quarta-feira, 18 de março de 2009

Metas de Inflação e a Conduta do Banco Central em 2002

Em 1999 o Banco Central do Brasil adotou o mecanismo de metas de inflação, idéia de usar a taxa de juros para combater a inflação, para estabilizar a economia. O sistema de metas depende fundamentalmente da credibilidade do Banco Central. Desde o começo sempre me posicionei contra esse sistema, motivo: a âncora do sistema de metas é a expectativa de inflação futura. Eu por outro lado sempre preferi outro tipo de âncora: o controle da oferta de moeda.

O interessante do sistema de metas de inflação no Brasil é que além de tudo tais metas são ajustáveis, ou seja, as metas podem ser revistas na presença de choques adversos na economia. Isto simplesmente vai contra a idéia de uma regra. Se uma regra pode ser ajustada ao estado da economia então isso não é uma regra, é sim uma política discricionária. Políticas discricionárias têm péssimo desempenho no combate à inflação.

O objetivo desse post é questionar a interpretação corrente referente ao sucesso do mecanismo de metas de inflação. Gostaria de saber exatamente como um sistema que RECURSIVAMENTE falha em atingir as metas programadas pode ser considerado um sucesso. Nos seus quase 10 anos de existência o sistema de metas de inflação foi ineficiente para fazer valer a meta em quase metade dos anos; e na outra metade absolutamente nada garante que tenha sido o sistema de metas o responsável pela estabilização da inflação.

O ano de 2002 é chave para a análise: a meta de inflação era de 3,5% e a inflação efetiva foi de 12,5%. Mesmo após 2002, o patamar de 3,5% foi alcançado apenas uma única vez. No período 2000-08 a média anual de inflação foi de 6,9% (6,2% se excluirmos o ano de 2002). Isso é sucesso? Mas voltemos ao ano de 2002, a explicação de vários textos do Banco Central refere-se a degradação das expectativas decorrente do processo eleitoral. Eu explico: o BC brasileiro tenta explicar seu fracasso culpando outros. Para explicar essa inflação anormal, o BC culpa a perspectiva da eleição de Lula, e a perspectiva da quebra de contratos. Segundo o BC, a perspectiva de um novo partido político no poder (com fortes tendências de esquerda) estaria gerando uma agitação grande no mercado de câmbio, fazendo o real se desvalorizar frente ao dólar. Com a forte desvalorização cambial ocorreu também um aumento dos preços internos, que resultou na inflação alta de 2002.

É verdade que em 2002 o Brasil teve uma grande desvalorização cambial, e essa desvalorização pressionou a inflação. Mas eu discordo da explicação do BC referente à causa da desvalorização. Ocorre que em 2002 toda vez que uma pesquisa eleitoral colocava Lula à frente de Serra o BC ficava de prontidão para intervir no mercado cambial. Sabendo disso o mercado se antecipava ao BC e atacava o real. O BC tentava defender o real e gastava boa parte de suas reservas. Notando esse comportamento ABSURDO do BC (que no fundo tentava fixar a taxa de câmbio), o mercado começou a apostar cada vez mais contra o real, gerando então a grande desvalorização que tivemos em 2002.

O ataque especulativo contra o real em 2002 não foi gerado pela expectativa da eleição de Lula, foi sim gerado pelo comportamento intervencionista do BC brasileiro no mercado cambial.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adolfo,

A adoção do sistema de metas de inflação com a taxa de juros como instrumento, tem base teórica em uma concepção novo-keynesiana da equação de demamda por moeda. Um paper de Michael Woodford, de 1998, intitulado "Doing without money: controlling inflation in a post-monetary world" é ilustrativo. Ali, Woodforde pontua: "Como os arranjos do sistema financeiro dão ensejo a novos arranjos e como tais arranjos desestabilizam a demanda por moeda, não há esperança de que exista, a qualquer tempo, estabilidade da demanda por moeda". Essa é a razão alegada para os BCs (inclusive o BC do Brasil) adotarem a abordagem conhecida como inflation targeting. O problema é que, se tais arranjos financeiros forem modelados na estimação da demanda por moeda, a mesma torna-se estável. Outro modo de encontrar demanda por moeda estável, é pela sua modelagem com técnicas de regressão não linear, do tipo STR. Nesse sentido, você tem razão em desconfiar do uso da taxa de juros como instrumento de política monetária. No mínimo, não é o único instrumento de política monetária que pode ser usado.

Um abraço,

J. Coelho

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