terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Gasto Público em Infra-Estrutura

Várias vozes têm se manifestado em favor do aumento dos gastos públicos em infra-estrutura. Para eles uma melhora na infra-estrutura pode aumentar a produtividade total da economia e impulsionar o crescimento econômico. Por exemplo, uma melhora na qualidade das estradas pode facilitar o transporte de cargas e baretear o custo de transporte. Dessa maneira, se o governo aumentasse seus gastos com a manutenção de estradas estaria também estimulando a economia.

Infelizmente, em economia, as coisas nunca são tão simples. Devemos lembrar que o aumento dos gastos públicos, mesmo que em infra-estrutura, implicam numa redução do montante de recursos disponíveis ao setor privado. Isto é, menos dinheiro para as pessoas e para as empresas. Alguns irão argumentar que o gasto público em infra-estrutura tem um efeito dinâmico, ou seja, irá aumentar a quantidade de recursos futuros disponíveis na economia. Infelizmente as coisas não são tão simples assim. Afinal, sempre poderemos argumentar que o setor privado poderia realizar os mesmos gastos, mas de maneira mais eficiente. Pior, não basta ao setor público ser tão eficiente quanto o setor privado, ele necessita ser mais eficiente. O motivo é simples: o gasto do governo é financiado, cedo ou tarde, por impostos. E os impostos afetam negativamente a produtividade de toda a economia. Assim, aumentar os gastos do governo implica que, cedo ou tarde, os impostos terão que aumentar, e isso prejudica a eficiência de toda a sociedade. Dessa maneira, o investimento do governo precisa ser mais eficiente que o investimento privado (para compensar a perda de eficiência gerada pelo aumento dos impostos). Alguém acredita que a eficiência do governo seja tão alta?

Existe ainda um outro sério problema relacionado ao gasto público em infra-estrutura. Quem garante que o governo está investindo no local correto? Quando o governo melhora a infra-estrutura de determinado local, ele está artificialmente tornando tal localidade mais atrativa ao investimento privado. Ou seja, está tornando viáveis investimentos que antes não seriam realizados. Este custo implica que sempre que o governo cortar tais subsídios (pois este é o nome do investimento público) ele estará condenando todos os investimentos que em tais localidades foram feitos. Com isso, fica evidente que aquele gasto original do governo nunca será transitório. Pior, os subsídios para aquela região irão sempre aumentar com o argumento de proteger o desenvolvimento da região. Querem um exemplo disso? Olhem para Manaus.

Eu desconfio muito de investimentos públicos em infra-estrutura: se eles fossem tão bons o próprio setor privado já os teria realizado. Se o governo é necessário é porque existe alguma coisa mal explicada. Com o tempo, o investimento público em infra-estrutura torna viáveis regiões (e indústrias) que de outro modo nunca teriam prosperado. O custo de se manter tais regiões (e indústrias) aumenta com o tempo, colocando em risco todo o bem estar da sociedade. Se é para o governo gastar, fico com a sugestão de Homer Simpsom: que o governo mande o Tesouro pagar cerveja pra todo mundo. No dia seguinte o máximo que teremos é uma ressaca.

9 comentários:

Erik Figueiredo disse...

Um belo post para fechar minha noite. Seus argumentos são sempre sólidos e claros.
Abraços,

marco bittencourt disse...

Estamos num contexto de crise. O que temos é a necessidade de injetar dinheiro na economia e quanto mais diretamente melhor. Este é o contexto do debate. Se aceito este ponto de vista, qual a alternativa de gasto público que indicaria?

Ricardo disse...

Ola Adolfo,
Concordo quando você diz "Alguém acredita que a eficiência do governo seja tão alta?". Obviamente também não acredito.

Acho sim que o gasto público é um absurdo. Hoje mesmo fico sabendo que 3 deputados ganharam 16 mil reais por 8 horas de serviço. Eles ganham além do 13º, o 14º e 15º salário. Poderia começar a redução de gasto por aí né? Mas voltamos a sua pergunta inicial agora "Alguém acredita que a eficiência do governo seja tão alta?".

Infelizmente acredito que não.

Rafael p disse...

Adolfo, sobre as relação entre gasto publico em infra-estrutura e impostos seu post é muito claro. MAS, sobre a importância do Estado neste tipo de investimento eu ouso discordar.

Nos meus humildes estudos de economia aprendi que o setor de infra-estrutura apresenta algumas características cruciais que inviabilizam o investimento privado ou tornam esses investimentos desinteressantes para o setor privado.

Em geral os setores de infra-estrutura constituem (1) monopólios naturais, (2) exigem grandes investimentos de capital, (3) retorno de investimento no médio e longo prazo (lembrando que instabilidades políticas e econômicas tornam esses investimentos ainda mais arriscados), (4) envolvem ativos específicos e irrecuperáveis (famoso sunk cost) e estão (5) intimamente relacionados com a provisão dos serviços públicos em estrutura de rede.

Por sua vez, esses serviços de utilidade pública em rede (setores como telefonia, energia elétrica, abastecimento de água, saneamento, rodovias, ferrovias, aeroportos, dutos para transporte de gás, transporte urbano, etc.) somam, além daquelas, algumas outras características como (6) estrita complementaridade entre os segmentos da produção (o que eu traz questões delicadas na outorga dos serviços de forma a manter a competitividade, risco de hold up), (7) economias de escopo e de escala (reforçando monopólio natural) e (8) constituem serviços essenciais (com demanda generalizada e baixa elasticidade).

Não quero dizer com isso que o Estado deve fazer todos os investimentos desse tipo, e tampouco que o deve fazer sozinho. Há uma série de estudos econômicos sobre alternativas de atração do investimento privado para o setor de infra-estrutura (com novos modelos de parceria e de regulação). Só quero dar uma de advogado do diabo e ressaltar que o Estado tem papel crucial nesse tipo de investimento.
Aquele abraço.

Anônimo disse...

A cerveja não vai ser boa pra todo mundo. Uma parte da sociedade vai ter que ser o amigo da vez e dirigir de volta pra casa... Nao queremos ninguem preso como consequencia da interação entre politica fiscal e lei seca!

Anônimo disse...

No dia seguinte, teríamos mais do que uma ressaca. Teríamos uma combinação de inflação com ressaca ou de aumento de impostos com ressaca, dependendo de como os gastos serão financiados. Qual dos dois resultados é melhor? No mais, a análise está perfeita.

Juliano Torres disse...

Marco Bittencourt, para o governo gastar, ele tem que tirar o dinheiro de algum lugar, e existem apenas 3 maneiras dele fazer isso atualmente:
a)Reduzir gastos inúteis e investir esse dinheiro. Mas mesmo fazendo isso, esse dinheiro vai parar de ir para cargos comissionados ou corrupção, no qual as pessoas ainda dão mais eficientes que o governo para gastar, logo vamos ter uma perda.

b)Imprimir dinheiro e ganhar uma bela inflação que vai concentrar renda e deteriorar o sistema de preços. Logo é uma péssima opção.

c)Aumentar os impostos, e eu tenho certeza que as pessoas sabem gastar de maneira mais eficiente esse dinheiro que o governo, logo vamos ter perda de bem estar.

Então, quanto mais o governo tentar intervir, mais problema ele vai causar.

marco bittencourt disse...

hum hum juliano
Marco b

Anônimo disse...

Excelente argumentação!!!

Contudo acredito que o governo deveria direcionar os investimentos aos locais com maior potencial de "efeito dinamico".

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