segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O BNDES e os Livros de Geografia

Quando era garoto os livros de Geografia costumavam trazer informações do tipo “o Brasil tem o maior rebanho bovino do mundo”, ou então “o Brasil tem o maior rio em volume de água do mundo”, ou qualquer coisa parecida com isso, mostrando a grandeza de nossa nação. Inspirado nos livros de geografia, o BNDES começou um programa similar para dizer: “a maior indústria mundial do setor X é brasileira”. Por algum motivo, o BNDES acredita que é bom para o Brasil que nossas empresas sejam as maiores do mundo.

A idéia defendida pelo BNDES NÃO ESTÁ embasada em teoria econômica. Pelo contrário, a teoria econômica diz que competição é saudável para a eficiência econômica. Ora, quando o BNDES estimula empresas grandes ele automaticamente esta REDUZINDO a competição. Afinal, o BNDES não aumenta o tamanho do mercado, o que ele faz é concentrar a oferta em poucas empresas. A atitude do BNDES também é estranha pois ele dá crédito a empresas que já teriam acesso ao crédito. Ou seja, ele está apenas dimuindo artificialmente o custo de captação dessas empresas (ou seja, quem paga por isso são os contribuintes). Pior do que isso: se o BNDES estimula setores por um lado, é evidente que ele DESESTIMULA outros setores pelo outro lado. Isto é, o BNDES e NÃO o mecanismo de preços do mercado é que passa a direcionar o fluxo de recursos da economia.

Se voltarmos a década de 1990 veremos que o BNDES atua hoje como os BANCOS ESTADUAIS atuavam antes. Precisa dizer mais? Para aumentar ainda mais a semelhança, as operações entre o BNDES e o Tesouro Nacional, são virtualmente idênticas às operações que os finados bancos estaduais faziam com o governo dos respectivos estados. O Banespa emprestava para o governo de São Paulo; o Banestado emprestava para o governo do Paraná; e o BNDES pega dinheiro do Tesouro para emprestar a empresas selecionadas por critérios baseados no tamanho, na grande empresa nacional. Ora, se existem vantagens tão claras em relação a escala de uma empresa o próprio mercado (bancos privados) estaria interessado em emprestar dinheiro para essas “gigantes” nacionais. Exatamente por que o BNDES empresta dinheiro para empresas que têm dificuldade de captar recursos no mercado? O defensores do BNDES dirão “porque o mercado é míope, e o BNDES pensa no longo prazo”. A estes eu apenas respondo: vocês estão equivocados, o BNDES empresta o dinheiro para tais empresas apenas porque o dinheiro é público. Fossem esses recursos privados eles estariam em outro lugar. Será que ninguém no BNDES se pergunta: “nossa por que só nós somos geniais? Por que o mercado, repleto de pessoas talentosas e querendo ganhar dinheiro, não entende que devemos emprestar dinheiro para empresas ficarem grandes?”.

A farra com o dinheiro público está crescendo. Essa conta vai ter que ser paga cedo ou tarde. Mais um detalhe: quando seu professor de geografia dizer que o mercado concentra riqueza, lembre a ele que é o BNDES, e não o mercado, quem está tirando recursos dos contribuintes para “emprestar” (a juros extremamente subsidiados e com poucas garantias) aos empresários mais ricos do Brasil.

4 comentários:

Anônimo disse...

Adolfo, brilhante post, sempre!

Esse filme eu já vi. E não foi bom.

Uma possível e previsível fuga de recursos necessários (USD) para "girar" a enorme dívida fiscal criada pelo "cara" Obama e seus conselheiros, no momento que FEDe tenta manipular juro 'zero', mas que é em verdade negativo, acabará por sinalizar uma espetacular subida do juro real (FED FUND), a la Paul Volcker.

E então, um provável reflexo será a crise de liquidez, um tormento para os "ilibados" que tentaram "ajudar" as big empresas brazucas, e o BNDES terá criado um espetacular rombo via negociatas com o tesouro.

O fim? Ou seja, a conta? Pagaremos............
Brados
Martins

D. disse...

"There is no such thing as a free lunch"

A visão dessa turma é o estado não tem uma restrição orçamentária Basta imprimir dinheiro e pronto. (Já que eles defendem que a moeda é não neutra no longo prazo, então se estaria unindo o útil ao agradável).

E pensar que na UnB está repleto de professores que pensam algo muito próximo a isso. Facilmente, 50% do departamento é a favor de controle da taxa de câmbio, spread bancário, etc.

Leonardo Monasterio disse...

Adolfo,

Não são só professores de geografia. Ouça o presidente da abimaq:

http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-brasil/2010/08/09/SETOR-INDUSTRIAL-ASSINA-MANIFESTO-EM-DEFESA-DA-ATUACAO-DO-BNDES.htm

Ele ao menos pode ser perdoado pq o seu bolso está em jogo...

Mauricio Felippi disse...

Caro Adolfo, sugeri esse seu post para uma publicação em blog.

http://bancaprivata.blogspot.com/2010/08/bndes-e-politica-anticiclica.html

parabéns, excelente!

Google+ Followers

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Follow by Email