terça-feira, 20 de abril de 2010

Belo Monte

A polêmica da semana refere-se ao leilão para a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Ambientalistas são contra, ong’s ligadas aos índios são contra, os politicamente corretos são contra. A novidade agora é que todos estão contra o governo Lula, maior patrocinador desse empreendimento. Interessante notar a criatura virando-se contra o criador, interessante notar que os movimentos sociais ganham dinâmica própria e desafiam seus antigos mestres.

Por princípio sou contra megaempreendimentos patrocinados pelo Estado. Talvez eles sejam até necessários em determinadas situações, mas na maioria das vezes são apenas peças de marketing de algum governante. No caso específico de Belo Monte acredito que o marketing fala mais alto do que o bom senso. O Brasil precisa produzir mais energia, quanto a isso não restam dúvidas. Contudo, construir uma mega usina muitas vezes é mais caro, e ineficiente, do que conduzir unidades menores. Outro detalhe: como fica a navegação fluvial na presença da usina? Como se dará a transmissão da energia gerada em Belo Monte para o restante do país? Qual o custo de se produzir semelhante volume de energia em plantas alternativas? São perguntas que demandam respostas.

Mas a principal pergunta referente a Belo Monte refere-se ao verdadeiro rombo fiscal que tal empreendimente causará. Já existem estimativas que apontam para subsídios da ordem de 6 bilhões de reais para o consórcio vencedor do leilão. O subsídio será bem maior do que esse se as taxas de juros subirem (o que é quase certo que aconteça). O BNDES irá financiar impressionantes 80% do valor total da obra. Que empreendimento privado é esse? O consórcio vencedor do leilão já conta com a CHESF que é estatal, parece também que outra estatal, a Eletronorte, irá entrar no consórcio. Outros possíveis parceiros serão os fundos de pensão (estatais). De privado mesmo existe muito pouco.

Eu já me posicionei contra o BNDES, e o farei novamente: é escandaloso o uso de operações de endividamento do Tesouro para capitalizar o BNDES. Essas operações parafiscais usam de um ardil: aumentam a dívida bruta do governo, mas não alteram a dívida líquida. Como a meta de dívida do governo refere-se a dívida líquida, tem-se a impressão de que tudo anda bem nas contas públicas.

Em alguns anos o consórcio vencedor, financiado basicamente com recursos públicos, irá admitir que não previu determinadas dificuldades técnicas. Resultado: o preço da tarifa acordado terá que ser aumentado. Então, para evitar o aumento das tarifas, o governo irá aumentar ainda mais os subsídios fiscais, penalizando ainda mais o contribuinte. Mas como desgraça pouca é bobagem, pior mesmo será ver o governo chegando a antecipada conclusão que o problema do preço da tarifa é uma questão política, e não econômica. Ou seja, em breve estaremos vendo mais um movimento em direção a estatização do setor elétrico com a estatização de Belo Monte.

Um comentário:

Diego de Paula disse...

Muito interessante esse modelo de empreendimento, eu chamaria de Paradoxal Hidrelétrica de Belo Monte.

Faz-se um leilão entre as empresas, para definir a iniciativa privada que irá comandar o negócio, mas quem banca é o governo.

“Que empreendimento privado é esse?”

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