quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Outra vez sobre a crise americana

Este blog já havia alertado, e vai insistir no ponto novamente: É ERRADA a maneira como os Bancos Centrais têm atuado para amenizar a crise financeira atual, gerada pelo mercado de sub-prime nos Estados Unidos. O argumento é simples: perdeu dinheiro quem investiu no risco. A decisão de investir em mercados arriscados embute tanto riscos altos quanto retornos elevados. Vários agentes ganharam muito dinheiro no passado apostando no risco. Agora que perderam os Bancos Centrais têm atuado para socializar os prejuízos. Esse comportamento, seguido principalmente pelo Banco Central Americano (FED), parece mandar a seguinte mensagem ao mercado financeiro: “se você for arriscar, arrisque muito. Se você ganhar, ótimo. Se perder, nós ajudamos”. É evidente que esse tipo de mensagem irá ter impactos sobre o nível de risco que os bancos e corretoras aceitarão tomar no futuro.

O mais engraçado de tudo é que o presidente do FED, Ben Bernanke, é um economista de primeiro time, com sólida formação teórica e publicações internacionais. Mas, tal como diria Milton Friedman, a maioria dos cientistas defende uma coisa na academia e outra quando vão trabalhar para o governo. Todos os economistas conhecem bem o problema de consistência temporal (a idéia de que seguir uma regra é melhor do que mudar de política ao sabor do mercado), qual a dificuldade de implementar no mundo real o que ensinamos em sala de aula?

Ben Bernanke está cometendo o mesmo erro de outro bom economista teórico (mas que foi um fracasso à frente do FED), Burns, que também tentou acomodar choques. O legado de Burns foi uma inflação alta que cobrou um alto preço (em termos de desemprego) para ser contida. Ao invés de estar tentando acomodar o choque, o FED deveria manter sua política monetária inalterada. Claro que isso implicaria em altos custos no presente, mas preservaria o futuro da economia americana. A atuação do FED está evitando apenas temporariamente o preço do ajuste, e pior do que isso: está dando os incentivos errados ao mercado. Não se enganem, o custo desse erro irá aparecer cedo ou tarde.

Tenho ouvido pessoas dizerem que a crise americana foi gerada por causa do excesso de crédito e que a solução seria o FED restringir o crédito imobiliário. ERRADO novamente. Essa crise foi causada porque os bancos e corretoras apostaram numa ajuda do FED caso algo desse errado (aposta acertada até o momento). O FED não tem que restringir o crédito imobiliário fornecido pelo setor privado. Se uma empresa quer emprestar para alguém, qual o direito o governo tem de intervir? O máximo que o FED pode fazer é monitorar o mercado de crédito imobiliário e informar à sociedade o nível de exposição de cada banco.

Para finalizar, uma pergunta aos amantes de modelos a la IS x LM: numa economia aberta, com taxas de câmbio flexíveis, qual o efeito sobre o PIB doméstico de um choque de demanda externo? Resposta: nenhum, o efeito é todo absorvido pela variação cambial. Não deixa de ser irônico notar que professores que ensinam isso na universidade, e acreditam que essa modelagem funcione, preguem o contrário em público. Alguns deles inclusive sugerem que para se combater a crise se FIXE a taxa de câmbio (exatamente o contrário do que o modelo que eles ensinam, e acreditam, sugere).

10 comentários:

Irineu disse...

"Se uma empresa quer emprestar para alguém, qual o direito o governo tem de intervir?"

Adolfo, se o emprestador eh cliente do FDIC, o governo tem todo direito de intervir.

Cidley disse...

Modelos de Corridas Bancárias (bank runs) também fazer parte do corpo teórico da economia monetária. Dentro dessa linha, é coerente defender a intervenção do FED. Porém, concordo contigo que isso vicia os agentes, já que o Banco Central vai gastar muito dinheiro com medo de uma crise sistêmica.
Só considero injusta a crítica à pessoa do Bernanke. Injusta e desnecessária para a crítica que você quis fazer.

Blog do Adolfo disse...

Caro Irineu,

Muito obrigado por seu comentario. Deixa eu corrigir minha frase:

"Se uma empresa quer emprestar para alguém, E SE ESSA MESMA EMPRESA SE ABSTEM DE TER ACESSO A RECURSOS PUBLICOS, qual o direito o governo tem de intervir?"

Seu ponto esta correto, se o governo empresta dinheiro a empresa, entao ele tem o direito de interferir nas escolhas dessa empresa.

Adolfo

Totti_ucb disse...

Acredito, que o mercado deve se equilibrar sozinho, quanto menos os governos intervirem na economia melhor. entao, se eles apostaram em grandes ganhos, e o mercado nao retornou esses ganhos, creio eu que eles agora devem pagar pelos prejuisos.

