domingo, 12 de outubro de 2008

O Efeito MBA

Que tal analisarmos uma característica, certamente responsável pela crise financeira atual, mas que tem recebido poucas críticas? Ninguém ainda se atentou para o que eu chamo de efeito MBA. Abaixo esclareço as características do efeito MBA.

No Brasil, nos Estados Unidos, na Inglaterra, onde quer que seja, toda aula de MBA começa com um elogio do Professor aos alunos. Num MBA o professor tem duas obrigações básicas: ensinar aos alunos e demonstrar que os alunos são gênios. Dadas as características, e os preços, de um MBA, é fundamental que os alunos não se sintam estúpidos. Assim, esse importante elemento educativo, presente em cursos de mestrado e doutorado, chamado humildade (e respeito a própria ignorância), fica completamente ausente da formação de um aluno de MBA. Num MBA os alunos são levados a acreditarem que são gênios (tarefa essa muito facilitada pela própria características desse público).

Outro detalhe importante dos cursos de MBA é sua dinâmica superficial. Aulas de MBA são geralmente ministradas em finais de semana, ou sextas-feiras à noite. Com alunos cansados do trabalho, e sem muito tempo para leituras tediosas, é muito difícil aos professores se aprofundarem significativamente nos fundamentos básicos de cada assunto. Ao contrário, os MBA’s preferem se concentrar em “estudos de caso”. “Estudos de caso” são certamente muito educativos, mas concentrar demais nesse item implica em abrir mão de fundamentos teóricos importantes.

Alunos que acreditam serem gênios, com professores estimulando ainda mais essa crença, aliado a um escasso conhecimento teórico, mas solidamente baseado em casos passados (que não necessariamente guardam qualquer relação com os eventos presentes), são os componentes do que eu chamo Efeito MBA. Coloque uma pessoa com esse tipo de formação à frente de um fundo de pensão que gerencia bilhões e me parece natural que erros sérios de gerenciamento irão surgir. Creio que o Efeito MBA tem sido um dos responsáveis pelas operações financeiras pouco ortodoxas, e deficitárias, que foram realizadas por algumas empresas brasileiras.

Este post não tem como objetivo desmerecer a idéia de um MBA. Pelo contrário, MBA’s são uma importante ferramenta de capacitação para futuros executivos. O que se critica aqui é ausência de formação teórica aliada a “genialização” de seus alunos.

12 comentários:

Anônimo disse...

O post me fez lembrar de um episódio com uma aluna em uma aula de economia. A aluna, com o óbvio objetivo de aparecer, perguntou candidamente ao professor: "Professor, para que serve o conhecimento sobre curvas de indiferença, na minha vida profissional?". Ao que professor respondeu, de bate pronto: "Se você for lavadeira, serve para nada."

Fábio Mayer disse...

Fiz uma pós-graduação que, na instituição, diziam ser equivalente a um MBA.

Por mais que os professores se esforçassem em fazer a gente pensar que era gênio, eu me sentia um completo idiota, porque pagava por um curso mal ministrado, onde em 90% das aulas eu sabia mais que o professor que estava ali na minha frente dando uma de guru... sem contar a quantidade de feriados que a instituição arranjou para diminuir a carga horária.

Kenji disse...

talvez os MBAs devessem alertar seus alunos para o fato de que, dada a curtíssima carga horária para cada assunto, a chance da pessoa realmente aprender alguma coisa no curso é muito baixa.

já como uma forma de apresentar um grande panorama e como forma de apresentar a bibliografia e um pouco do caminho das pedras, caso a pessoa queira correr atrás e se aprofundar, eu diria que o MBA funciona bem.

o que eu acho que é o seu ponto, em outras palavras, e que eu concordo plenamente, é que falta maturidade no processo para os alunos, que saem do MBA, entenderem que eles não estão preparados para nadar. Eles só sabem melhor a profundidade da piscina ;-)

Anônimo disse...

Alo Adolfo, concordo que o MBA sofreu todo tipo de deformação, principalmente em temas econômicos. Economia é um assunto complexo e que leva um bom tempo para se formar um economista (imagino aconteça o mesmo na física, medicina, etc). Como a ânsia de ser útil, quer para o bem, quer para o mal, toca a todos, a economia parece ser uma decepção. Assim, os MBAs ocupam um lugar que não foi preenchido pelos cursos de economia. Claro, o que temos são muitos cursos ruins de economia. Além disso, para desagrado de muitos, a economia política tem boas aplicações para o que o governo não deve fazer. Mesmo sendo os fundamentos teóricos da economia revestidos de certa complexidade, eles estão presos à realidade. Os assuntos são concretos, embora tenhamos que nos valer de modelos abstratos para enquadrar nossos pensamentos. Mas não só de abstração teórica temos que guiar nosso pensamento. Registro aqui a falta total de compromisso com a ética de muitos economistas. Em certos assuntos, muitos economistas se posicionam politicamente querendo revesti-los de boa teoria. Cito aqui o caso dos Swaps cambiais patrocinados pelo banco central. Não vejo nenhuma razão para que o banco central leve prejuízos recorrentes nessas operações. Mesmo que não levasse prejuízo nessas operações, não vejo ainda por que o Banco Central tenha que implementá-las. O engraçado é que não aparece nenhum economista para sequer defender esta postura do banco central. A defesa é implícita, pela omissão. Concluindo, acho que quem patrocinou tal idéia descabelada de swap cambial pelo banco central (e muitas outras) deve ter sua formação em cursos do tipo MBA a que você se refere.
Um abraço
Marco Bittencourt

Anônimo disse...

