quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Turbulências e Nuvens Negras , escrito por Rodrigo M. Pereira

Este artigo foi escrito por Rodrigo M. Pereira.

A atual crise mundial de crédito tem origem nos primeiros anos da presente década, sobretudo nos EUA e na Inglaterra. O medo de que a recessão de 2001 fosse perdurar por uma década, à lá Japão nos anos 90, fez com que os Bancos Centrais dessas economias reduzissem fortemente os juros por um período prolongado. O resultado foi uma fartura de crédito nunca antes vista, que teve um impacto, hoje considerado catastrófico, sobre os mercados imobiliários de países como os EUA, a Inglaterra, Austrália, Espanha, entre outros. A ampla disponibilidade de crédito muito barato levou a uma forte procura pelo financiamento de casas. Como a oferta é limitada no curto prazo, houve uma rápida valorização dos imóveis, chegando em alguns casos a mais de 30% ao ano, em termos reais. Casas viraram um investimento imbatível. Muitos as compravam não pela necessidade de uma moradia, mas sim pela expectativa de que elas continuariam se valorizando, o que é um comportamento típico de bolha especulativa. As casas ficaram tão caras que os preços não mais estavam baseados em fundamentos econômicos.

A segunda causa da crise foi o surgimento de uma série de instrumentos financeiros atrelados aos financiamentos das casas. Como esses instrumentos eram em grande parte emitidos por instituições que não operavam como bancos comerciais, eles não estavam sujeitos ao processo de regulação tradicional exercida pelos Bancos Centrais, que impedem riscos e alavancagens excessivos. Assim, esses instrumentos tinham perfis de risco e alavancagem bastante agressivos, o que levanta a suspeita de que essas instituições estivessem agindo sob um certo moral hazard (perigo moral), porque sabiam que eram grandes e importantes demais para que os governos as deixassem falir. Então, se os ventos fossem favoráveis o lucro seria embolsado, se os ventos fossem desfavoráveis, os prejuízos seriam muito provavelmente socializados com o dinheiro dos contribuintes. È evidente que num arranjo assim, quanto mais risco melhor. Em 2007 de fato os ventos tornaram-se desfavoráveis, e a bolha especulativa que se formara sobre os preços das casas finalmente estourou. Diversos devedores subprime (sem renda e histórico de crédito bons o suficiente para conseguir pagar a dívida em dia) ficaram inadimplentes. O valor das casas começou a cair, em muitos casos para valores abaixo do valor restante da dívida, tornando-se vantagem devolver a casa ao banco. Esse processo afetou a liquidez dessas instituições, e de todos os instrumentos financeiros atrelados aos financiamentos imobiliários, num efeito dominó que ainda não acabou. E os prejuízos têm sido fortemente socializados com o dinheiro dos contribuintes. Com exceção do Banco Lehman Brothers, que o tesouro americano deixou falir, até o momento todas as outras instituições com problemas foram resgatadas com dinheiro público.

O dominó eventualmente rompeu as fronteiras nacionais, e no mundo globalizado de hoje, começou a afetar diversas economias, inclusive o Brasil. Até pouco tempo atrás, dizia-se que o Brasil possuía uma blindagem contra a crise, e que na pior das hipóteses nosso crescimento cairia da casa dos 5% anuais para algo em torno de 4%. Afinal de contas, nosso Banco Central acumulara um formidável escudo de 200 bilhões de dólares de reservas. Além do mais, diferentemente de crises passadas, o Brasil não tem mais dívida externa. Como a dívida pública é praticamente toda interna, em moeda doméstica, o estouro do câmbio não causa o descontrole da dívida pública, como acontecia em crises anteriores. Essa fonte de vulnerabilidade não mais existe.
Entretanto, o setor privado não teve o mesmo cuidado que o público, e nos últimos anos se endividou fortemente em dólares. Então, enquanto o Banco Central acumulava uma enorme quantidade de divisas (ativos em dólares), o setor privado acumulava uma enorme quantidade de dívidas (passivos) em dólares. Firmas como Aracruz, Sadia e Votorantim ficaram em situação delicada, por dois motivos. Primeiro, suas fontes externas de financiamento secaram. Não há mais o crédito barato em dólares, e elas terão que buscar outras fontes de financiamento, possivelmente mais caras. Segundo, muitos investidores internacionais retiraram suas aplicações no mercado acionário brasileiro para cobrir perdas em seus países de origem, resultando na maior saída de dólares experimentada pela economia brasileira no período recente. Consequentemente o câmbio disparou, e essas empresas registraram fortes perdas devido ao seu grande endividamento em dólares.

É difícil prever quais serão os próximos desdobramentos da crise. Uma coisa porém é certa. O famoso “céu de brigadeiro” do governo Lula não existe mais. Em 2009 teremos que nos acostumar com turbulências e nuvens negras.

2 comentários:

Anônimo disse...

quero um artigo sobre a derrotaaaaaaaaaaaaaaaaaaa do partido republicano, cade???????

Pedro H. Albuquerque disse...

Excelente artigo Rodrigo!

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