terça-feira, 10 de maio de 2011

Crescimento Econômico e Meritocracia

Abaixo segue meu artigo publicado ontem no Ordem Livre.

Seja nas rodas de amigos, nos debates acadêmicos, ou nos editorias da grande imprensa, a questão do crescimento econômico está sempre presente. O que fazer para impulsionar o crescimento econômico? Esta pergunta muitas vezes é respondida com certezas absurdas. Por exemplo, nas rodas de amigos, sempre há alguém para dizer que o sucesso dos grandes países deve-se ao patriotismo, ou a suas posturas imperialistas. Resposta que, apesar de atrair aplausos, tem pouca sustentação racional. A grande imprensa também tem seus favoritos, entre eles, a resposta: investir em educação.

Infelizmente, investir em educação não basta; é nesse ponto que cabe uma melhor explanação. Os antigos países comunistas do Leste Europeu costumavam ter bom desempenho no quesito educacional; contudo, nunca se destacaram por seu crescimento econômico. O mesmo vale hoje: temos países com bom desempenho educacional, mas fraco desempenho econômico. A chave desse aparente mistério reside na meritocracia. De pouco adianta investimentos maciços em educação, se o mercado de trabalho não remunera o mérito individual. E só existe uma maneira do mercado de trabalho remunerar o mérito: existência de muita competição entre as empresas.

Em países fechados, ou com pouca abertura para o exterior, as empresas domésticas encontram-se num regime de relativa proteção contra a competição do resto do mundo. Neste tipo de ambiente, fica barato para as empresas tomarem decisões erradas no que se refere a sua política de promoção. Qual o problema de se promover os menos aptos em detrimentos dos mais aptos? Em ambientes com muita competição, tal decisão diminui a eficiência da empresa fazendo com que perca mercado e lucrem suas rivais. A insistência em se promover os menos aptos acaba por levar a empresa à falência. Contudo, na ausência de competição, essa disciplina de mercado não funciona: a perda de eficiência - devido a se promoverem os menos aptos - agora é repassada aos custos, resta aos consumidores agora ter de pagar pela decisão errada da empresa. Dessa maneira, na ausência de competição, é a sociedade quem paga pela ineficiência da regra de promoção da empresa. Em última instância, a baixa eficiência das firmas traduz-se num baixo crescimento econômico.

Investir em educação é importante, mas sem uma disciplina de mercado (forte competição) é pouco provável que tal investimento se traduza em crescimento econômico. Imagine agora um país que, além de se confrontar com pouca competição, possui também um setor público grande, no qual se pagam altos salários, e nunca demite seus funcionários (e não faz a menor questão de considerar o mérito como um critério de promoção). Percebe-se nesse cenário uma segunda distorção: boa parte dos melhores profissionais passa a trabalhar para o Estado, em vez de estar gerando riqueza no setor privado da economia.

A questão do crescimento econômico é vital para um país; a maneira mais evidente de promovê-lo é valorizar o mérito individual. Numa economia de mercado, é a extrema competição entre empresas que garante o reconhecimento do mérito. Sendo assim, qualquer política pública que limite a competição numa sociedade, limita também o reconhecimento e a busca pelo mérito; em última instância, limita também o crescimento econômico do país.

18 comentários:

Anônimo disse...

Esqueceram de avisar isso pro Fidel.

Anônimo disse...

Quando falei isso na minha universidade quase precisei de uma escolta policial para sair do prédio.

rodrigo disse...

Penso que no caso do Brasil, o que falta é realmente educação, pois num país de pessoas educadas meritocracia é uma consequência. Um país com bons níveis de educação e cultura tem de usar de muita força para continuar a ser não meritocrático (esse não seria o caso de nosso país).

Anônimo disse...

Adolfo,

Que a educação sozinha não dá conta do recado, parece óbvio. Mas sem ela, é impossível haver crescimento sustentado. A propósito disso, há estatísticas que mostram a taxa de crescimento da produtividade do trabalhador brasileiro é zero desde 1985, enquanto que países como China, Coréia do Sul tais taxas cresceram em 50 pontos percentuais. Me parece que há um trabalho do Roberto Ellery que mostra algo parecido.

Abraços,

J. Coelho

William dos Reis disse...

Que pena que poucos são capazes de ter essa visão! Sem nada a acrescentar.

William dos Reis

Anônimo disse...

"... boa parte dos melhores profissionais passa a trabalhar para o Estado, em vez de estar gerando riqueza no setor privado da economia".

Inclusive o senhor, né Adolfo?

Lucas Dayrell disse...