Alexandre disse...

Adolfo,
Boa tarde, sou seu aluno de Macro de segunda feira,é meu primeiro comentário. Adolfo, já que é de conhecimento do FED que os Bancos cedem este crédito sem certeza de retorno e se houver um retorno este não cobrirá o "rombo" por que o FED não impõe barreiras ou mesmo passe tal informação para a população? E tenho certeza de que o FED tem conhecimento de que está apenas adiando o desastre ( a menos que tenha um super plano infalível que ninguém saiba ) por que continua a fazê-lo?

Atenciosamente

Alexandre de Lima Pinho.
Ciências Economicas.

Anônimo disse...

Adolfo,Aplico em ações e vejo que muitos como eu preferem arriscar muito e ganhar muito, corremos um grande risco, só as ações em um certo período ficou meio estagnada, eu seja, muitos ganharam com especulações de um dia para outro e isso cresceu os olhos de muitos, o problema que eu acho e que a intervenção é para a não fulga dos grandes investidores de altos riscos, lógico que o mercado vai absorver essa informação dando uma bomba relógio para o futuro;Contudo, em relação aos economistas estarem fazendo coisas que são contra as suas convicções isso é normal, está em toda parte, ele obedece a um sistema, infelizmente,...
Ju( Junara)

Anônimo disse...

Casualmente estou lendo Capitalismo e Liberdade, do Friedman. O que me chamou atenção no texto do blog, foi a crítica feita ao Bernanke quando esse resolve socorrer os bancos e, dessa forma, tentar acomodar choques, citando Milton Fredman ( a menos que o comentário sobre Friedman tenha sido somente para embasar a incoerência do que se defende na teoria e o que se põe em prática ).Friedman justamente critica o Federal Reserve System por não ter liberado dinheiro para socorrer os bancos e evitar sua falência : “A primeira vez em que esses poderes se tornaram necessários, e, portanto, o primeiro teste de sua eficiência, ocorreu em novembro e dezembro de 1930, como resultado das falências bancárias já comentadas acima. O Reserve System falhou tristemente. Fez muito pouco ou nada para fornecer liquidez aos bancos, considerando aparentemente, o fechamento de bancos como pouco importante. É conveniente enfatizar, contudo, que o fracasso do System foi um fracasso de vontade , e não de poder. Nessa ocasião, como nas que se seguiram, o System tinha amplos poderes para fornecer aos bancos o dinheiro que seus depositantes reclamavam. Se isso tivesse sido feito, o fechamento dos bancos teria sido evitado e a debaclê monetária não ocorreria.”. Tá certo que depois ele critica a concentração de poder para decidir sobre um assunto tão importante nas mãos de um grupo pequeno de homens e continua dizendo que um sistema que dá tanto poder para homens cujos erros podem ter efeitos tão severos, é um mau sistema. Mas o fato é que o sistema é assim e o poder de decisão sobre política monetária está concentrado nas mãos de poucas pessoas. Neste caso, segundo o que eu pude entender, até mesmo Friedman acha necessária a intervenção do Banco Central para evitar agravamentos na crise de uma economia. Ou entendi tudo errado?

Blog do Adolfo disse...

Caro Anonimo,

Seu ponto eh muito interessante. Eu mesmo escrevi um post no ano passado (logo apos a crise), comentando sobre a vitoria das ideias de Friedman. Pois minha leitura da acao do FED, de aumentar a liquidez do sistema, era justamente a de que o FED estaria seguindo a sugestao de Friedman. CONTUDO, 2 pontos devem ser levados em conta:

1) em 1930 a taxa de cambio era fixa (padrao ouro). Isso tem implicacoes distintas do modelo de taxa de cambio atual (que eh flexivel); e

2) Friedman nao era a favor da existencia de um banco central.

Assim, nao sei qual seria a postura de Friedman na crise atual. Mas creio que ele nao seria a favor de ajudar uma empresa pelo simples motivo dela ser "muito grande para quebrar".

Adolfo

Anônimo disse...

Moral da história: lugar de professor é na sala da aula, onde fazemos menos estrago. Banco Central é para profissionais.

Roberto

thiago stellet disse...

A CRISE DO EUA COMO SEMPRE ABALA TODO O MUNDO ATRASANDO A ECONOMIA MUNDIAL, TODA ESSA LIBERDADE DOS BANCOS É COMO SE FOSSE UMA BOMBA, E POR FALAR EM BOMBA NÃO PODEMOS ESQUECER A TRADICIONAL EMPRESA EUA GUERRAS QUE PELO VISTO ACOBOU DE TOMAR UM PREJUIZO E O PIOR DE TUDO NÓS ESTAMOS DENTRO PREJU ...

Google+ Followers

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Follow by Email