sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Falhas de Imaginação Coletiva, escrito pelo Professor Emanuel Kohlscheen

Este artigo foi gentilmente enviado para este blog pelo Professor EMANUEL KOHLSCHEEN.

A pomposa Londres presenciou uma cena inusitada. Em
recente visita à London School of Economics, a rainha Elizabeth
II deixou o protocolo real de lado e perguntou a alguns de seus
ilustres súditos, professores daquela instituição, porque ninguém
anteviu o tamanho do desastre econômico desencadeado pela
crise de crédito. Em carta aberta à sua majestade, o professor da
LSE e diretor do Banco da Inglaterra Tim Besley,
respeitosamente explicou que enquanto “todos pareciam estar
fazendo seu serviço corretamente”, o que ocorreu foi “uma falha
da imaginação coletiva de muitas pessoas inteligentes, tanto na
Inglaterra como internacionalmente.”
A crise de crédito que veio a tona há exatos dois anos
representa uma crise não apenas para a economia mundial e
milhões de empregados que perderam seu ganha-pão, mas
também para a linha de pensamento que dominou as mais
respeitadas escolas de economia do planeta. Há pelo menos 80
anos a teoria macroeconômica tem sido palco de épicas batalhas
pelo domínio do campo das idéias. De um lado, economistas
chamados de clássicos ou neo-clássicos, firmemente ancorados
na teoria microeconômica defendem a premissa de que o ser
humano é, antes de mais nada, racional. Do outro lado,
economistas mais pragmáticos, liderados pelo memorável John
Maynard Keynes, defendem uma orientação mais empírica da
disciplina, levando em conta aspectos comportamentais que
representam desvios do paradigma da racionalidade na sua
versão mais purista.
Os Keynesianos, que viram o esforço da guerra confirmar as
previsões de seu mestre, dominaram o campo das idéias no pósguerra.
A virada, na forma da revolução neo-clássica, veio
quando o excesso de confiança dos Keynesianos e as crises de
petróleo levaram à estagflação e à desilusão da década de 70.
Economistas de Chicago, liderados pelo legendário Milton
Friedman e Robert Lucas Jr., transformaram-se em generais da
contra-revolução que gradualmente conquistaria o mundo.
Discípulos geniais desta escola empenharam-se em demonstrar a
superioridade dos mecanismos de mercado e a eficiência dos
mercados livres de qualquer interferência governamental. Não
demorou para que líderes políticos fossem buscar inspiração na
Universidade de Chicago. Ronald Reagan e Margaret Thatcher
colocaram os ensinamentos desta escola em prática na década
de 80, iniciando um período de quase consenso na política, em
que tanto direita como esquerda acreditavam na eficiência
suprema do laissez-faire.
Se Chicago foi a líder filosófica e intelectual da revisão da
teoria econômica desencadeada pela revolução das expectativas
racionais, o menos conhecido departamento de economia de
Minnesota se encarregou de desenvolver um sofisticado aparato
técnico que levaria à expansão desta escola a níveis globais.
Liderados por Ed Prescott, Minnesota rejeitou testes empíricos
baseados na econometria e partiu para o campo das simulações
numéricas de problemas decisórios complexos que só poderiam
ser resolvidos com a ajuda de softwares matemáticos.
Maravilhados pela sofisticação do aparato tecnológico e pelas
teorias do eixo Chicago-Minnesota, o mundo acadêmico
gradualmente sucumbiu à elegância matemática dos modelos,
descolando por completo da realidade vivida pelo cidadão
comum.
A racionalidade humana foi promovida da sua condição de
hipótese para um dogma inquestionável. Ao rejeitarem a
econometria, inteligentes pensadores acabaram ignorando a
necessidade científica de se testar hipóteses que sejam
empiricamente refutáveis. A tese da racionalidade humana foi
equiparada a uma lei natural, de status semelhante às leis de
Newton e Maxwell na física. O que inicialmente era visto como
fundamentalismo de mercado de algumas escolas do meio-oeste
americano, seduziu o mundo acadêmico de Nova Iorque a
Pequim e tomou conta dos corpos editoriais dos periódicos
acadêmicos mais respeitados do mundo. Se Keynes se
apresentasse em pessoa a um chefe dos 20 melhores
departamentos do mundo pedindo um emprego, seria rejeitado
por sua falta de rigor matemático! Desta vez, os excessos vieram
do lado dos economistas clássicos.
A imaginação coletiva falhou de novo. Mentes brilhantes
enredaram por caminhos que nos levaram ao precipício que Paul
Krugman chama de a “idade das trevas da macroeconomia”. Se
o problema dos Keynesianos antigos era que eles modelavam o
ser humano como tendo a inteligência de um macaco, os
modelos neo-clássicos passaram a equiparar o homo
oeconomicus a um deus: um ser extremamente inteligente, com
capacidade infinita de processamento de informações.
Parafraseando o economista belga Paul de Grauwe, o que os
bancos centrais e de fato o mundo necessita hoje é de modelos
em que o ser humano não seja equiparado nem a macacos, nem
a Deus.

2 comentários:

Anônimo disse...

Adolfo,

Apenas um ou outro reparo no texto. O primeiro é de forma. O autor deve estar se referindo aos economistas liderados por Lucas: os novos-clássicos. Outro reparo é com relação à defesa um tanto velada da ortodoxia keynesina, ao delimitar o campo de batalha entre novos-clássicos e keynesianos. Se os novos-clássicos não ganharam a parada - do ponto de vista, ganharam: basta ver quantos anos durou a prosperidade mundial desde que foi quebrado o paradigma keynesiano - qual a razão de a crise que agora vemos parece estar fadada a durar tão pouco tempo (relativamente à Grande Depressão que, por obra e graça da mágica keynesiana, durou mais ou menos treze anos)? Eu vejo isso como um sinal de que a busca frenética de pelo equilíbrio microeconomicamente fundamentado para a macroecomia, preconizado pelos novos-clássicos, está na raiz dessa plausível curta duração.
No mais, o texto está excelente.

Anônimo disse...

Professor,

Gostei muito do texto, de uma sensatez e imparcialidade impar.

Honestidade Intelectual total!

Marcos Paulo

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