terça-feira, 11 de novembro de 2008

O Futuro do IPEA

No passado o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) foi extremamente influente na formulação de políticas públicas no Brasil. Contudo, com o passar do tempo, essa influência foi gradativamente diminuindo. Atualmente o IPEA encontra-se em um momento chave de sua história: como voltar a ser influente e ajudar na elaboração de políticas públicas brasileiras?

Primeiramente devemos entender a origem da influência do IPEA. Nas décadas de 1960, 1970 e 1980 a formação acadêmica da maior parte dos funcionários públicos federais era baixa quando comparada à formação dos técnicos do IPEA. Dessa maneira, existia um espaço muito grande para que técnicos do IPEA fossem chamados a responder questões importantes de políticas públicas. Além disso, técnicos do IPEA eram sempre convidados a assumirem cargos altos da administração pública. Ou seja, até o final da década de 1980, foi a alta qualificação acadêmica de seu corpo técnico que garantiu uma posição de destaque ao IPEA.

Apesar de sua importância histórica, a partir do começo da década de 1990 a influência do IPEA passou a dimuir. O motivo disso foi simples: os funcionários públicos federais passaram a ser contratados por concursos públicos cada vez mais concorridos. Tal competição por uma vaga no serviço público aumentou consideravelmente a capacitação acadêmica dos funcionários dos Ministérios. Hoje é muito comum se encontrar profissionais com nível de doutorado ocupando cargos concursados dentro de Ministérios. Devido a melhora do capital humano trabalhando como gestores e associados dentro dos Ministérios, a antiga influência exercida pelo IPEA nesses locais foi em muito reduzida.

Analisando os parágrafos acima, parece-me que a chave para o sobrevivência a longo prazo do IPEA é manter o diferencial de qualidade com o restante do serviço público. Mas tal diferencial não pode mais ser mantido apenas pela titulação de seu corpo técnico. Afinal, doutores agora existem também em abundância entre outras carreiras do setor público. O que o IPEA deve fazer é investir fortemente em pesquisa acadêmica. Essa é a verdadeira vocação do IPEA, e é onde o IPEA pode fazer a diferença. Exercendo liderança acadêmica, o IPEA pode voltar a encontrar o papel de destaque que já exerceu no passado.

Pesquisa acadêmica de ponta, auxiliando a implementação e checando o desempenho das políticas públicas, é a chave para a existência de longo prazo do IPEA. É por esse motivo que o recente concurso para técnicos do IPEA me preocupa. Nesse novo concurso o IPEA abandonou sua tradição de buscar pesquisadores, e se concentra em atrair apenas graduados. Antigamente os concursos do IPEA cobravam matérias tradicionais de cursos de mestrado/doutorado. Essa tradição foi abandonada no novo concurso, agora as matérias têm a) um viés de esquerda (proveniente da UNICAMP); e b) um viés para ementas de graduação. Apenas para dar um exemplo: os candidatos para as vagas de macroeconomia não precisarão fazer provas de econometria. Devido ao salário competitivo, acredito que o concurso do IPEA atrairá bons candidatos de nível de graduação. Contudo, não é desse tipo de candidato que o IPEA precisa. O IPEA precisa de pesquisadores, e estes serão poucos nesse novo concurso.

O novo concurso do IPEA é um erro. É um passo importante para o fim desse outrora grandioso instituto. O IPEA precisa de pesquisadores, deixemos os bons alunos de graduação para os outros órgãos do governo.

10 comentários:

Anônimo disse...

Adolfo,

Concordo com você, tanto no diagnóstico (o IPEA precisa de mais pesquisadores), como com relação ao tratamento errôneo (concursos destinados a recém-graduados). Parece que querem desmoralizar o IPEA.

J. Coelho

Anônimo disse...

Adolfo, acho que o principal problema do IPEA hoje é a influência política. Qualquer pesquisa que resulte em crítica a alguma atividade do governo será sumariamente engavetada!

Anônimo disse...

Professor Adolfo, acredito que muito disso deve-se à acomodação dos próprios técnicos do IPEA e quanto como voltar a ser influente e ajudar na elaboração de políticas públicas brasileiras a saída é certamente investir fortemente em pesquisa acadêmica mas será que os apenas graduados após são incapazes de se institucionalizarem e dar fôlego a essa saída ???

Anônimo disse...

O maior erro é a própria existência do IPEA. Para que precisamos dele? Não seria melhor ter um conselho de economistas, formado por pesquisadores filiados às universidades e institutos de pesquisa? Caso um ministério, agência reguladora, ou outro órgão público necessite de uma pesquisa por que não encomendar essa pesquisa para a academia, com bolsa para os pesquisadores envolvidos?
O fim do IPEA poderia fortalecer a academia e os institutos de pesquisa, nos livraria de uma estrutura pesada e das asneiras faladas pelo seu presidente.

Anônimo disse...

Engraçado o anônimo acima que reclama do IPEA politizado. No tempo do FHC saia alguma crítica ao governo?

Aline Amaral disse...

Fugindo do tema do blog. Estou assistindo o Jornal da Globo, e o que foi dito neste blog, já está acontecendo. Como o socorro pedido pelos bancos nos EUA foi atendido. Todos os setores agora estão pedindo apoio. No Brasil, o governo já está liberando valores para "ajudar". Fiquei pensando no ocorrido, e no que li no blog; será que se eu entrar com pedido de ajuda para pagar a crise pessoal financeira que estou passando, o governo vai ajudar? Porque eu, individio, trabalhadora, estou parando de efetuar gastos, e isso pode causar um grande dano a sociedade, nao acha? Acho que vou tentar, e ve se eu consigo.. vai que eu ganho?
Obs. se eu ganhar, nao vou contar, pois o desvio na economia será grande. rsrsrs

Anônimo disse...

A regra é simples: O ser humano e movido a incentivos... Portanto, se a remuneração para fazer parte do corpo de funcionarios do IPEA for compatível com a capacitação de um pesquisador e o estímulo em trabalhar no órgão também, então os melhores serão atraídos para lá.

Anônimo disse...

Volto a falar sobre o a influencia politica no IPEA. O fato de nao sair pesquisas com críticas ao governo durante o governo FHC justifica nao sair durante o governo Lula??

Henrique disse...

O Edital para o concurso é vergonhoso. A parte de conhecimentos gerais está boa mas na parte de matérias específicas faltam materias básicas como econometria e matemática.

Anônimo disse...

Boa análise, grande Adolfo!
E, a propósito dos comentários, quem não viu críticas ao governo FHC nos textos do Ipea na época está bem desinformado (ou propositalmente mal informado?).

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