segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Diferenças entre o conceito de reputação acadêmica no Brasil e nos EUA

Tive o prazer de conhecer de perto a rotina de dois departamentos de economia americanos. Interagindo com meus colegas que lá trabalham, também tive um bom conhecimento do mercado de trabalho para economistas em universidades americanas. Nos Estados Unidos, a reputação de um professor de economia pode se manifestar em três dimensões: ensino, pesquisa e extensão. Existe um mercado para professores que são excelentes em dar aulas, e existe também um mercado para professores capazes de atrair recursos externos para o departamento. Contudo, é na parte da pesquisa que é construída a reputação dos bons pesquisadores. Seriedade e respeito acadêmico nos Estados Unidos são conseguidos por meio de publicações científicas.

No Brasil a reputação da maioria dos professores de economia é conseguida de maneira distinta da de seus pares americanos. Dada a estrutura da maioria das universidades brasileiras, trazer recursos para o departamento geralmente não é uma atividade que traga bons dividendos ao pesquisador. Além disso, como a grande maioria dos professores de economia no Brasil não publicam artigos científicos, essa acaba não sendo uma vertente que tenha o apelo que tem nos EUA. No Brasil, a reputação dos professores de economia é obtida sobretudo na sala de aula, ou seja, na dimensão do ensino.

O normal seria então esperarmos que bons professores tivessem alta credibilidade no Brasil. Mas é nesse ponto que se manifesta uma das maiores peculiaridades brasileiras: os bons professores são discriminados. Quando o aluno, o diretor, ou outros professores, tem que opinar entre dois professores sendo um deles excelente em sala de aula e outro péssimo, geralmente ouvimos a seguinte exclamação: “Fulano não sabe tanto, mas é bom professor. Já Ciclano sabe muito, mas não consegue transmitir pros alunos”. Ou seja, ser claro, objetivo e encadear a aula numa sequência lógica acaba sendo um sinal de que o professor não sabe muito e, por isso mesmo, tem que preparar uma boa aula. Já o professor confuso, desorganizado, e que mal sabe o que falar é imediatamente taxado como gênio.

A principal implicação dos parágrados acima é que vários professores de economia brasileiros buscam contruir sua reputação dando péssimas aulas e reprovando um enorme número de alunos. Reprovar alunos passou a ser o sinal de que o professor é sério e exigente. Assim, é normal ver em várias universidades brasileiras professores de economia que nunca publicaram nada com fama de sérios, apenas pelo fato de reprovarem muitos alunos em seus cursos.

Para finalizar, nada melhor do que a sugestão de um amigo meu: “Todo professor deveria ser obrigado a responder (sem colar) sua própria prova”.

21 comentários:

Aline Amaral disse...

Concordo 100%!!! Minha opinião, é que um pesquisador, com várias publicações, tende a ter um maior conhecimento a um professor que se concentra apenas na teoria, e se esquece de suas aplicações.
Como aluna, as dificuldades são grandes quando o assunto é a sala de aula.

Fábio Mayer disse...

Nos meus tempos de faculdade, um desses "gênios" (embora não da área econômica) fazia terrorismo com os alunos. Dava aulas arrogantes, humilhava quem não lhe respondia coisas que queria ouvir e aplicava provas orais de surpresa.

Era considerado a autoridade do assunto, mas um professor pífio, de conhecimentos bem limitados, muito inferiores aos do professor não reconhecido do semestre anterior.

Anos depois ele, o gênio, em um tribunal superior, foi acusado (com provas) de fazer arranjos para colocar em seu gabinete alguns familiares...

O seu post me lembrou de alguns episódios tristes da minha faculdade.

Anônimo disse...

Perfeito Professor!!!

Ainda mais com a feliz conclusão abaixo:

“Todo professor deveria ser obrigado a responder (sem colar) sua própria prova”.

Marcos Paulo

Anônimo disse...

E ainda há professores, por exemplo de finanças, que ganham menos que seus alunos, ou seja, mesmo com todo o conhecimento não foram capazes de aplicar as técnicas de mercado para ganhar um salário maior do que o de pessoas que não detem o mesmo conhecimento. Agora vem a pergunta: Se um professor de finanças reprova um aluno que atua na área financeira (por exemplo) e que ganha 10 vezes mais que o professor, essa reprovação é válida????

Anônimo disse...

Acabo de me formar pela UFJF. A professora mais respeitada e com fama de "gênia" é, na minha opinião, uma das pessoas mais ignorantes que já conheci. Até hoje não entendo como foi possível que ela adquirisse o título de doutora. No mais, os alunos eram muito fracos (nem sempre nas notas, mas com certeza não entendem bulhufas de economia) e completamente desinteressados. Não havia um clima de progresso intelectual.

