quinta-feira, 5 de junho de 2008

Entrevista com o Professor Leonardo Monasterio

Voltando a tradição de entrevistas às sextas-feiras, hoje segue um bate-papo sensacional com o Professor Leonardo Monasterio que também mantém um blog na internet: (http://lmonasterio.blogspot.com/)

1)Quais são os fatos mais ignorados, ou mais mal compreendidos, sobre a escravidão no Brasil?

Existem dois pontos que já estão bem estabelecidos na literatura dos últimos 25 anos, mas que ainda são desconhecidos de boa parte do economistas fora da área e do público em geral. O primeiro ponto, mais geral, é a quebra da visão estereotipada da escravidão. Eu me refiro àquela imagem tradicional do escravo brasileiro na plantation, em plantéis de centenas e produzindo uma daquelas mercadorias típicas dos chamados “ciclos” (açúcar, ouro, café...). Bem, todas as evidências do pessoal de história demográfica mostram que os pequenos plantéis, uns 5 escravos, eram o mais comum no Brasil. Aquela imagem de livro-texto de história do Brasil era, na verdade, observada em alguns lugares e momentos específicos. Diz-se hoje que havia um mosaico de atividades escravas: pesca, pecuária, manufatura, escravos de ganho (que buscavam ocupações diversas nas cidades e pagavam um valor fixo para os seus proprietários) e até escravos músicos! Havia toda uma combinação elaborada de punições e incentivos elaborada pelos senhores que variava de acordo com a ocupação. Claro que não era nada bom ser escravo (a prova está na compra de alforrias pelos escravos, as rebeliões e tudo mais), mas, como diz o João Fragoso, a escravidão no Brasil não era um campo de concentração.
O outro ponto que merece revisão é a irracionalidade econômica da escravidão. Até por culpa dos economistas ficou essa essa idéia de que o trabalho escravo é intrinsecamente menos eficiente. O Adam Smith diz que o escravo “trabalha o menos que pode e consome o mais que pode”. Ora bolas, o trabalhador assalariado também! Existem custos de supervisão nos dois casos. O pessoal marxista também acha que a manutenção do trabalho escravo seria um empecilho à acumulação. Isso simplesmente não é verdade. Como disse o Findlay, o comum na história humana foi a servidão e a escravidão; trabalho livre é a “instituição peculiar”.. Mesmo que existam problemas técnicos e de supervisão no trabalho escravo, você tem que olhar o preço do trabalho livre para ver se este foi a “melhor” opção. No caso brasileiro, surgiram os ótimos trabalhos sobre economia da escravidão no Brasil nos anos 80. Eles mostraram o que se esperava: possuir escravos era lucrativo. Ou seja, senhores de escravos eram suficientemente racionais e, ao menos nesse ponto, a suposta mentalidade senhorial não fez qualquer diferença.
Apenas uma ressalva que já levou à mal-entendidos: afirmar que a escravidão era racional, não implica em apoio moral. Sem dúvida, a escravidão é abominável. Na verdade, mostrar que o senhor de escravos obtinha lucros com a posse de escravos só reforça o seu caráter injusto.

2) Quais são os grandes desafios a serem enfrentados por pesquisadores que gostam de estudar história econômica? Por que?

Deixa eu falar primeiro dos dados. Eles existem em muito mais quantidade e qualidade do que se supõe. Dados são o fator abundante, trabalho qualificado é o fator escasso. Ou seja, eu recomendo fortemente que as novas gerações se dediquem à história econômica.
O maior problema é o de diálogo com os historiadores. Eles trabalham muito e bem; levantam fontes primárias com fôlego e cuidado muito maior do que o economista médio. O problema é que a maior parte deles, gente séria mesmo, não tem a formação em teoria econômica e estatística que facilitaria a interlocução. Uma vez, riram em um evento de história quando eu mostrei o slide com a fórmula do cálculo da taxa interna de retorno.
Do lado dos economistas, existe um problema de escala. Muitos dos pesquisadores brilhantes em história econômica saíram da área depois dos seus doutorados em Economia. As razões para isso eu ainda pretendo investigar; afinal, a maior parte deles ainda está em atuação e basta perguntar. Por outro lado, já existem ótimos economistas em atuação, mas não se chegou a um ponto crítico de economistas brasileiros que garantissem o prosseguimento das pesquisas históricas que tenham como ponto de partida a teoria econômica.

3) Como você avalia a obra de Celso Furtado?

