domingo, 1 de junho de 2008

Contra a Intervenção do Estado na Saúde

Muitos acreditam que a presença do Estado no mercado de saúde ajuda a diminuir a mortalidade. Isso está incorreto: quando o Estado intervém nesse mercado, propiciando saúde gratuita a todos, a curva de demanda por saúde se desloca para a direita (aumenta), mas a oferta de saúde permanece inalterada. Esse tipo de movimento apenas aumenta o preço pago pelos que não querem depender da saúde pública, mas não garante que menos pessoas irão morrer. No final do processo, a intervenção estatal no mercado de saúde gera filas. Isto é, muitas pessoas que precisam continuam sem serem atendidas: irão morrer esperando nas filas. Se a saúde fosse paga, algumas pessoas não teriam dinheiro para pagar por seu atendimento e iriam morrer. Contudo, o fato da saúde ser pública NÃO evita o problema. Afinal, dada a existência de filas, nem todas pessoas que precisam irão receber atendimento.

Numa economia de mercado os que não tiverem dinheiro irão ter problemas, numa economia estatal quem chegar depois na fila irá ter problemas. Trocar a saúde privada apenas muda o ordenamento do atendimento: dos que têm dinheiro para os que têm tempo de esperar nas filas. Mas não sejamos tão incrédulos no mercado. Economias de mercado têm sido prósperas em montar estruturas de ajuda aos mais necessitados, e a igreja sempre se destacou nesse segmento. Assim, mesmo os mais necessitados não ficam completamente descobertos numa sociedade livre da intervenção do Estado na saúde. A caridade privada, numa economia de mercado, é mais poderosa do que a maioria dos especialistas é capaz de prever. No final, se as pessoas realmente se importam com os mais pobres, o próprio mercado será capaz de criar estruturas para a ajuda a esse segmento da população.

Dar ao Estado a oportunidade de intervir no mercado da saúde equivale a dar ao Estado a chance de intervir diretamente na nossa vida privada. Afinal, se o Estado irá pagar por nosso tratamento, então é lícito ao Estado dizer como devemos viver, o que devemos comer, quanto tempo teremos que nos exercitar por dia, etc.. Assim, tão logo o Estado passe a financiar nossos custos de saúde ele começará a exigir determinadas contrapartidas nossas. Cedo ou tarde começaremos a ouvir: “como o Estado terá que pagar o tratamento do indivíduo, então é justo proibir o fumo. Afinal, no caso do fumante, toda a sociedade estará pagando o custo de um mau hábito individual”. Com o tempo, seremos proibidos de comer fritura, beber cachaça, ou de simplesmente ficarmos de barriga para o ar.

Não interessa se você concorda com os maus hábitos dos outros, desde que você não seja obrigado a pagar por eles isso não é problema seu. Mas tão logo a sociedade seja obrigada a pagar por hábitos individuais, ela irá exigir as devidas compensações cerceando a liberdade de escolha das pessoas.

9 comentários:

Anônimo disse...

Como um liberal (caipira, como todos nós aqui), destaco que o equilíbrio político é sempre superior ao econômico. Digo ainda, a tese é de fácil comprovação (de que está errada). Primeiro, não existe nada de graça em lugar nenhum. Assim, o correto seria afirmar que a sociedade tomou uma decisão que retira do mercado a alocação dos recursos para a sua consecução. Nada de errado nisso. Pergunte a qualquer cristão ou sacristão se ele não gostaria de ter um serviço de saúde pública custeado com seus impostos. Pergunte ao francês, ao italiano ao alemão e até ao iraniano. Pergunte ao inglês também. Pergunte ainda se a medicina americana é superior a do alemão ou mesmo a do inglês (verificando em que lugar se morre mais, por tipo de doença). Depois, faça o teste nesses países para confirmar a sua teoria ou suas assertivas. Intuitivamente antevejo que a sua tese está incorreta, até mesmo porque não foi formulada num contexto de livre escolha de bens ou serviços que teriam natureza de bens públicos (embora remédio não seja considerado bem público, pelo paradigma econômico neoclássico).
Um abraço
Marco B

Fabio disse...

Ótimo comentário Adolfo, na mosca. Mas os comentários do Marco B, de que "equilíbrio político é sempre superior ao econômico" e de que "a sociedade tomou uma decisão" são perigosos. O resultado do "equilíbrio político" e das decisões da sociedade, no caso da saúde, é o seguinte: sistema ineficiente, quebrado, impossível de auto-sustentar-se e a morte do mesmo número de pessoas que morreriam sem o sistema; além do mais, a quebra da moral do país.