Anônimo disse...

É muito relativo. Depende muito do nível dos alunos e do que eles pretendem do curso.
O ideal é termos sempre professores com excelente didática e que cobrem avaliações com o devido rigor.
É bem comum tb, por outro lado, encontrarmos professores q mantem o nível do curso bem fácil para "facilitar sua didática" e não gerar complicações.
Os alunos percebem isso.

Dr. Ned Kelly disse...

Acho que voce esta pegando pesado. As palavras conceito e reputacao nao representam nada pro mundo academico brasileiro. E, infelizmente, representam cada vez menos no mundo academico americano. Medidas as proporcoes.

Ginno disse...

Na UCB existe muito isso “Fulano não sabe tanto, mas é bom professor. Já Ciclano sabe muito, mas não consegue transmitir pros alunos”. Ontem tive a primeira aula de Microeconomia com um professor novo na UCB. A matéria em questão era analise de mercado. Acredito que ele ficou surpreso com o nível de conhecimento dos alunos em assuntos como: oferta e demanda, preço de equilíbrio, monopólio, congelamento de preços, bens elásticos e inelásticos. É realmente uma pena que nem todo mundo teve a oportunidade de ter Adolfo e Rogério como professores.

Nilo disse...

Gostei do post, porém gostei mais do comentário do primeiro anônimo!! Realmente, se um professor ensina como cuidar de um negócio e ganha menos que um aluno, então quer dizer que mesmo sem o conhecimento do professor o aluno é capaz de vencer no mercado. Concluo então, que não seria justa uma reprovação. Minha opinião.

Anônimo disse...

Professor, desta vez vou ter de discordar de você. Didática, produção cientifica e quantidade de alunos reprovados são coisas em geral independentes: numa universidade grande tem de tudo: professor que publica e dá péssimas aulas e vice versa. Professor bom que não exige muito nas provas e acaba reprovando pouco. Professor bom que reprova acima da média. Professor ruim que reprova pouco precisamente por não dar a mínima para o curso e não querer dor de cabeca. E vou além: em geral os piores professores que tive praticamente não reprovavam pois dar aulas e lidar com alunos era um fardo para eles. Cuidado: nos EUA é comum professores colocarem questões na prova que eles próprios consideram difíceis. Em pós graduação isso é comum e muitas vezes desejável desde que o bojo da prova seja no nível das aulas. Senão deixa de ser pós graduação e vira curso profissionalizante.
Aquele abração mestre!

Anônimo disse...

Não só em economia, mas em vários centros de pós no Brasil..
Tem muito professor que não publica nada...dá uma aula péssima...não aparece na universidade, e o pior... diz que está trabalhando em casa..só fico imaginando em que???

lelê disse...

Caros,
Em minha opinião eu tive bons professores nos dois campos, ou seja: “sabe muito, mas péssimo professor." e "não tem muitos títulos, mas é um excelente professor." O fato do cara não ter muitos artigos publicados e ter um alto nível de reprovação não o desmerece, desde que seja um bom professor e cabe ao aluno aprofundar seus conhecimentos. Acredito que publicações independe se o cara é ou não professor, na universidade não é só lugar de aula mas de pesquisas também. Percebe-se que, principalmente, na pós-graduação o número de publicações e títulos é relevante para o profissional ser empregado em uma universidade, pois na pós-graduação o aluno estuda sozinho e aprende sozinho. Daí eu pergunto, então no mestrado não precisa o professor saber passar a matéria e sim ter ns títulos e artigos publicados que o emprego está garantido? Já na graduação, o aluno acabou de vir do ensino médio - na maioria das vezes - aí é de fundamental importância ter professores que ensinam bem. Mas no final, estuda não pra ver!!
Alessandra Santos

Anônimo disse...

Adolfo,

por acaso vc ganha mais que todos seus alunos?


Seguindo a lógica de alguns comentários anteriores, os quais considero (no minimo) lamentáveis, um professor que ganha menos que seu aluno não estaria apto a ensiná-lo.

Anônimo disse...

Querer medir a capacidade de lecionar com o respectivo salário é algo de uma tolice sem tamanho. Que Deus abençoe os muitos professores excelentes que tive e que se dispõem a dar aulas e pesquisar por salários ínfimos. Agora, eu questiono nào o professor que ganha pouco mas o aluno que ganha muito a ainda quer um diploma! Se ele já ganha tão bem assim, para que recorrer a sala de aula?

José Carneiro da Cunha disse...

"E ainda há professores, por exemplo de finanças, que ganham menos que seus alunos..."

