terça-feira, 14 de outubro de 2008

Reflexões sobre a Crise II: A Estatização dos Bancos

Poucas idéias são tão ruins que não podem ser pioradas. O recente apoio estatal ao setor financeiro ao redor do mundo é um exemplo claro. Note como idéias originalmente ruins foram se transformando aos poucos em verdadeiros pesadelos do absurdo. Tão logo a crise atingiu Wall Street o Banco Central Americano (FED) anunciou que aumentaria a liquidez da economia. Era um pacote de míseros bilhões de dólares. Na mesma semana esse blog protestou. O argumento era simples: a ajuda beneficiava bancos que haviam agido de maneira muito arriscada no passado. Os bancos entenderam o recado do FED e ao invés de realizarem os ajustes necessários passaram a cobrar mais recursos do governo. O tempo passou e o governo americano anunciou um pacote de US$ 300 bilhões ao setor financeiro. Duas semanas depois nova ajuda foi anunciada, agora de US$ 700 bilhões. Na semana seguinte o pacote já somava US$ 850 bilhões. Mas nada, repito, até o momento absolutamente nada parece superar o supra sumo dos absurdos que foi anunciado nessa semana: estatizar bancos. O que será que nos aguarda na próxima semana?

Estatizar bancos significa usar dinheiro dos contribuintes para a compra de um ativo que NÃO É função do governo prover. Se o governo pode estatizar bancos o que o impedirá de estatizar supermercados? Por que não estatizar também parte das montadoras de veículos? A lista é infindável, mas vamos voltar a questão de se estatizar bancos. Quando é que o governo irá devolver o controle dos bancos ao mercado? Bancos com participação do governo receberão algum tipo de vantagem adicional? Mas a principal pergunta é: se o governo é dono do banco e a função do governo é maximizar o bem estar da sociedade, então a função do banco não será mais maximizar lucros. Ou seja, como evitar que os bancos assumam funções que prejudiquem sua rentabilidade e tragam ainda mais risco para o sistema financeiro? Aliás, foi justamente a participação de dois bancos (Fanny May e Freddy Mac) com fortes ligações com o Estado um dos pilares da atual crise no sistema financeiro.

Sou contrário a qualquer tipo de ajuda a bancos. Contudo, se for para capitalizar os bancos a sugestão mais viável é outra: ao invés do governo assumir parte do controle dos bancos, por que não obrigar que outros bancos (ou fundos) assumam o controle dos bancos em dificuldade? Claro que isso envolve um grau enorme de arbitrariedade, mas estatizar bancos envolve um grau ainda maior de arbitrariedade. Contudo, ao obrigar que um banco assuma o controle de outro o governo estaria obrigando um ajuste DENTRO do sistema financeiro, e não empurrando o ajuste para toda a sociedade. Outro detalhe, é razoável assumir que outros bancos sejam melhores gestores de bancos que o governo. A operacionalização dessa idéia é mais simples do que parece: nenhum pacote é necessário, basta ao governo OBRIGAR que alguns bancos (ou fundos) aceitem descontos em suas dívidas (isentando parte da dívida e trocando outra parte da dívida por ações do banco em dificuldade). No caso americano isso implica em mudança de lei e requer aprovação do Congresso, mas aí vem a parte boa: esse expediente JÁ foi usado com sucesso no passado.

Estatizar bancos é um grande erro, os falecidos bancos estaduais brasileiros são um exemplo de quão ruim essa idéia pode ser. Mas como disse antes: poucas idéias são tão ruins que não podem ser pioradas.

7 comentários:

Nilo disse...

Os Keynesianos atacam novamente!!!

Marcelo disse...

Sobre o Efeito MBA :
APesar de concordar inteiramente com vc sobre o tópico, acho que o problema é um pouco mais em baixo : se a maioria dos formandos de administração e economia não sabem nem lidar com logaritmos, como é que o sujeito vai calcular o risco embutido em derivativos exóticos que dependem da volatilidade da venda de uma call ? Alguém no banco sabe, e é por isso que banco não leva prejuízo, mas fica com o risco do crédito da empresa cujo sujeito não sabe o que está comprando. Ou seja, o buraco está na formação matemática de base de várias gerações no Brasil.

Anônimo disse...

Prezado Adolfo, imagino que a estatização que acontece alhures não se dê nos termos que estamos acostumados aqui no Brasil: politicos são indicados para gerir as empresas estatizadas e ela é rapidamente vampirizada. A questão me parece foi a seguinte: dar dinheiro a empresario falido ou comprar os ativos a preço de mercado com a expectativa de lucros futuros. Eu prefiro a segunda opção. Todavia, na crise, eu exigiria a falência do banco ineficiente e assumiria, como governo, a posição de liquidante, uma vez que os ativos bancários para serem rentáveis precisam se lastrear em passivos renováveis. Assim, com a efetiva rolagem dos passivos, garantida pelo governo, os ativos poderiam ser preservados. Essa é uma crise que acabou por afetar a liquidez e os bancos centrais teriam mesmo que atuar. Até mesmo porque, dada a existência de moeda podre em escala elevadíssima, a boa (fiduciária) teria que aparecer para ocupar esse vazio monetário. O que não admito é doação de dinheiro público. No Brasil temos o caso indecente dos swaps cambiais e estou ao aguardo de economista ou financista com ou sem MBA para justificar tais operações.
um abraço
Marco B

Anônimo disse...

Grande Adolfo,

A propósito do teu post, no link abaixo há uma análise, em tudo similar à sua.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081016/not_imp260704,0.php

Um abraço,

J. Coelho

Anônimo disse...

Adolfo,

Há um erro no link. Estou enviando novamente.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081016/not_imp260704,0.php

Abs.

J. Coelho

Luiz Flávio Maia Filho disse...

Grande Adolfo,

Tenho toda simpatia pelas tuas críticas à estatização de bancos, no atual contexto e em tese. No entanto, é difícil negar que estejamos diantes do que, talvez, seja o caso mais complexo de falha de mercado: informação assimétrica, risco moral, agente-principal, externalidades positivas e negativas, economias e deseconomias de escala, incerteza (riscos incomensuráveis)... you name it!

A regulação, ao contrário do que se diz, é uma boa segunda alternativa à completa liberalização... seu aperfeiçoamento não é fácil, mas pode e será feito.

O sistema de defesa à concorrência americano tem 120 anos de evolução, mas segue em aperfeiçoamento. Será que alguém defende que devamos abandoná-lo, por seguir cometendo grandes erros?

Abraço, velho.

Luiz Maia.

Anônimo disse...

Gostei da entrevista do cara, mas acho que o governo como sempre foi o causador da crise

Pedro

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