terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Democracia Brasileira e o Golpe do Fundo Soberano

Semana passada elogiei a democracia americana mostrando que lá o Presidente tem que discutir com o Congresso. Hoje tivemos a oportunidade de ver a beleza da democracia brasileira. Esta é a manchete que aparece no O Globo online: “Lula autoriza BC a comprar carteiras de crédito de bancos em dificuldade”. Em palavras, o presidente brasileiro assinou uma medida provisória e mandou ver.

Mas o melhor mesmo da MP é a explicação: o Banco Central irá trocar reservas cambiais por títulos de primeira qualidade. Perguntas que o BC brasileiro deve responder:
1) Se os títulos são de primeira qualidade, então por que o BC brasileiro precisa intervir?
2) Qual será o preço pago nesses títulos?
3) Quem define quais títulos são de primeira linha? As agências de rating?
4) Qual o montante que será gasto nessa operação?
5) Além dos títulos, quais outras garantias que o BC irá receber? (suspeito que nenhuma)

Tudo me leva a crer que o real objetivo do governo brasileiro é o estabelecimento informal do Fundo Soberano. Já que o Fundo Soberano não recebeu apoio de praticamente ninguém, o governo está aproveitando essa crise para empurrar o Fundo Soberano na surdina. Note que a MP aprovada pelo Presidente Lula usa reservas cambiais para financiar empresas brasileiras. Idéia essa muito semelhante a do Fundo Soberano.

Apenas para constar: a medida provisória e o BC brasileiro estão indo na direção errada. Não há porque o governo brasileiro assumir os riscos de bancos que foram especular no exterior. Nada contra a especulação dos bancos, mas tudo contra o uso de dinheiro público para pagar operações equivocadas de empresas privadas. Uma coisa é garantir a liquidez interna, o que pode ser feito pela simples venda de dólares ou pela redução das reservas obrigatórias. Outra coisa bem diferente é aceitar títulos duvidosos como garantia para empréstimos.

13 comentários:

Erik Figueiredo disse...

Belo post!

Anônimo disse...

Sinceramente, são essas coisas que me faz pensar na validade da Constituição de 37 que mandava pra forca os entreguistas e corruptos contumazes.

Fábio Mayer disse...

Ele edita MP na certeza de que o Congresso subserviente a aprovará sem maiores discussões.

A Constituição é falha, dá poderes demais ao Executivo, é verdade. Mas pior que a falha da Constituição, que é material, é a falha moral dos parlamentares, que usam votações dessas para garantir benesses pessoais.

Não sou contrário ao Fundo Soberano, de modo que não entro no mérito disso. Mas o fato é que essa MP é indício claro, de que o governo está escondendo os reais efeitos da crise no Brasil.

ZEPOVO disse...

Ok, seu texto é bom e sério.
Mas lembre-se que Lula é um presidente que sabe cuidar das finanças, juntou as maiores reservas e está em dia com as contas.
Nós brasileiros temos que conviver com as Medidas Provissórias, e os americanos com o Patriot Act.
Cada democracia com seus pecados meu caro.

Erik Figueiredo disse...

Adolfo,
infelizmente não irei para a ANPEC/SBE. Contudo, você terá a chance de conhecer o José Luis (meu co-autor) e grande amigo do Renato.

Podemos marcar algo (cerveja de preferência) nos encontros do ano que vem.

Um grande abraço,
Erik

Pedro H. Albuquerque disse...

Excelente artigo Adolfo. O caso do Patriot Act na verdade é evidência a favor da sua colocação. O Patriot Act somente foi aprovado no Congresso americano após intensa e longa negociação. No Brasil, teria saído via medida provisória, sem passar pelo crivo do debate público.

MGuedes disse...

Para mim, a americana crise atual foi milimetricamente calculada. O mundo está globalizado. Os americanos são os maiores consumidores do mundo; campeões em importação, campeões em investimentos externos e, em conseqüência, campeões em obtenção de renda e acréscimo de patrimônio. Certo?

Em dado momento perceberam que a farra dos dólares fáceis deveria ser suspensa, claro. Tudo tem limite (exceto o universo). Isso, obviamente, levou a crise para o resto do mundo. Mansões, iates, carriers, carrões de 8 cilindros, tudo isto vai continuar em movimento mas em menor ritmo.