O papel de um analista como o Adolfo é o mesmo de um Hayek ou um Bastiat: mostrar às pessoas que suas intuições econômicas levam-nas a resultados opostos aos que pretendiam. Não adianta perguntar às pessoas o que elas querem, porque são pouquíssimas que entendem "aquilo que é visto e aquilo que não é visto". O trabalho árduo é o de convencimento: mostrar a elas que suas "boas intenções" podem levá-las ao inferno aqui na terra.

Anônimo disse...

Grande, Adolfo. Foi ao ponto: ao propiciar saúde gratuita (?) a todos, o governo desloca a curva de demanda por saúde para a direita, porém a oferta de saúde não muda. Como você notou, o resultado é óbvio: aumento de preços. Agora, faz o seguinte: conversa com um Zé Mané qualquer e explica pra ele seu ponto. Você, no mínimo, ouvirá xingamentos a seus ancestrais etc. Sabe por quê? Porque nestas terras bananeiras poucos (como você, eu e outros poucos) atribuimos algum valor ao futuro. Nestas paragens ensolaradas que Deus criou, vale o ditado: "Se tem pra hoje, amanhã Deus dá!". É por isso que, apesar de todas as evidências de que nossos governantes são canalhas, eles são re-eleitos sistematicamente. Dito isso, meu amigo, o que você escreve é ótimo de ser lido por mim e por uns poucos que pensam com o cérebro. Para a maioria que não pensa com o cérebro, é como lançar pérolas aos porcos.

Badger disse...

O americano não morre mais cedo que o europeu por problemas de saúde. Isto é uma grande mentira perpetuada por razões ideológicas. O sistema de saúde americano é claramente superior, basta dizer que tem europeu e canadense que vem se tratar nos Estados Unidos mas nunca o contrário.
O americano na média morre mais cedo que alguns povos europeus por diferentes motivos: (a) por causa do grande número de imigrantes pobres que chegam ao país com saúde debilitada e mantém hábitos pouco saudáveis, (b) por causa do grande número de jovens que morrem defendendo a liberdade do mundo em conflitos armados, e (c) por causa do uso de automóveis em maior número que em outros países.
Se descontados estes três fatores, o americano tem a maior longevidade no mundo. O americano de classe média e alta, em particular, é imbatível na questão da saúde. Além disso, quase toda a tecnologia médica moderna é produzida por empresas americanas ou com tecnologia predominantemente americana. Ou seja, o europeu se comporta como perfeito "free rider" ao se beneficiar da proteção das forças armadas americanas e da tecnologia médica americana sem ter pagar a conta.
O dia em que o sistema americano de saúde se tornar similar ao sistema europeu será um triste dia para a humanidade.
O dia em que os Estados Unidos deixarem de defender a liberdade no mundo será um triste dia para a humanidade.

Anônimo disse...

Respondendo ao Fábio. A tese de que o equilíbrio político é superior ao econômico é dos liberais de boa cepa. Friedman ensinava isso em Chicago e está em seus escritos. Quando falo em decisão política, assumo como hipótese de que estamos numa democracia bem estruturada; não a brasileira. Além disso, nunca ouvi que liberal achasse que seu voto é mais importante do que o do simples cidadão. Mesmo que falasse, eu não acataria essa tese. Podemos ter a tirania da maioria sobre a minoria, mas me parece que isso é outro assunto, embora importante. A preocupação essencial dos liberais é com a liberdade individual e com boas instituições que elevem o bem-estar social, tendo como fé que o contexto competitivo e de um Estado pequeno são preferíveis. O mundo é cercado de ineficiências e não há como nos livrar de todas. Por isso a pregação de um ambiente competitivo. Quanto ao comentário do Adolfo, eu o acho totalmente falho. Do ponto de vista econômico, ele deveria ter em conta que o Estado ao assumir a saúde como pública nos colocaria diante de uma situação de um único comprador: o Estado (só para simplificar o raciocínio, embora o contexto possa não ser bem esse). Além disso, na prática, quando o Estado assume por completo a prestação do serviço de saúde, naturalmente tratará de regular a oferta e estabelecer regras de conduta para ambos os lados, deixando inclusive a opção de saúde privada (se assim não fosse, o que tanto defendo não teria sentido). Afirma também que, se houvesse saúde gratuita, a demanda se deslocaria e haveria mais filas. Isso também merece reparos, porque os serviços seriam apenas reestruturados e a quantidade de serviço se alteraria em função da regra de otimização a seguir por um único comprador, o Estado. É claro, eu admiti para simplificar, um contexto de monopsônio natural. O que de fato teríamos seria uma série de medidas regulatórias que não sei precisar, porque desconheço os detalhes da boa experiência francesa, alemã, inglesa ou outras que intuo melhores que a nossa. Além do mais, o que estava a falar é de um bom serviço público. Por que tenho que assumir que o serviço pioraria? Por que tenho que assumir que os impostos vão aumentar para melhorar o serviço público de saúde? Posso muito bem retirar dos pagamentos dos encargos da dívida pública ou de outras fontes os recursos para um bom sistema de saúde. (Os banqueiros não gostarão). Mas é claro, se o problema é fome, a solução é outra também. Por fim, ressalto minha posição pessoal. O meu convênio de saúde é pago em parte pela empresa em que trabalho que é estatal e por isso eu luto para saúde pública e farei assim, procurando ser coerente com que faço e com o que falo, mesmo sabendo que cometo meus erros. De qualquer forma, como cidadão, prefiro o sistema europeu de saúde (o de aposentadoria também).
É o que penso
Marco B.

