quarta-feira, 4 de junho de 2008

O Caviar das Crianças, escrito por Rodrigo M. Pereira

Texto escrito por Rodrigo M. Pereira (IPEA e PhD em Economia pela Cornell University)

Lava-se sofá! Vende-se terreno legalizado! Faço seu churrasco! Promoção Gatomia 75%! Festa na ASBAC com o DJ Peralta! Faço chave codificada! Promoção de freios na Pneuline! Auto-escola Cometa, cobrimos qualquer oferta! Net Digital por R$39,99!

Quem se locomove pelo DF deve estar familiarizado com as propagandas acima. Elas aparecem em cartazes de pano improvisado que nascem nos vastos gramados da capital federal igual a cogumelo em cocô de vaca. Alguns, em lugares perigosos, próximos a cruzamentos de trânsito, muitas vezes bloqueando a visão de motoristas e causando acidentes. Pra quem não sabe, todo esse tipo de lixo publicitário é ilegal, e deveria ser coibido. Infelizmente, não é.

Será que lógica econômica ajuda a entender porque os gramados do DF estão virando um balcão de classificados? Imagine que você e seu vizinho têm cada um uma firma de lavação de sofá. Vocês sabem que fincar propagandas nos gramados do DF não é uma prática permitida. Mas é uma forma barata de divulgar o seu negócio, e aumenta as receitas no final do mês. E como estamos no Brasil, a perspectiva de punição é baixa. Então seu vizinho começa a fincar cartazes, e passa a levar uma vantagem na competição com a sua firma. Então você tem duas escolhas: obedecer a lei e ver o seu vizinho se dar bem, ou então pregar 300 cartazes pelo Plano Piloto todo mês, e igualar as condições de competição com o seu concorrente. Portanto, a propaganda ilegal, quando não é punida, gera um incentivo para que outras firmas façam o mesmo, o que no limite, pode vir a transformar as belas paisagens do DF em alguma coisa próxima de países como Bangladesh, ou Quênia. É uma forma desleal de promover um negócio, além de gerar um desprazer estético tremendo para a coletividade. Aumenta-se o lucro privado, e dissemina-se informações sobre onde lavar o seu sofá, mas ao mesmo tempo gera-se uma perda de bem-estar pela feiúra que são os milhares de cartazes amontoados pela cidade afora. Trata-se de mais um entre tantos exemplos onde o interesse privado se sobrepõe ao coletivo, como um resultado da inexistência e/ou inoperância das instituições. No caso, da lei.

Trata-se acima de tudo de uma questão clássica de externalidade negativa. Os benefícios marginais dos cartazes são todos privados. Os custos marginais, porém, são parte privados (os 5 reais que custam um cartaz, mais o custo de fincá-lo na grama), e parte sociais (o desprazer que é ver o lixo propagandístico toda vez que o individuo trafega pelo DF). Como a firma não internaliza a parte social, sua maximização de lucros implica igualar custos e benefícios marginais privados, o que significa que ela vai fincar muito mais cartazes do que o que seria socialmente ótimo.

A questão relevante é o que a autoridade local pode fazer para resolver o problema. A ilha de Manhattan nos Estados Unidos, por exemplo, é um dos lugares mais ricos do mundo, e tem uma economia que vive basicamente de serviços. O Central Park é uma área com vastos gramados. Porque será que não há uma única empresa em Nova Iorque que se arrisque a pregar cartazes nos gramados do Central Park? Talvez pelo fato de os Estados Unidos serem um país com instituições muito sólidas, pródigas em castigar exemplarmente quem atenta contra a coletividade em prol do benefício privado.

A resposta é então muito simples: punição. Basta punir quem espalha cartazes pelo DF. Em geral os cartazes deixam telefone de contato. Pelo telefone chega-se a um CPF ou a um CNPJ. Então basta multá-lo. Com todas as implicações legais e tributárias de uma multa. Essa é uma solução barata, e que ainda traria receitas para os cofres do GDF. Outra solução, um pouco mais cara, é colocar um time de funcionários recolhendo os cartazes durante 24 horas por dia, nos sete dias da semana. Isso traria a idéia de que uma vez colocado um cartaz, ele não ficaria no local por muito tempo.

Enquanto o GDF não faz a sua parte, eu como indivíduo pagador de impostos e que tem consciência de cidadania, faço a minha parte: rasgo todos os cartazes que vejo pela frente. Eu fiscalizo a entrada da minha super-quadra e balões adjacentes, e a minha política tem funcionado até agora. Num raio de 800 metros da minha residência os cartazes fincados não sobrevivem por mais de 24 horas. Alguns pregadores de cartazes até evitam esses lugares porque sabem que por ali os cartazes não duram muito. E eu já vi outras pessoas fazendo o mesmo em outros lugares de Brasília. Pra quem acha que não vale a pena sair por aí rasgando cartazes, basta boicotar as roupas da Gatomia, os pneus da Pneuline, as festas da ASBAC, e o que mais for anunciado de forma desleal.

Um dia desses na saída da minha casa vejo dois brutamontes pregando cartazes de uma auto-escola. Eu falo para eles que em cinco minutos estará tudo rasgado. A resposta: “Deixa a gente ganhar o leitinho das crianças”. Olho para o lado e vejo que os dois dirigiam uma picape Toyota de 100 mil reais, com uns 200 cartazes amontoados na caçamba prontinhos para serem fincados. Pois é, vamos deixá-los ganhar o leitinho e o caviar das crianças.

Um comentário:

Badger disse...

Excelente descrição da selva!

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