Os Estados Unidos vão reduzir o máximo que puderem as importações (e sobretaxar o que tiver de ser) até chegar a um nível que considerem “ponto de equilíbrio”. Ninguém vai morrer de fome lá, por causa disso.

Aliás, ironias à parte, falando sério, mesmo: esta crise é boa, porque a China vai lançar seus produtos em seu mercado interno; o Brasil e demais vão fazer o mesmo. O povo agradece. No caso brasileiro, o sucesso depende exclusivamente da comprovadíssima intuição do Presidente, se aplicada no campo da economia.

Anônimo disse...

Prezado Adolfo. Como você já leu na imprensa, os bancos estão com dificuldades em oferecer ACC e ACE (financiamento a exportacao) pois não existem linhas externas (os bancos internacionais nao podem ou nao querem emprestar).
Uma forma de resolver esse problema é o Banco Central oferecer essa linha (offshore) para que os bancos possam financiar o comercio exterior aqui no Brasil.
Para isso, o BC esta fazendo uma operacao compromissada, ele empresta o dinheiro e recebe titulos (de primeira qualidade, como o senhor mencionou), mas existe o compromisso de recompra, ou seja, a operacao tem data para ser desfeita e as reservas voltam para o BC.
Sobre o preço desses titulos de primeira qualidade, normalmente é utilizado preco de mercado, com um "haircut" ou seja, a operação tem uma "sobra" de colateral, dando ainda mais garantia para o Banco Central.
Resumindo, a operacao do BC nao tem NADA a ver com fundo soberano (informal...) e é uma forma de corrigir uma distorção causada pela crise internacional.

Anônimo disse...

O banco central não deveria administrar a carteira de nenhum banco. Ele tem que ser apenas o emprestador de última instância. E muito menos eleger quem tem carteira boa ou ruim. Os bancos é que deveriam saber em que operações eles estão aplicando e se aplicam em coisas ruins, têm que empregar o seu capital para cobrir o prejuízo. Cada dia que passa, aparece sempre mais um burocrata que sabe como fazer operações em nome do povo, tal qual os entendidos em finanças que dizem que swap cambial feito pelo banco central está correto, mesmo que o banco central recorrentemente leve prejuízo. AInda argumetam, no caso do Swap, que o Banco Central estaria ganhando e evitando que o dólar subisse (se for contra a subida) ou caisse (se for contra a queda). Só que isso, sinceramente, eu não consigo explicar e muito menos entender!! O Fato é que é fácil jogar "fora" dinheiro do povo.
At
Marco Bittencourt

Anônimo disse...

O banco central não deveria administrar a carteira de nenhum banco. Ele tem que ser apenas o emprestador de última instância. E muito menos eleger quem tem carteira boa ou ruim. Os bancos é que deveriam saber em que operações eles estão aplicando e se aplicam em coisas ruins, têm que empregar o seu capital para cobrir o prejuízo. Cada dia que passa, aparece sempre mais um burocrata que sabe como fazer operações em nome do povo, tal qual os entendidos em finanças que dizem que swap cambial feito pelo banco central está correto, mesmo que o banco central recorrentemente leve prejuízo. AInda argumetam, no caso do Swap, que o Banco Central estaria ganhando e evitando que o dólar subisse (se for contra a subida) ou caisse (se for contra a queda). Só que isso, sinceramente, eu não consigo explicar e muito menos entender!! O Fato é que é fácil jogar "fora" dinheiro do povo.
At
Marco Bittencourt

Anônimo disse...

Adolfo, está passando a hora de um comentário soberbo sobre a crise. Não precisa ser muito grande, é bom fatiar em capitulos.

Pedro Borges disse...

Sobre o anonimo que referencia a CF de 37.
Que postra idiota. A gente se esforça para aceitar a democracia. aceitar e acatar a opinião da maioria mesmo sendo contra e um imbecil destes fica falando asneiras.

Joao Melo disse...

Adolfo, entendo que algo deve ser feito. E logo. Sou totalmente contrário a governos assumindo dívidas/riscos de bancos etc. Porém, tanto aqui como lá, nem sempre a solução inicial é a melhor ou a que entendemos que fosse. Mas, na falta de alguma coisa, pelo menos vamos apoiar o Meirelles, ok?
Abraço,
João, direto da selva;

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