domingo, 17 de agosto de 2008

“Cotistas da UnB só perdem em Exatas” (Manchete do Correio Braziliense)

Hoje a capa do jornal Correio Braziliense estampava a manchete acima. Dentro do jornal estavam duas páginas explicando que os alunos cotistas (que entraram nas vagas reservadas para minorias raciais) tinham desempenho similar aos alunos não-cotistas nas provas dentro de cada curso. Este resultado aparece na pesquisa feita por um professor e uma aluna do mestrado em educação da Universidade de Brasília (UnB). Tal fato seria uma evidência em favor do regime de cotas, pois mostraria que alunos cotistas, dentro da universidade, não teriam desempenho inferior aos não-cotistas.

Só tem um problema com essa pesquisa, ela está errada. Primeiro vou dar a explicação técnica referente ao erro cometido pela pesquisa, depois mostro a intuição de minha resposta. O problema técnico é que a pesquisa olha para a média, quando o correto seria olhar para a média condicionada. Explico: a pesquisa divide os alunos da UnB em dois tipos: cotistas e não-cotistas. Depois disso compara as notas médias, obtidas nas provas de cada curso, de cada grupo de alunos. O procedimento de comparar médias não pode ser usado para justificar o sucesso do programa de cotas da UnB, pois essas médias não medem a idéia das cotas. A idéia do programa de cotas é dar a alunos que NÃO SERIAM aprovados no vestibular uma chance de cursar a UnB. Dentro do grupo de alunos cotistas temos tanto alunos que SÓ foram aprovados por causa das cotas, como temos também um bom número deles que seriam aprovados INDEPENDENTEMENTE das cotas. Para verificar a eficácia do sistema de cotas, esse segundo grupo deveria ser retirado da amostra de cotistas e ser incluso na amostra de não-cotistas (uma vez que estariam aprovados no vestibular MESMO NA AUSÊNCIA do sistema de cotas). Assim que a pesquisa refizer seus resultados com essa nova metodologia parece ser claro que a média dos alunos cotistas irá cair.

O pior de tudo é a naturalidade com que as pessoas aceitam tamanho erro de procedimento estatístico, parece que se é para justificar cotas tudo é válido. As cotas raciais estão criando dois efeitos trágicos: i) estão criando uma tensão racial até então inexistente; e ii) estão ensinando a uma geração de pessoas a acreditarem que é OBRIGAÇÃO das demais pagarem à elas por injustiças passadas. Injustiças estas que não foram cometidas pela geração presente e nem sofridas pelos atuais beneficiários. Em 10 anos teremos conflitos raciais no Brasil, essa é mais uma contribuição da Universidade de Brasília ao nosso país.

7 comentários:

Anônimo disse...

Uma outra conclusão é que os professores das exatas ensinam e cobram conteúdo, enquanto os professores das áreas humanas estão preocupados em ensinar os alunos a ter pensamento crítico...

Anônimo disse...

A pouca diferenca entre as medias de cotistas e nao cotistas e um fenomeno conhecido nos vestibulares da UnB. Ela se manifesta principalmente nos cursos de alta concorrencia e sugere que as cotas nao atingem seu "publico alvo". Quando o curso tem menor concorrencia, a situacao muda de figura. Raca (enquanto proxy para oportunidades educacionais de qualidade ao longo da vida do candidato) e seu desempenho no vestibular apresentam relacoes diferentes dependendo da demanda pelo curso. Por definicao, costistas deveriam ter um desempenho pior, senao nao e necessario cotas. Do jeito que esta, entre os cursos mais concorridos, as cotas tem beneficiado a elite dos negros (assim classificados pela UnB) e distorcido as escolhas da elite branca e da nao-elite negra.

Anônimo disse...

em 10 anos teremos conflitos raçiais? É claro que não. Um dos argumentos geralmente utilizado contra as cotas, é que os alunos provenientes deste sistema não seriam capazes de acompanhar o curso. A pesquisa feita pela UnB mostra que esse é apenas mais um argumento não valido.
Melhor do que o debate contra ou a favor das cotas, é saber a natureza das disparidades entre brancos e negros.
finalmente uma pegunta: se mais de 40% dos que concluem o ensino médio em brasilia são negros e esse é o nível de educação exigida para muitas atividades do setor de bancos, porque não exitem negros trabalhando em agências bancarias em Brasilia?

Jonas disse...

Muito interessante e pertinente a crítica para refletir, no entanto, o Adolfo incorre, ao final, no mesmo erro do acusado! As conclusões tiradas não decorrem absoutamente das premissas apresentadas...

i) O argumento da tensão racial é absolutamente frágil. Se as cotas ou qualquer outra política pública acabam redistribuindo benefícios entre grupos na sociedade, obviamente alguma tensão política vai ser criada. A questão é como lidar com isso politicamente. (note que não estou argumentando nem a favor nem contra as cotas)
ii) interessante como esse argumento cabe perfeitamente para a dívida pública (com consequencias sofridas pela geração presente). Se no artigo acima o Adolfo defende o pagamento da dívida, porque é contra cotas? Em um dos dois assuntos é necessário mudar de lado! =)
Abs!!!

Blog do Adolfo disse...

Caro Jonas,

Obrigado por seu comentario. Contudo, existe uma diferenca significativa entre cotas e divida publica.

TODOS os individuos que tem dinheiro em banco, tem dinheiro em divida publica (tao simples quanto isso). Assim, de cara, seu argumento intergeracional nao funciona. Afinal, a geracao detentora da divida esta viva e CONTINUA emprestando ao governo.

Mesmo que a geracao que emprestou dinheiro ao governo ja houvesse morrido, ainda assim parece sensato que o governo deva o dinheiro a seus herdeiros. Afinal, suponha que voce empreste dinheiro a um amigo, se voce falecer isso nao isenta seu amigo de pagar a divida a sua familia, concorda?

Grande abraco,
Adolfo

Marcus Carvalho disse...

Uma boa manchete alternativa seria:

"Cotistas da UnB só têm problema com números e letras."

Arthur disse...

De fato essa sua previsão não é de difícil percepção...
tenho tentado mostrar esse efeito para as pessoas, mais sem muita eficácia...
embora a maioria que conversei seja contra, elas aparentemente não se encontram muito animadas em manifestar seu pensamento... algo que venho tentando mudar...

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