quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Entrevista com Pedro H. Albuquerque

Pedro H. Albuquerque é professor de economia na University of Minnesota Duluth, também trabalhou no Banco Central do Brasil e mantém o blog incentives matter.

1) Você concorda com as medidas tomadas pelo Banco Central brasileiro para conter a crise financeira?

A crise afetou a economia brasileira fundamentalmente via três canais: (1) deterioração dos termos de troca, (2) fuga para qualidade (“flight to quality”), e (3) efeito contábil (balance sheet effect).

Vamos por partes. A deterioração dos termos de troca afeta o lado real da economia, representando um choque de oferta negativo. Este choque de oferta é provavelmente permanente, pois o cenário anterior, caracterizado pelo preço excessivo das commodities, estava baseado em desequilíbrios financeiros que eram insustentáveis. A demanda agregada deverá se ajustar ao novo nível de produto potencial, o que forçará o BACEN a adotar temporariamente trajetórias de juros reais mais altas do que as que foram projetadas antes da crise, caso deseje manter a trajetória de inflação dentro das metas.

A fuga dos investidores para qualidade agravou o cenário de curto prazo. Durante crises, os investidores buscam refúgio em ativos de qualidade, e, dado que os ativos cotados em Reais são ativos de risco, nada mais natural que seus preços em dólar tenham caído. Parte deste efeito e temporário e será revertido com a normalização dos mercados, porém outra parte deste efeito é permanente, resultado da correção dos desequilíbrios financeiros preexistentes. Haverá também uma redução permanente do crédito externo disponível para o Brasil como resultado dos ajustamentos nos mercados financeiros internacionais.

O efeito contábil afetou principalmente bancos e empresas no Brasil que acreditaram que a probabilidade de apreciação significativa do dólar era desprezível. Os bancos e empresas que tinham ativos em Reais e passivos em dólares se tornaram em alguns casos insolventes, o que agrava a crise.
Não há nada que o BACEN possa fazer para eliminar a deterioração dos termos de troca e a redução do interesse dos investidores em ativos brasileiros. A conjuntura internacional altamente benéfica para o Brasil, que teve início em 2002 com a disparada dos preços das commodities, provavelmente não se repetirá por um longo período. O país deverá se ajustar a esta nova realidade. Durante a transição, é fundamental que o BACEN permita que o câmbio flutue e mantenha as taxas de inflação dentro das metas.

Ter mantido o regime de câmbio flutuante, como você tem ressaltado em seu blog, foi o grande acerto do BACEN. O uso parcimonioso de reservas cambiais acumuladas durante o período de bonança para atender às necessidades do mercado durante momentos de iliquidez pode ter contribuído para reduzir efeitos negativos de curto prazo. O BACEN também acertou ao ter reduzido a dívida cambial antes da crise, tendo corrigido com isso um erro crasso da administração anterior.

Tenho receio, entretanto, de que o BACEN tentará manipular a taxa de câmbio de forma permanente, o que naturalmente não é possível. O BACEN deveria se retirar do mercado cambial uma vez que os piores momentos de iliquidez cambial tenham passado.
Além disso, considero que a manipulação do câmbio por meio de contratos futuros é um erro. Tal estratégia deve ser interpretada como “mini-fixações cambiais” promovidas pelo BACEN, ou como promessas de intervenção no mercado cambial. O uso de contratos futuros pelo BACEN reduz a transparência de suas operações, distorce incentivos econômicos e amplifica os efeitos de choques negativos futuros, ou seja, reintroduz os problemas dos regimes de câmbio administrado no regime de câmbio flutuante. O BACEN não deveria absorver riscos sistêmicos sobre os quais não exerce controle, estes riscos deveriam ser assumidos pelos mercados.

2) O governo assinou uma medida provisória autorizando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a comprarem bancos. O que você acha dessa medida? O que você acha da medida que possibilita à Caixa comprar construtoras em dificuldades?

Trata-se evidentemente de deplorável intervenção oportunista do estado no domínio econômico. Tais medidas são questionáveis no caso americano e dos países europeus, e são ainda mais questionáveis no caso brasileiro.
Esta idéia que subitamente se espalhou pelo mundo de que é possível evitar falências durante crises econômicas ofende princípios básicos de economia e é moralmente vil. Capitalismo implica risco, e risco implica possibilidade de perdas. Alguém tem que quebrar durante crises. Se não tem ninguém quebrando, ou a crise não existe e, portanto, não é necessário intervir, ou então tem gente marcando gol de mão enquanto o juiz olha para o lado e finge não ver.