Olá. Sou Bresslau, amigo do Kenji. MBA saído do forno. Minhas observaçoes em 3 escolas diferentes:
1) Ninguém tentou me convencer que sou um genio. Ou meus colegas. Tá certo q ñ foi como na Poli, onde os profs faziam questao de deixar a superioridade deles bem clara. Mas no MBA todo mundo foi tratado como adulto.
Ao meu ver, a hyperizaçao ocorre antes do MBA. Pela máquina de aquisiçao das escolas q, p/ convencer os candidatos, cria expectativas irrealistas. Mas tbm pela mídia, q adora hiperbolizar tudo e usa o tchans do título MBA para ajudar a vender jornal. Mas os profs, durante a aula, mantéem o pé no chao.
2) O curso é superficial sim. Afinal, dá-se uma olhada no equivalente a 4 anos de graduaçao em adm em apenas 1, talvez 2. E isso no full time, onde a atençao está totalmente voltada ao curso. Mas isso ñ é ruim, acho q o Kenji colocou bem: é um curso que serve p/ dar uma noçao de adm a pessoas com uma base em outra área.
O problema é que, como em todas as profissoes, sempre haverá aqueles q se acham o máximo por causa de 3 letrinhas no cartao de visitas.

Anônimo disse...

Adolfo, concordo que existe no Brasil essa cultura de MBA meia boca por 120 reais por mês.

Só que o diretor financeiro da Aracruz, responsável pelas perdas com operações de câmbio era mestre em economia pela PUC/RJ...

09/06/2003 - A Aracruz Celulose S.A. anunciou hoje a posse de Isac Zagury como diretor-financeiro e de relações com investidores da empresa. Zagury, 52 anos, nascido no Rio de Janeiro, é economista com mestrado pela PUC-RJ e cursos de especialização no Brasil e no exterior.

Anônimo disse...

Prezados,

O MBA, assim como o curso de formação, não quer dizer nada se você não colar a bunda na cadeira e estudar a bibliografia.

Graduação, MBA, mestrado... é canudo, conhecimento é adquirido com estudo e vivência, o mercado reconhece quem é bom mesmo.

Acho que fazer um MBA com os estudos de caso pode ser interessante, você compartilha conhecimento e faz contato. Ir lá pra ter o ego massageiado e sair achando que é gênio é no mínimo inocência.

abs.

Anônimo disse...

Olá! excelente post sobre MBA, clareou mais minhas ideias sobre o assunto, e principalmente selecionar melhor as instituições. Acho um absurdo um curso tão rico em conhecimentos e fascinante em análises, como o curso de Econômia, ser manchado por profissionais assim, MBAs...

um abraço, alessandra Santos.

OPs: aguardo seu post sobre o nobel de economia.

Anônimo disse...

09/06/2003 - A Aracruz Celulose S.A. anunciou hoje a posse de Isac Zagury como diretor-financeiro e de relações com investidores da empresa. Zagury, 52 anos, nascido no Rio de Janeiro, é economista com mestrado pela PUC-RJ e cursos de especialização no Brasil e no exterior.

Depois reclamam do 5!!! hahaha

Anônimo disse...

Em A Cultura Inculta, Allan Bloom escreve o seguinte:

"O efeito específico do MBA tem provocado uma explosão de inscrições em economia, a disciplina que conduz à gestão [...] A economia esmaga o resto das ciências sociais e desvirtua a percepção dos estudantes em relação a elas –o seu propósito e o seu peso relativo no que diz respeito ao conhecimento das coisas humanas. Um estudante de medicina que estuda muito biologia, por contraste, não perde de vista o estatuto da física, pois a influência desta na biologia é clara, e a sua posição suscita acordo e é respeitada pelos biólogos. Nada disto acontece em relação ao estudante de economia de gestão, que não só não tem interesse pela sociologia, antropologia ou ciência política, mas também está persuadido de que aquilo que ele anda a aprender pode lidar com tudo quanto pertence a essas matérias. Aliás, ele não é motivado pelo amor à ciência da economia mas pelo amor daquilo com que ela se preocupa –o dinheiro. A preocupação da economia com a riqueza, uma coisa indiscutivelmente real e sólida, dá-lhes uma certa solidez intelectual importante, não proporcionada, digamos, pela cultura. Podemos ter a certeza que não estão a falar sobre nada. Mas a riqueza, em oposição à ciência da riqueza, não é a mais nobre das motivações, e não há mais nada absolutamente como esta perfeita coincidência entre a ciência e a cupidez em toda a parte da universidade. O único paralelo seria se houvesse uma ciência de sexologia, com professores zelosos e verdadeiramente eruditos, o que asseguraria aos estudantes abundantes prazeres sexuais."[ele não conhecia a dona marta suplicy]

Marcelo disse...

Apesar de concordar inteiramente com vc sobre o tópico, acho que o problema é um pouco mais em baixo : se a maioria dos formandos de administração e economia não sabem nem lidar com logaritmos, como é que o sujeito vai calcular o risco embutido em derivativos exóticos que dependem da volatilidade da venda de uma call ? Alguém no banco sabe, e é por isso que banco não leva prejuízo, mas fica com o risco do crédito da empresa cujo sujeito não sabe o que está comprando. Ou seja, o buraco está na formação matemática de base de várias gerações no Brasil.

Renato Souza disse...

Adolfo,

Excelente o seu ponto de vista!
Sugiro até que retome ao tema novamente, pois tal fenômeno (a formação e certificação de sabichões) não é exclusividade dos cursos de MBA. É um fenômeno recorrente em muitos cursos de humanidades. São doutores em pedagogia, sociologia, PhDs uspianos e unicampianos que se acham no direito de opinar (equivocadamente) sobre todos os tipos de problemas. O diploma lhes garante tal prerrogativa. Há outros que obtém tal prerrogativa
ao auto-certificarem-se em algo, como é o caso dos "combatentes da ditadura" (ou seriam terroristas?).

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