Anônimo disse...

Adolfo,
Uma analise de "demanda agregada"... se podemos dizer assim.
Mas lembro que "saude" não é apenas O tratamento.
Contra cancer de fumantes, infarto de cardiacos comedores de frituras e AVC.

Há uma componente de "Saude" preventiva. Commo campanhas de vacinação ou contra doenças infecto-contagiosas, ou contra epidemias. Programas de saude públcia, etc...Monitoramento de endemias.
Nestas haveria um problema de "externalidade negativa", como no caso da Dengue. Visto que o sujeito individualmente pode fazer todo o esforço do mundo matando o mosquito, levando filho pra vacinar etc.. mas se o vizinho não o fizer, de nada adianta. Essa falha não daria pra corrigir com mecanismos de mercado. O produto ou "bem" "saude" é muito mais amplo do que o bem "tratamento de saúde", penso.
Sds
Por ultimo, Otimo Blog.

Totti_UCB disse...

Caro Adolfo.

Vejamos um ponto nao colocado aqui.
o serviço hospitalar publico vendo pelo lado economico nao pelo lado social, deveria ser mais rapido e eficaz do que o sistema de saude particular.
por que?
simples, para o governo o interesse seria de curar a doença do infeliz e mandalo pra casa pra criar mais impostos para o governo.
ja o sistema privado, tem o interesse em manter o seu cliente, mas nao em curar a doença por completo. ja que se o passiente fica vivo mas acamado e nao pode ser transferido o hospital particular esta ganhando com diarias de quartos, horas trabalhadas de enfermeiros e medicos, medicamentos usados dentre outros.ou seja um doente vivo, e com dinheiro é melhor que um vivo saldavel que ira passar talvez anos sem passar o seu credcard no guiche de atendimento.
ou seja ao meu ver, tirando as longas filas na maior parte das vezes ainda vale mais ir ao hospital publico.....

Rsssss. é so um ponto de vista.

Anônimo disse...

artur nogueira diz:
Trabalho no sistema público de saúde, onde existem inumeras falhas e contradiçoes terríveis.Poderia funcionar melhor, se se repensasse a "porta de entrada", ou seja, como alocar serviços de saúde de acordo com sua demanda. Penso também no paradoxo ref. atendimento de média e alta complexidade, onde a demanda do setor privado,mesmo aqueles que tem plano de saude e condiçoes de arcar com procedimentos e medicamentos, buscam a "saída salvatória" no setor público, onerando muitas vezes aqueles que só dependem do setor publico de saúde.

... como se eu fosse a única. disse...

Tudo cheirando a mimimi de classe média pro direita/capitalista.

Culpa desses cabra que sempre votaram nos partidos historicamente pro-EUA, pro-Ditaduras e pro-Direita que o Estado, até o Governo Lula, tava pouco se lixando pro tamanho das filas ou pra quantas morreriam... A tevê encobria e o povinho metido a besta continuaram a votar pragas a la PSDB e DEM(o).

Governo tem de intervir na saúde, sim, no entanto é preciso desconcentrar os locais de atendimento e a forma à se realizar exames e todo esse bla bla bla pra se obter atendimento médico.

Pagar privadamente? Cara, é um assalto, todas os planos particulares de saúde...


cansaaaada do mimimi da direita.. ou dos bonitões que se se fuderem, correm pra europa ou pros eua, pra se tratarem...

Google+ Followers

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Follow by Email