Note que é possível conter contágios financeiros sem aumentar a participação do estado na economia e sem transferir dinheiro da população para as empresas que apostaram e perderam. Em outras palavras, governos ao redor do mundo têm utilizado o argumento de crise sistêmica como justificativa para aumentar o poder do estado sobre a sociedade e para transferir riqueza para grupos privilegiados.

3) Como explicar o recente comportamento das bolsas de valores ao redor do mundo? Existe algo que possa ser feito para diminuir a volatilidade das bolsas?

As bolsas, como vários outros mercados, estavam excessivamente apreçadas devido ao acúmulo de desequilíbrios financeiros. Durante o período de ajustamento, a volatilidade aumenta, pois há muita informação nova a ser processada, muita incerteza sobre o futuro. A volatilidade é parte do processo de ajustamento, e não creio que seja saudável tentar reduzi-la. Além disso, as propostas para redução da volatilidade das bolsas ou são ineficazes ou agravam os problemas. Por exemplo, muitos neste momento defendem a criação de impostos sobre transações financeiras. Tais impostos não resolvem nada. Na verdade, podem agravar os problemas de iliquidez durante crises econômicas, além de criar outras distorções de longo prazo. Se a introdução de custos de transação eliminasse volatilidade de preços, então nunca deveríamos ter presenciado esta crise financeira, afinal os mercados imobiliários e hipotecários são conhecidos por seus elevadíssimos custos de transação.

4) A crise atual foi uma conseqüência da desregulamentação do mercado financeiro americano? Ou você acredita que o governo tem responsabilidade nela?
Sim, é evidente que o governo é responsável. Tal realidade é tão evidente que só pode ser negada por razões ideológicas.
Falhas de mercado são bem conhecidas e estudadas. Soluções para tais falhas em grande parte já foram implantadas nos países desenvolvidos. Crises como a atual podem ser evitadas usando fórmulas bem conhecidas que estão enumeradas em qualquer livro texto sobre economia monetária.

Falhas de governo, por outro lado, além de serem freqüentes, são pouco estudadas, assim as soluções para estas falhas são pouco conhecidas.
O mercado hipotecário americano é um dos mais regulados dos EUA. Esta crise foi o resultado de incentivos criados por políticas governamentais que distorceram a alocação de recursos nos mercados financeiros e imobiliário. Se você ler qualquer livro texto americano sobre finanças públicas, você verá seções inteiras dedicadas somente a este assunto.

Havia um projeto político de transformar todo americano num proprietário de imóveis, a todo custo. A legislação tributária e creditícia levou tal objetivo às raias do absurdo. Esta foi a causa fundamental desta crise. Basta lembrar, por exemplo, um episódio de série “Os Sopranos” de 2002 para ver como o problema já era conhecido de longa data (um extrato deste episódio está disponível no meu blog).
Contribuíram para a crise, porém, dois outros fatores. Os juros reais excessivamente baixos praticados pelo Federal Reserve, e os novos instrumentos financeiros que foram incorretamente apreçados por várias instituições financeiras privadas e governamentais. O governo, portanto, é também responsável, pelo menos em parte, por estes dois outros fatores.

Em suma, se houve falhas de mercado, é porque a regulação era excessiva, contraproducente ou ineficaz. Certamente não havia falta de regulação. A solução passa pela reconstrução do sistema regulatório e tributário tendo em vista a eliminação das distorções. O desafio, porém, não é de ordem econômica, é de ordem política. Muitos grupos de interesse resistem à implantação de regulação minimalista e eficaz dos mercados de crédito, preferindo a manutenção dos privilégios criados pelo governo.

5) Existe alguma diferença significativa entre as propostas econômicas de McCain e de Obama para lidarem com a crise?

