segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Lado Triste da ANPEC e da SBE

O encontro da ANPEC e da SBE, em teoria, reúne os melhores pesquisadores em economia do Brasil. O nível das sessões está bom e melhorando a cada ano (o que confirma alguns estudos sobre os níveis de publicação internacional).

O lado triste do encontro da ANPEC e da SBE fica por parte do silêncio absoluto de vários pesquisadores ortodoxos sobre a taxa de câmbio. Os heterodoxos nadaram de braçada no encontro: sempre havia um deles disposto a defender algum mecanismo de ajustamento do preço do câmbio (claro que nenhum deles sugere o óbvio: abrir o mercado).

Digo que isso é triste, pois mostra uma falta de força, ou de vontade, de intervir no debate nacional num momento crítico. O conhecimento traz consigo responsabilidades, e os ortodoxos brasileiros estão se esquivando desse debate. Uma pena, pois cedo ou tarde o preço disso irá aparecer.

Gostaria de fazer um pedido aos alunos da EPGE e da PUC-RJ, no papel os centros mais ortodoxos do Brasil, para que cobrem participação de seus professores. Claro que para alguns professores da PUC-RJ é díficil pedir pela liberação do câmbio (uma vez que boa parte deles são contrários a isso). Mas as escolas devem ser consistentes com o que ensinam: se você ensina que preços devem ser flexíveis, então deve ensinar também que o câmbio deve ser flexível.

Câmbio é preço e do ponto de vista ortodoxo preços devem ser flexíveis. Se o câmbio está valorizado isso decorre de impedirmos que as importações aumentem (ou de estarmos estimulando artificialmente as exportações). A solução para o dilema cambial é simples: abertura comercial.

Eu entendo a UFRJ, a UNICAMP e mesmo alguns professores da UnB irem contra essa idéia. Afinal, como heterodoxos eles tem outro modelo em mente. Contudo, é difícil ser contra a liberação da taxa de câmbio sendo ortodoxo. Essa é uma contradição razoável.

11 comentários:

José Luis disse...

Adolfo,

Em tempo: eu acho que a apreciação cambial no Brasil resulta, ao fim e ao cabo, do fato de se ter feito no Brasil a abertura financeira antes de se ter feito a abertura comercial ... sequenciamento errado de "reformas", deu no que deu ... câmbio apreciado e desindustrialização.

Abs,

Oreiro

Anônimo disse...

Professor Adolfo,

Perfeito!

E que coragem heim! Já esta na hora de falar a VERDADE sobre o que atrasa realmente esse país.

Abertura Comercial Já!!!

Há muita retórica vazia na blogosfera, porém, sua atuação é revestida de gestos concretos.

Tenho orgulho de ter sido aluno seu.

Parabéns!!!

Marcos Paulo

Michel disse...

Adolfo,

Como aluno da PUC-RJ, posso te dizer que eu não vejo ninguém lá atualmente defendendo algo p/ o câmbio que não câmbio flutuante...

Anônimo disse...

segue nota do fragelli e ferreira, professores da EPGE

http://www.fgv.br/professor/ferreira/FerreiraFragelliCambio.pdf

Aurelio disse...

Sachsida

Boa tarde.

Infelizmente (para mim) meu artigo não foi aprovado para o Encontro ANPEC realizado este ano.

Nesse artigo (extrato de minha dissertação de mestrado) fiz um estudo econométrico da NER Brasil mensal 99/2007 onde mostro que a teoria da PPP não pode ser descartada, isto é, podemos inferir que a NER segue a trajetória dos índices de preços manufaturados EUA x Brasil (pelo menos), sem descartar os desvios, mas esses são temporais e não permamentes.

Os ajustes de curto-prazo são condizentes com a trajetória de longo-prazo.

Portanto, acredito que a trajetória da tx de câmbio poderia ser alterada se efetivamente houvesse uma reversão de condições, dentre elas maior liberdade comercial como vc defende no blog.

Parabéns

A.G. Martins

Anônimo disse...

As contas do PIB indicando maior investimento não parecem indicar a desindustrialização.

Sem considerar uma simples obs (crescimento desde 2004 da produção de manufaturados), uma tese de doutorado apresentada esse ano na USP (se não me engano) refuta por completo essa "tese" de desindustrialização.

Martins

Rafael M disse...

Com dois anos de casa, não lmebro de ter visto ninguém na PUC defender controle cambial.

Mas o ponto não é esse. O pessoal da PUC (atual ou ex) que se liga mais nessa área de macro têm falado bastante sim. Veja declarações e entrevistas do Gustavo Franco, Armínio Fraga, Ilan (artigos no globo), Loyo, Artigos do Márcio Garcia no Valor, Dionísio (estadão).

Mas fazer artigo acadêmico pra falar disso, aí realmente ninguém faz. Talvez alguma coisa do Bacha na RBE.

José Carneiro da Cunha disse...

Beleza Dolfão.


É, o câmbio...

