domingo, 15 de agosto de 2010

Mitos sobre a Educação

Pergunte a qualquer pessoa o que um país deve fazer para crescer. A resposta quase certamente será: investir em educação. O que fazer para reduzir a criminalidade? Investir em educação. Escolher melhor os políticos? Investir em educação. Problemas com mortalidade infantil? Basta investir em educação. Educação parece ser o remédio para tudo. Infelizmente, a educação tem mais fama do que poder para consertar tantos problemas assim.

Em relação ao crescimento econômico, a maioria esmagadora dos estudos não mostra grandes impactos da educação sobre as taxas de crescimento de um país. Lembre-se que capital humano é uma variável bem diferente de educação. Capital humano inclui uma série de componentes (tal como experiência, habilidade, etc.) dos quais educação é apenas uma parte. Não é fácil encontrar efeitos positivos significativos da educação sobre a riqueza de um país. O mesmo vale para criminalidade. Se é verdade que a educação pode reduzir determinado tipo de crime (notadamente crimes violentos), é verdade também que a educação pode aumentar outros tipos de delito (crimes de colarinho branco por exemplo).

Quanto a escolha de políticos, que tal olharmos o Distrito Federal? O Distrito Federal deve ter uma das populações mais educadas do país, mas parece que a qualidade dos políticos daqui é pior do que a média nacional (basta notar o número de senadores daqui que perdem o mandato). Quanto a mortalidade infantil, a esmagadora maioria desse problema poderia ser resolvida com água e esgoto tratados, ou então fervendo a água e dando um destino mais adequado ao esgoto. Ou seja, a pior parte desse problema deve-se a infra-estrutura.

Na grande maioria das vezes, educação recebe muito mais méritos do que realmente tem. Educação é sim importante a nível individual. Indivíduos que estudam mais ganham, na média, mais do que seus semelhantes que estudam menos. Mas esse efeito nada tem de externalidade (ou seja, é o próprio indivíduo que se beneficia de seu esforço). A rigor, se existe alguma externalidade na educação ela se concentra quase que totalmente na formação básica. Isto é, educação básica e nível médio.

Governos devem sim investir na educação. Contudo, sem um mercado competitivo alocando e premiando os melhores o efeito positivo da educação fica muito reduzido. Investir em educação sem promover o livre mercado é inócuo e dispendioso, tal como o exemplo das antigas repúblicas socialistas nos ensina.

9 comentários:

Michel disse...

Faltou contextualizar minimamente esta linha de raciocínio. É a mesma coisa na Finlândia, em Bangladesh e no Brasil?

Parece-me claro que não.
No Brasil, precisamos investir em educação. E muito.

Nilo disse...

Pois é, o pessoal adora falar da Coréia do Sul q investiu em educação e ficou rica, mas esquece do que eles fizeram por trás, toda a abertura econômica que foi feita paralelamente com outras várias medidas. Se a educação por si só fosse o fator determinante da riqueza de uma nação, os países nórdicos como Suíça e Holanda entre outros seriam os mais ricos do mundo, e não são. Mais um ponto que reforça sua fala sobre a educação básica ser a mais importante, é a Índia q é o país com o maior número de doutores do mundo e é pobre, sem esquecer de Cuba e Coréia do Norte q tem níveis altíssimos de escolaridade e são oq são!

Blog do Adolfo disse...

Caro Michel,

Não faltou contextualizar nada. Educação não gera o volume de externalidades que as pessoas pregam. Isso é um fato seja no Brasil, seja nos EUA, seja em Cuba.

Isso não quer dizer que a educação não seja importante. Quer dizer apenas que investir em educação sem criar um mecanismo de mercado para a alocação de talentos torna o investimento em educação menos eficiente.

Adolfo

D. disse...

Michel, relação estatística de eduação e renda per capita lógico que existe.
O que é ambiguo é o efeito de uma variação na eduação na variação do PIB per capita.
No artigo "A contribution to the empirics of economic growth", Mankiw, Romer e Weil chegam a conclusão favorável a tese do aumento de PIB per capita pode ser gerado por aumento do nível de investimento em educação, mas eles usam como variável proxy apenas a porcentagem de pessoas no ensino médio na idade certa.
Quando generalizada, a proxy não é mais explicada bem pelo modelo. No capítulo 3 do "espetáculo do crescimeto" do William Easterly, ele aponta uma série de estudos que não conseguem mostrar correlação verdadeira entre log PIB e log Educ.

Anônimo disse...

Adolfo,

Seu post é interessante e, de certa forma, corajoso. Acho que você poderia ter levado em consideração a qualidade da educação, pois no Brasil, o país da esculhambação, esse é um ponto importante.
Outro ponto que esperava ser melhor explorado por você é o papel do Estado na educação da população. No último parágrafo, você afirma que os "Governos devem sim investir na educação." Da forma como você colocou passa a impressão que a educação é um dever do Estado e um direito das pessoas. Por sua linhagem liberal, acredito que você vai concordar comigo que a educação é um dever individual. Ao Estado cabe criar as condições para aqueles indivíduos que querem se educar.

Nathalia disse...

Olá Professor Adolfo! Gostei muito do post! Muita coincidência que essa semana na minha aula de Empresa e Sociedade estávamos discutindo justamente isso: a superestimação do poder da educação. Claro que é importante, mas a atenção à distribuição de renda traria benefícios superiores ao país.

RC disse...

Parece-me que o problema da educação no Brasil (ou em Brasília) pode ser analisado sob a mesma ótica do problema específico da alfabetização. Assim como temos milhões de alfabetizados que são, na verdade, analfabetos funcionais, temos também milhões de cidadãos (?) educados que são de fato deseducados funcionais. Sabem algo (ou pouco) de matemática, história, biologia, mas não sabem nada de ética, cidadania, participação, vida em sociedade. Votam para o umbigo, têm visão de cavalo de corrida e não se lembram nem do que comeram no dia anterior. É dessa educação que falamos.

Naiara disse...

Concordo que só a educação não livrará o país de todos os problemas, mas é na sua sombra que está a grande maioria.
No Brasil não existe um setor que precisa de mais atenção, todos pedem socorro.

Anônimo disse...

Você acabou de deixar ainda mais claro que a educação é sim o investimento mais importante para o Brasil que precisa de infra-estrutura. A maioria dos problemas de saúde que podem ser evitados, desafogando a rede pública, através da educação. A carência de mão-de-obra qualificada pode ser eliminada através da educação, aumentando, assim, a produção (gerando riqueza). A visão cultural escravocrata brasileira só acabará no momento em que se valorizar o trabalho (daí a raiz do problema da concentração de renda). Como reverter essa nefasta tendência cultural? Ora, nada melhor do que a educação! Não venha dizer então que esta não seria a solução primordial para os problemas do Brasil. Ações de má fé não são culpa da má educação, mas da má índole.

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