"...Se um professor de finanças reprova um aluno que atua na área financeira (por exemplo) e que ganha 10 vezes mais que o professor, essa reprovação é válida????"


Bem... eu ganho mais, então minhas reprovações estão ok. Certo?

abs

José Carneiro

lelê disse...

simplesmente espetacular e brilhante o comentário do último Anônimo: "... o aluno que ganha muito a ainda quer um diploma! Se ele já ganha tão bem assim, para que recorrer a sala de aula?"
alessandra Santos

Anônimo disse...

Pela [i]lógica apresentada o senhor, prof Carneiro, está correto. Acredito até q possa reprovar mais de 99% ou 100%, dependendo da turma, visto q o senhor ganha mais que eles.

A questão é, como o anômimo disse; pra q diploma se vc tem $. tá gastando ele à toa? que burrice! Se já possui o conhecimento, universidade pra quê?
Eu ganho mais, portanto, sei mais. [O doutorado ou pós-doutorado do prof. ñ conta] Que direito tem ele de me reprovar? Alguém, por favor, decifra isso, pois não entendi! Que tipo de pensamento é esse?

Eu julgo os profs assim: Há o bom professor e um professor bom. O primeiro entende o conteúdo e é capaz de ensinar com clareza, o outro, é apenas uma pessoa boa. Os profs que reprovam muito, eu corro deles. Mas os que passam os alunos facilmente eu tbm corro. É difícil achar o meio-termo. Tem prof q não está nem aí se os alunos estão ou não aprendendo, mas agora tem outros que acham que os alunos deveriam ter o conhecimento que eles tem.

Por fim... pesquisa não é uma campo fácil. Conseguir recursos para financiar suas pesquisas muito menos. E olha que sei pouco sobre isso, mas já ouvi prof. reclamando de não conseguir incentivo para pesquisar. Acho q é isso que mais interfere. E o fato do prof, coitado, dar não sei qtas aulas e ainda tirar tempo... depois tentar publicar... ñ deve ser fácil!

Publicações, para mim, não é índice de se um prof. é bom ou não. Com certeza há muitos pesquisadores que não sabem dar uma aula, não tem didática para isso e, por isso, não estão na sala de aula, mas estão tentando arranjar bolsa para suas pesquisas. Coitados, espero que consigam do contrário não restará outra saída a não ser a sala de aula. Afinal eles tbm precisam de $.[mesmo q seja 10vezes menos que do aluno fulano de tal]

Anônimo disse...

Lelê,

talvez ele queria continuar ganhando bem ou ganhar ainda melhor.

Esse é o tipo de aluno que aprova o rigor e a seriedade no ensino.

Já o aluno que quer apenas o diploma, por algum motivo qualquer, esse nunca ganhará bem.

Evaneide 2g2h UCB disse...

Esse fato que o senhor relatou só revela uma realidade do Brasil que todos já sabem. A população brasileira em geral não se interessa muito por cientista, pesquisadores,por teses, mas soluções rápidas para seus problemas, querem aprender sem colocar seus pensamentos críticos em ação. E a da parte do governo vem a falta de incentivos financeiros , seja de qualquer aréa, querendo somente resultados positivos no ensino brasileiro. Mas o importante é nunca desistir, na esperança de um país mais envolvido com a pesquisa, principalmente no campo da Ciências Econômicas, muitas vezes apagado no cenário brasileiro.

Anônimo disse...

Essa situação é realmente lamentável, pois nem mesmo os alunos, professores e diretores se dão conta desse problema.
Foi muito bom ter lido esse blog, pois nós estudantes de economia, podemos ficar atentos quanto à discriminação de professores, a busca de mais investimentos na área de pesquisa, e não seguir o caminho de professores que dão péssimas aulas e ainda ganham credibilidade das pessoas.

Nome:Gabrielle Maria

talita disse...

A 1ª questão que analiso é a diferença cultural dos países. Ao meu ver, os USA investem mais na educação que o Brasil, crianças são, desde cedo, estimuladas a não só estarem em sala de aula + a aprenderem o que seus professores ensinam. No Brasil, a educação é mais do que precária, faltam incentivos para as crianças irem e permanecerem em salas de aulas.

O que faz um professor ter uma boa reputação? Pesquisar? Publicar artigos? Dar uma boa aula? Fazer com que o aluno aprenda? Sim.. mais na minha opinião uma boa reputação de professor deve ser construída unindo todas essas habilidades e mais algumas.
Pelo amor de Deus, um professor que se " esconde" atrás de reprovações de alunos, provas que nem eles mesmo sabem fazer, famas de durões, são péssimos exemplos, além de profissionais desqualificados e que podem influenciar na nossa formação de maneira super negativa, sem acrescentar nd!

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