Certamente. A proposta do McCain pode ser resumida da seguinte forma: (1) manter ou reduzir os impostos sobre poupança, investimento e pessoas jurídicas, (2) evitar variações expressivas das taxas marginais do imposto de renda com o nível de renda, (3) permitir aos mercados funcionar livremente, (4) apoio ao livre comércio internacional, (5) eliminação de subsídios, e (6) concentrar o papel do estado em funções tradicionais como manutenção da lei e da ordem e defesa nacional. A proposta do Obama pode ser resumida assim: (1) aumentar os impostos sobre poupança, investimento e pessoas jurídicas, (2) reduzir os impostos ou oferecer programas de assistência social para a parcela da população com rendas mais baixas, com isso aumentando as taxas marginais de imposto de renda para a classe média, (3) intervenção nos mercados, (4) rejeição do livre comércio internacional em favor de um conceito obscuro chamado “comércio internacional justo”, (5) subsídios para setores privilegiados, e (6) usar o estado primordialmente como mecanismo de transferência de renda.

Ou seja, a proposta do McCain é influenciada por princípios liberais, enquanto que a proposta do Obama é influenciada por princípios socialistas. As diferenças, porém, se reduzem ao considerarmos que a prática política acaba sendo determinada por questões de escolha pública (“public choice”), que tendem a nivelar todos os políticos por baixo.

Deve ser notado ainda assim que a proposta do McCain é claramente favorável ao Brasil, enquanto que a proposta do Obama provavelmente causará dificuldades adicionais para as economias emergentes.

6 comentários:

VW disse...

Olá, tenho acompanhado já há bastante tempo esse blog e tenho gostado bastante dos comentários. Também possuo uma página pessoal (www.vitorwilher.com) e gostaria que vocês dessem uma olhada e opinassem a respeito...

Caso os custos de oportunidade envolvidos não sejam tão altos, pediria que dessem uma opinião sobre o último post (http://www.vitorwilher.com/2008/10/29/399/)...

E se não for pedir muito, peço também que adicione minha humilde página no bloglist de vocês...

Abraços,
Vítor Wilher

Mário Jorge Mendonça disse...

Até agora para mim esta é disparada a melhor entrevista feita pelo blog. Abordagem extremamente lúcida e rica em conteúdo econômico. Parabéns ao prof. Pedro H. Albuquerque.

Anônimo disse...

Taí o exemplo de mais um liberal. Não entende o básico: o mercado agride as pessoas e as empresas. Somente num arcabouço regulatório, com a presença de bancos estatais, será possível transformar a exploração capitalista em desenvolvimento para os pobres.

Anônimo disse...

O que será que a criatura aí de cima (das 16:20 de 30/10) quis dizer com "desenvolvimento para os pobres"? Será que ele já ouviu falar (ler, eu duvido que ele saiba!) de crescimento econômico e que as economias liberais crescem mais do que as economias estatizadas? E que os pobres se beneficiam do crescimento econômico? Será que esse ser já teve gripe, resfriado, sarampo? Será que ele ou alguém da família dela já teve de tomar penicilina ou qualquer outro remédio? Criatura, o que nos diferencia dos seres irracionais é nossa capacidade de pensar antes de falar.

Anônimo disse...

É incrível como o aspecto ideológico idiotiza as pessoas. O Anônimo das 16:20, eu suponho, ou não conhece história ou é mal-intencionado. Nos séculos 15 a 17 os reis, friso bem!, os reis viviam míseros 40 ou 50 anos. Um deles, se não me engano, o rei Henrique VII, morreu de escorbuto, completamente desdentado, com pouco mais de 50 anos. Que dirá dos pobres. Naquela época o capitalismo era tosco e tudo dependia do soberano. Logo tudo dependia do estado de uma forma ou de outra. Com o advento do capitalismo, com a disseminação do lucro e da informação, melhorou a qualidade de vida e as pessoas se tornaram longevas. Hoje a expectativa de vida no Brasil ultrapassa 70 anos. Em países mais avançados ultrapassa 80 anos. É, no mínimo, coisa de mentecapto crer que a ação do governo geraria um tal estado de bem-estar. Talvez... quem sabe, para os apaniguados. Parece que as distorções salariais criadas no governo do Alumiado não deixam dúvidas sobre isso.

Mário Guedes disse...

Muito, mas muito elucidadoras, mesmo, as manifestações do entrevistado, Sr Pedro H. Albuquerque. Melhores, porque convergem com nosso entendimento.

Agora, caramba, quais os reais objetivos de longo prazo daqueles que concentram o poder financeiro (e, conseqüentemente, econômico) mundial?

É sabido que o consumismo da América é alavanca para o crescimento de países fornecedores. Não dá prá discorrer muito,sobre isso, aqui. Em resumo, creio que, no longo prazo, a crise atual terá como principal efeito “acalmar” a euforia de algumas economias, no resto do mundo.

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