Isso tudo pode até estar certo, mas é pura teoria, a gente sabe que na prática ha falhas no mercado e na competição, existem muitos fatores culturais e externos nisso, além de psicológicos, investir em educação é o mais falado mas tbm talvez seja o mais garantido, pois o que gera crescimento na sociedade é o conhecimento, nenhuma empresa seja ela pública ou privada os funcionários tem que ter algum conhecimento em determinada area para produzir ou melhorar determinado serviço ou produto, nao sou contra o capitalismo, só acho que tem que haver méritos individuais e méritos sociais, todo negócio ou empreendimento tem uma funcão social, e a educação num todo ajuda a melhorar a sociedade, mas para isso é preciso de oportunidades, nisso há bem menos falhas no que no mercado competetivo, que em poucos setores vale de sua teoria, nao acho certo as pessoas serem produtivas só quando são pressionadas pelos seus concorrentes, mas sim tem que haver ética e vergonha na cara tbm, pois é utópico achar que deve haver competição perfeita em todos os setores de bens e serviços da sociedade.

Anônimo disse...

Mas, o pessoal que ainda considera Cuba como modelo, nunca pensam em meritocracia.
Dawran Numida

Ginno disse...

As escolas de ensino fundamental e médio de Brasília ‘preparam’ os seus alunos para passar na UNB e em concurso publico (onerar o setor público). Todos querem ficar de um só lado da equação, o lado da mordomia.

Anônimo disse...

Pq vcs dessem tanto a lenha na UNB, isso é preconceito, se a maioria é contra seus ideais é pq eles tem um bom motivo para isso, alias ha muitos mótivos para se pensar igual eles num país como o nosso.

Anônimo disse...

Anônimo das 20:58,

Isso corrobora o que o Adolfo tem falado: pessoas com preparo para conduzir o país a um destino melhor não são valoriazadas. A razão é simples: o setor privado competitivo não existe no Brasil. E a culpa é do tamanho do estado.

Anônimo disse...

O anônimo das 20:58 está correto.
Muitos, e inclusive, preferem a segurança do setor público a ir ralar no mercado privado. a culpa não é tamanho do Estado, pois cada um faz sua escolha: trabalhar muito por um reconhecimento que não é certeza que terá ou a segurança de um salário crescente no sp?
criticar um setor que vc mesmo faz parte não julgo ser muito inteligente. Tudo bem que tratando-se de pesquisas não teria outro lugar para estar. Mas evidente que para pessoas tão inteligentes como o Adolfo há outras área tão produtivas e lucrativas, mas talvez pode não sair como planejado: no final de uma vida de trabalho teria sido recompensado?!

Anônimo disse...

Retificando: Mas, o pessoal que ainda considera Cuba como modelo, nunca pensa em meritocracia.
Dawran Numida

11 de maio de 2011 11:54

William dos Reis disse...

É meu amigo Ginno, ninguém quer ser desafiado de verdade!!!!

William dos Reis

Anônimo disse...

O autor do blog e boa parte daqueles que aqui comentam são servidores públicos, atuantes nas mais diversas ramificações do setor público, inclusive Universidades Públicas. Sendo assim, por que os senhores agora decidiram "meter o pau" no setor público? É aquela velha máxima "quem contrói a ponte, não conhece o lado de lá". Pois é isso, os senhores tentam construir uma ponte para a iniciativa empresarial, mas de fato não atuam nela, não conhecem o dia-a-dia do trabalho, e ainda se sentem no diário de criticar servidores públicos, sendo vocês servidores públicos.
ABSURDO!!!!

Anônimo disse...

17 de maio de 2011 22:05
Concordo com tudo que o Anonimo de cima disse, muitos economistas fazem teorias e mais teorias achando que o mundo é perfeito e as pessoas sao máquinas, sem nem saber como funciona na prática, no mundo real msm dessas pessoas, a iniciativa privada tbm tem seus erros, e tem servidor público competente, e os dois sao importantes, é muito fácil idealizar um mundo que eles acham perfeito sem viver na pele, sem salário mínimo, sem oportunidade. E como diria a teoria mas sábia de todas: ``Na prática, a teoria é outra``

Anônimo disse...

Setor público incompetente não merece elogios, Anônimo-17 de maio de 2011 22:05.

Anônimo disse...

William,
Sou servidor e seguindo a sua lógica optei por este caminho por não querer ser desafiado? Uma ova! Quer desafio maior do que enfrentar um certame super concorrido? Por que vc não tenta para ver se consegue. É preciso muito estudo para conseguir sonhar em ingressar em um bom cargo público. Depois de muito estudar, e lograr êxito num concurso, vc é rotulado dos mais piores adjetivos.
O setor público tem sim seus defeitos, e são vários, mas grande parte deles deve-se a políticas ineficientes ou mesmo oportunistas criadas por apadrinhados políticos. Um exemplo é a falta de incentivo a profissionalização. No Ministério onde atuo simplesmente inexiste política de capacitação porque a maior fatia do orçamento vai para bancar as despesas com diárias dos agentes políticos. Esse sim são o câncer do setor público.

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