Tudo bem que a FGV e PUC não tem feito o seu papel, mas o folclore também tem exagerado no dele. Já que não têm eles, vamos nós....

Parte considerável de nossas exportações de produtos industrializados segue para Estados Unidos, Europa e América do Sul (cerca de 50% para EUA e AL). Em fins de 2008 e começo de 2009, nosso principais importadores de produtos industrializados reduziram suas importação (de todo o mundo) em cerca de 35%. Por outro lado, nossa atual grande consumidora de produtos primários, a China, não fez cortes tão grande em suas “compras”.

Apenas esses dados são suficientes para explicar de onde surge o “temor” keynesiano, mas não corrobora a enlaçamento lógico que eles tentam construir. Fosse ele verdadeiro, o Brasil deveria ter perdido mercado em virtude do câmbio e não da queda drásticas de todas as importações de nossos principais clientes. Ou seja, quando esses países voltassem a importar, em nada, ou muito pouco, mudaria a demanda por nossas manufaturas. Porém, EUA e AL iniciaram em maio deste ano um processo de retomada de importações, como resposta, as exportações de produtos industrializados cresceram de forma semelhante ao aumento de demanda desses países, e mais do que o aumento da exportação dos produtos não industrializados. Ou seja, a “temor” não tem fundamento.

Outro ponto interessante diz respeito à desindustrialização. Como já visto, ela não ocorre no setor exportador. Será que ocorre no setor voltado ao consumo interno? Não!

Sem o efeito via setor exportador, a deseindustriação só seria fato se o consumo brasileiro de produtos industrializados (pelo menos 60% do que se produz aqui é consumido aqui) estivesse em processo de mudança de fornecedor. Ou seja, ao invés de compramos geladeiras Made in Brazil, nossas geladeiras seriam Made in Honduras (ou algo do tipo). Mas como bem lembrou o professor Oreiro, somos fechados comercialmente. Ou seja, a desindustriação brasileira não seria compensada pela importação de produtos industrializados, mas teria como resultado o sumiço dos produtos industrializados das prateleiras das lojas. Como ocorre de fato o oposto, só podemos concluir que isso não está acontecendo.

Se não fossemos fechados comercialmente, o aumento das importações levaria o câmbio para outro equilíbrio, provavelmente mais “vantajoso” para alguns setores que hoje reclamam. Como somos fechados, nossas importações não aumentam como poderiam (poderiam, isso é antes um hipótese que um fato), logo o cambio fica mais alto do que seria esperado. Mas, se somos fechados e há desindustrializaçõa, produtos industrializados deveriam começar a faltar.

Então, a conclusão óbvia é de que não há nenhuma desindustrialização por culpa do câmbio. Nem via setor exportador, que, controlados os efeitos da crise, continuou em expansão, nem via substituição do consumo de nacionais por importados, visto que somos fechados e não há falta de produtos no mercado interno.

Abs

José Carneiro

José Carneiro da Cunha disse...

Eu de novo,

Apenas para fechar minha argumentação do outro post.

Entre janeiro de 2005 e novembro de 2009, o dólar perdeu 33,32% de seu valor frente o Real. Em janeiro de 2005, um dólar valia R$ 2,624, em novembro de 2009, esse valor era de R$ 1,7497 (BaCen e IPEA).

Nesse mesmo período, as exportações de produtos industrializados cresceram 44,18%, é verdade que as exportações totais cresceram 55,25%, mas o fato da exportação de matérias primas ter crescido mais rápido que o crescimento da exportação de produtos industrializados, responsáveis por 62,55% do total em novembro de 2009, é mais reflexo do grande aumento de demanda Chinesa por matéria prima do que um processo de desindustrialização. De fato, os dados apontam que a indústria cresceu, apesar do dólar.

Em um cálculo rápido, mas que pode nos ajudar, a correlação entre a taxa de câmbio e a participação de produtos industrializados no total exportado é levemente (muito levemente) positiva, cerca de 0,013, ou seja, praticamente inexistente.

Portanto, não só o cambio não tem afetado a relação produtos industrializados/matérias primas, como não há indício de ter, efetivamente, afetado a exportação de manufaturas.

Isso somado às considerações já feitas sobre a não substituição, no mercado interno, de produtos made in brazil por produtos importados, lança sérias dúvidas sobre qualquer hipótese de desindustrialização provocada por fator cambial.

Abs

José Carneiro

Obs: dados do Bacen e do IPEADATA.

André Greve disse...

Parabéns pela coragem professor Adolfo, os ortodoxos são uma maioria silenciosa na qual faltam pessoas que se levantem contra essa minoria heterodoxa, que se passa por maioria pelo fato de ser bastante barulhenta.

Anônimo disse...

Economista é uma merda mesmo, apesar de ser um....
Essa coisa de frequentista e baysiano, na estatística...clássico e keynesiano na economia... e por aí vai...

Acho que se refuta algo quando se prova que esse algo está errado...
portanto, deve-se publicar artigos acadêmicos refutando esses parasitas heterodoxos...

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