quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O Rato que Ruge

As bolsas de valores em todo o mundo subiram ontem. O motivo é simples: quando uma bolsa despenca 10% num dia, a probabilidade de alta no dia imediatamente seguinte é alta. Espertamente os especialistas em mercado financeiro atribuíram tal alta não a um fato normal de mercado, mas sim a expectativa de aprovação do pacote de ajuda do governo americano ao setor financeiro. Na segunda-feira as bolsas caíram, caíram porque um número grande de empresas fez escolhas erradas. Novamente, espertamente os especialistas do mercado (os mesmos que perderam bilhões de dólares) atribuíram à queda nas bolsas não as más decisões tomadas no passado, mas sim à não aprovação do pacote de ajuda financeira.

Notaram o artifício? Existe uma pressão enorme para aprovar a qualquer custo o pacote de ajuda ao setor financeiro americano. A bolsa subiu, então é porque o mercado acredita que o governo vai ajudar. Ou seja, se o governo não ajudar o caos voltará a imperar. Dá até a impressão que a culpa da crise atual é do contribuinte americano que se recusa a dar seu dinheiro para ajudar empresas falidas.

Se o Congresso americano se recusar a ajudar o setor financeiro o mundo não irá acabar. O lado real da economia americana é forte, o setor financeiro é apenas uma pequena parte dessa economia (menos de 6% da população empregada). O setor financeiro americano é o rato que ruge. Faz muito barulho, mas não tem tanto poder assim para gerar uma crise sistêmica. Aliás, desde que começou a crise, uma das poucas coisas que o setor financeiro americano fez foi rugir. Faz muito barulho e ameaças: “se não recebermos ajuda ocorrerá uma crise sistêmica”. Infelizmente, além de pedir ajuda estatal as financeiras americanas fizeram muito pouco. Não demitiram empregados, não anunciaram reestruturação em seu capital, não fecharam filiais, não reduziram o salário de seus altos executivos, e nem tomaram outras medidas drásticas que seriam de se esperar de empresas em crise. Ou seja, estão contando mesmo com a ajuda do governo.

Sei que parece estranho à alguns essa postura, sei que a maioria acha o que estou falando absurdo. Se este é o caso, então não acredite em mim. Mas antes disso, de uma olhada nesse link. Nada mais do que 200 economistas americanos, entre eles o prêmio Nobel de Economia (Robert Lucas) defendem posições similares à minha. Ou seja, são CONTRA o pacote de ajuda ao setor financeiro. Ironicamente, esse manifesto assinado por pesos pesados, lecionando em universidades Top americanas, não recebeu destaque algum por parte da imprensa. Que tal a Miriam Leitão comentar esse manifesto?

9 comentários:

Anônimo disse...

Postei este link no blog do Reinaldo Azevedo e no blog da Mirian Leitão. Estou esperando...

Abraço,

Roberto

Pedro H. Albuquerque disse...

Adolfo, você está esperando demais dos "comentaristas econômicos" brasileiros. Querer que eles saibam economia, que absurdo!... Grande abraço.

Fábio Mayer disse...

Eu encaro da seguinte maneira:

Esses bancos e "investidores" querem o dinheiro barato que representa um empréstimo público. Querem usar do Estado, fazer cara de coitadinhos por algum tempo e, quando retomarem as operações, ganhar ainda mais ou pelo menos recuperar o que perderam por conta de seus erros de avaliação e sua ganância.

Anônimo disse...

É isso aí. E pensar que criticaram o Milton Friedman quando ele lançou no lixo uma tese de doutoramento de um aluno porque não considerava que finanças fosse economia. O episódio é apenas mais uma evidência do acerto de Friedman.

marcelo disse...

Adolfo, quem especula não tá nem aí se o mercado é de alta ou de baixa.O que ele quer é ganhar nos movimentos. O fato da Bolsa subir depois de um dia grande de queda realmente não tem nada a ver com nada, é apenas um aspecto técnico. Agora, querer achar que é um movimento orquestrado do mercado para alcançar seus objetivos de resgate por parte do Governo é acreditar na teoria da conspiração, versão mercado financeiro.
O link que vc forneceu mostra que os economistas concordam que algo deve ser feito, mas não concordam que no meio da crise os espertos sejam salvos : risco tem o lado bom como o lado mau, não vale ficar só com o lado bom e empurrar a conta para os outros quando chega a hora do lado mau. Não precisa ser economista de Chicago para concordar com isso.

marcelo disse...

Adolfo, deixa eu refazer meu comentário anterior porque acho que não dei a interpretação correta.Segundo seu texto, os 'especialistas do mercado' estão aproveitando movimentos técnicos das Bolsas para defenderem como querem seus interesses.Ok.
Mas quem são estes especialistas ? Os do Lehman, Bear Stern, Merryl Lynch, Wachovia, já dançaram.
Poderiam ser os que estão prontos pra dançar, à beira do abismo ( UBS,p. ex) ?
Mas com certeza tem um outro grupo ( Citibank, Santander, p.ex) que está doido pro circo pegar fogo e comprar mais gente na bacia das almas.
Quem vai saber ?

Anônimo disse...

Disse tudo Adolfo. Post NOTA 10!!!!
Marcos

Anônimo disse...

Caro Adolfo,

Como economista acredito que o pacotão americano um erro: irá sem dúvida aumentar o apetite por risco dos investidores americanos, pois no fim, que paga a conta são os contribuintes (americanos).

Já como brasileiro (logo, oportunista) espero que o pacote seja aprovado. Pois desta forma, os americanos pagarão o grosso da conta que seria repartida pelo sistema financeiro internacional de outra maneira. Talvez, por isso mesmo o pacote tenha sido rejeitado, porque os congressistas americanos tenham notado que ele apresenta a maior parte da conta para os tax-payers americanos; se eles deixarem o pau quebrar, isto é, rejeitarem o pacote, o mundo todo vai ter que entrar na vaquinha dos prejuízos com muito maior intensidade.

Abraços a todos,

Rogê

Felipe disse...

Realmente, o sistema financeiro nos EUA emprega menos de 6% da população. Mas, fazendo continha de padeiro, e se esses caras realmente estão alavancados em 20 vezes? Se pegarmos 700 bi (o valor do suposto prejuízo) multiplicados por 20, quanto teríamos?
Sou favorável ao mercado livre, inclusive trabalho no mercado financeiro, reconheço que muito disso tudo é pânico, mas temos que lembrar que, lá na ponta, são milhões de pequenos correntistas e investidores que dependem dessa solução emergencial.

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