC – de contabilizar produtos similares em países diferentes pelo mesmo preço – perimitiria, em teoria, uma comparação mais realista do padrão de vida desfrutado por países distintos.

Em teoria a idéia da PPC é boa e faz muito sentido. Já na prática ela conduz a erros gigantescos de análise. Por exemplo, a PPC superestima o PIB de países pobres onde o custo do trabalho é baixo. Assim, países como a China e a Índia passam a figurar entre os mais ricos do mundo. Aparecendo inclusive à frente de Inglaterra e França. É evidente que isso não pode estar correto. Afinal, é comum vermos chineses e indianos migrando ilegalmente para França e Inglaterra, mas o inverso não parece ser verdadeiro.

Vários economistas usaram no passado, e continuam adotando no presente, dados corrigidos pela PPC. Tais estimativas não podem ser consideradas sem sérias restrições metodológicas. Além disso, a implicação delas decorrentes fica extremamente comprometida. Quando surgiu, a PPC causou sensação. Mas a verdade é que ela foi um tremendo passo para trás em termos metodológicos. A lição que fica é a seguinte: por mais sedutora que seja uma idéia teórica ela não pode se furtar de fazer sentido no mundo real. Tivessem os economistas o mínimo cuidado em comparar coisas óbvias, como o fato da China e Índia não serem países ricos, e esta gafe metodológica nunca teria ido tão longe.

5 comentários:

Anônimo disse...

Bem lembrado. Acho porém a negligência do IBGE mais critica. Como o IBGE trata o efeito do desmatamento no PIB? Como o IBGE trata o desperdicio e corrupção nas obras públicas no PIB? Todos os dias presenciamos o assoreamento dos nossos rios e seus efeitos danosos sobre a economia. COmo isso é tratado no PIB pelo IBGE?
UM abraço
Marco b

Reginaldo Almeida disse...

Adolfo, eu não sou economista, mas me considero um certo neófito no assunto. Gostaria de te perguntar onde é que as vantagens comparativas aparecem num PIB feito via PPC?

Outra coisa que me intriga é que às vezes me pergunto se o PIB, que está diretamente ligado ao consumo, realmente é uma boa medida. Vemos países que consomem muito, mas também consomem muita porcaria.

Não seria interessante um PIB que tomasse em conta apenas os bens duráveis?

Blog do Adolfo disse...

Caro Reginaldo,

toda medida tem limitacoes. O importante é que essas limitações não beneficiem, ou prejudiquem, recursivamente e de maneira viesada, determinado grupo de paises.

As vantagens comparativas aparecem no numero de trocas de um pais, assim tanto o PIB normal como o corrigido pela PPC vao mostrar esse fenomeno.

Ja existem medidas que levam em conta apenas o consumo de bens duraveis. Mas estas informacoes estao nas contas nacionais de cada pais.

Adolfo

Totti_ucb disse...

Este tipo de media pode ser usado para ver o crescimento de um País??
Se for isso poderia explicar as taxas elevadas de crescimento a qual a China vem demonstrando nos ultimos dez anos?? demonstrando com isso que suas taxas de crecimento estão fora da realidade??

Anônimo disse...

Caro prof.
Cada cidadão deveria ter uma força de reivindicação com mais abundância,como no exemplo citado, o Governo não está preocupado em cumprir com suas obrigações e sim agir com descaso.Se cada pessoa fiscalizar as atitudes do Governo, talvez assim a situação poderia ser diferente.
Deives

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