Antes de tudo, eu confesso que daria um dedo para escrever como ele e, com as evidências que tinha, foi realmente um feito ter elaborado o “Formação Econômica do Brasil”. O livro tem intuições ótimas e ele deu várias bolas dentro. O que me incomoda não é o livro, mas o jeito com o qual ele é tratado pela academia. Esse endeusamento do livro e do autor, como se eles trouxessem a verdade revelada, é o pernicioso. O culto à personalidade é comum em outras áreas soft do conhecimento, em que as posições normativas têm mais peso. Paulo Freire e Milton Santos viraram santos para a Educação e para a Geografia. Acho isso deprimente. Ora, a Economia é uma ciência empírica e só faz mal ter esse respeito excessivo aos clássicos. A “Formação” tem 50 anos. Felizmente, ele envelheceu mal. Digo “felizmente” porque o fato de ter ficado superado é resultante do sucesso da pesquisa em História Econômica em questionar sua autoridade e a visão tradicional.
O problema mesmo me parece na graduação. Muitos alunos de graduação em Economia ou outros cursos terão em a “Formação...” como o único livro de história econômica brasileira que jamais lerão. Eles tem que ler um livro com vários erros, que se baseia em uma teoria econômica que não fecha com que eles aprendem no restante do curso de Economia. E, mesmo assim, o livro é visto em muitas faculdades como se uma fosse uma Bíblia. Pobres alunos.

4) Por que os livros de História do Pensamento Econômico tem um viés tão anti-liberal?

Faz sentido olhar no curso de HPE as coisas - que durante a evolução da Ciência Econômica – não foram incorporadas aos manuais de Micro e Macro. E boa parte do que ficou fora dos manuais é -de fato – antiliberal. Portanto, eu não vejo problema que os livros de HPE dêem muito espaço a autores não-liberais. Os livros de HPE tem que ser plurais mesmo. O complicado em um livro-texto de HPE são as críticas externas. Tipo: partir do Marx para criticar o Marshall, ou usar o Marshall para criticar o Marx. Voltando ao ponto original, eu lamento que os austríacos, que tem muito a ensinar, fiquem de fora, ao mesmo tempo, dos manuais de teoria econômica e dos livros-texto de HPE.

5) O que falta para você escrever um livro sobre história econômica do Brasil? Eu certamente o compraria.

Obrigado, mas não me sinto pronto para isso. E tem outro fator : os preços relativos. Como você sabe, os incentivos da Capes e da universidade hoje são para papers e não livros. Portanto, é melhor se dedicar a temas pontuais do que a questões abrangentes da história econômica brasileira.

Bibliografia

MOTTA, José Flávio. Contribuições da demografia histórica à historiografia brasileira.In: Anais do IX Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Belo Horizonte: ABEP,1994, vol. 3, p. 273-295.
FOGEL, R.W. e ENGERMAN, S.L.: Time On the Cross – the economics of American Negro Slavery, Nova York, W.W. Norton, 1989.
KLEIN, H e Ben VINSON. African Slavery in Latin America and the Caribean.
LAGO, Luiz Aranha Corrêa do .O surgimento da escravidão e a transição para o trabalho livre no Brasil: um modelo teórico simples e uma visão de longo prazo. Revista Brasileira de Economia, Vol 42, No 4 (1988).
LINHARES, MYL. História Geral do Brasil: Rio de Janeiro Campus: 1990.
MELLO, Pedro Carvalho de: “Aspectos Econômicos da Organização do Trabalho da Economia Cafeeira do Rio de Janeiro, 1850-88”, Revista Brasileira de Economia, 32(1): 19-67, 1978.
PAIVA, C. A. ; LIBBY, D. C. . Caminhos alternativos: escravidão e reprodução em Minas Gerais no século XIX. Estudos Econômicos. Instituto de Pesquisas Econômicas, São Paulo, v. 25, n. 2, p. 151-242, 1995
REIS, E e E. REIS , 'As elites agrárias e a abolição da escravidão no Brasil', Dados. Revista de Ciências Sociais, vol.31, no.3, 1988.
SILBER, Simão.“Análise da Política Econômica e do Comportamento da Economia Brasileira durante o período 1929-1939.
SUZIGAN, Wilson. Indústria Brasileira: origem e desenvolvimento. Ed. Hucitec, 2000.
VERSIANI, FB. “Brazilian Slavery: toward an Economic Analysis”, Revista Brasileira de Economia 48(4):463-478, dez. 1994.

4 comentários:

Badger disse...

Excelente entrevista.

Anônimo disse...

Excelente entrevista...

A respeito da questão número 3: fiz recentemente uma prova de português (repito, português) em para um famoso concurso público anual em Brasília, em que uma das questões consistia basicamente em escrever uma hagiografia de Furtado e uma eulogia da sua obra. E todo o ano na prova de português cai a mesma coisa...

Imagine então a de história...

Marcelo Passos disse...

Parabéns pela ótima entrevista e pela excelente bibliografia .
A propósito, há dois manuais de HPE que conheço que, a meu ver, não possuem visão parcial: o do Stanley Brue e o do Fusfeld.
O problema é que os outros são parciais, com a possível exceção do texto do Heilbroner.

André Aikau disse...

Muito boa a entrevista!Muita coisa pra se pensar..
abs

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