terça-feira, 26 de julho de 2011

O Receituário Liberal e o Brasil

Como liberal convicto acredito que as idéias liberais, caso implementadas no Brasil, gerariam um grande aumento de bem estar em nosso país. Mas, enquanto cientista, não posso deixar de fazer a pergunta óbvia: e se estiver errado? Será mesmo que o receituário liberal é adequado ao Brasil?

A idéia liberal repousa num fundamento sólido: os indivíduos sabem o que é melhor para eles melhor do que um burocrata em Brasília. Em teoria é extremamente difícil rejeitar tal proposição. Para rejeitar tal proposição precisaríamos não só argumentar que um bom número de indivíduos é imbecil (não sabem o que é melhor pra eles), mas pior do que isso, deveríamos aceitar que um burocrata em Brasília é capaz de uma escolha mais sensata. Sendo assim, o receituário liberal prescreve um Estado pequeno, aliado a um forte grau de liberdade econômica.

O que não aparece no parágrafo acima é um detalhe sutil: uma economia de mercado depende fundamentalmente de confiança. A maioria esmagadora das transações econômicas não é baseada em contratos, baseia-se exclusivamente na confiança que as partes honrarão o que foi combinado. Quanto menos confiança menos transações, e quanto menos transações menos eficiente é tal sociedade. Em palavras, para determinado nível de desconfiança é bem provável que uma economia de mercado (liberal) produza resultados fracos em termos de bem estar.

Quais são os fatores que afetam o grau de confiança na honestidade das pessoas? Certamente instituições são importantes, outras variáveis tais como religião e boa educação familiar também. Mas de onde vem instituições fortes? Qual a origem da boa educação familiar? É aqui que a cultura de um povo faz a diferença. Então a grande pergunta que devemos nos fazer é: a cultura do brasileiro propicia o ambiente adequado para que uma economia liberal prospere? A cultura de nosso país gera um nível de confiança necessário para que o receituário liberal seja a resposta adequada?

Honestamente não sei responder com certeza as perguntas acima. Mas gostaria de ver pesquisas sólidas nessa área. Como liberal eu acredito que as idéias que defendo serão importantes para melhorar o Brasil. Mas, enquanto cientista, confesso que tal preocupação me assola.

13 comentários:

Anônimo disse...

Como assim Sashida, vc não sabe responder as suas próprias perguntas? Os indivíduos no Brasil não sabem o que é melhor pra eles porque são ignorantes (não vamos chamá-los de imbecis, não lhes falta inteligência, mas sim ilustração), são manipulados por uma corja que eles mesmos colocam no poder (os tais burocratas), afinal são ingênuos. Como edificar um estado liberal numa terra dessas? Religião? Do Edir Macedo? Educação familiar? Quem vai dar?

Blog do Adolfo disse...

Caro Anonimo,

Sao as grandes perguntas que movimentam a ciencia, as grandes respostas aparecem apenas depois.

O fato de nao saber responder minhas proprias indagacoes em nada me difere dos demais cientistas.

Adolfo

amauri disse...

Boa tarde Adolfo!
Voce mencionou confiança. Não sei se o que ocorre na região que vivo é também em todo o território brasileiro. Vários estabelecimentos comerciais não aceitam cheques, só cartão ou dinheiro. Pela logica é porque o pagamento do cartão é garantido. Mas eu pergunto: alguem que emite cheque sem fundo, vai pagar as parcelas do cartão?abs

André Pineli disse...

Muito bom ponto. Eu também sempre me pergunto sobre essa questão da confiança. Será que não daria para o Ipea fazer uma pesquisa de campo nessa área, dentro do SIPS?

Pedro d'Aquino disse...

Fiquei curioso: você conhece alguma literatura científica sobre o assunto, em algum país? Como medir isso?

PS: Diria que religião, se tem alguma influência no nível de confiança, é negativo.

Anônimo disse...

Sou a favor do Estado mínimo. Quanto menos Estado, maior a liberdade. Mas qual é o limite? Fundamentalismo à parte, também me pergunto se o mercado é capaz de sozinho encontrar a solução para a degradação do meio ambiente (poluição, efeito estufa, erosão dos solos, etc) e à escassez de água se o valor presente dos danos, que poderão ser enormes daqui algumas décadas, é nulo no presente?

Jarbas

Chutando a Lata disse...

Flamengo x Santos - um jogo histórico!
Fosse o que fosse o placar, qualquer um seria justo. Não tenho, como flamenguista eterno, dúvida de que o Santos é o melhor time do Brasil. A minha memória futebolística, pulando o escrete de 70, me faz lembrar o Botafogo de Jairzinho, o Fluminense do Rivelino e o Santos do Pelé que pouco vi. O jogaço flamengo e Santos foi o melhor jogo dos últimos trinta anos. Como flamenguista, quase fui pro beleléu de tanta emoção.

Como é bom poder ver numa partida de futebol provinciana com tantos craques. Salve a loucura do Neymar de não querer largar o Santos. Salve a contusão do Ganso que adiou sua partida para o estrangeiro. Salve o batuque do Ronaldinho que mexeu fundo em seu coração e lhe fez cidadão carioca. Salve todos os craques que em silêncio reverenciaram os craques maiores. Por isso estou de malas prontas para o próximo evento futebolístico do mesmo nível. Como um mão de vaca que sou, fico torcendo para que aconteça um flamengo e Cruzeiro, porque ficará mais em conta.

Valeu rapaziada do Santos e do Flamengo. Com certeza, os santistas irão se lembrar com alegria desse jogo inenarrável. Nós, flamenguistas, iremos cantar vitória pra sempre.

fica com inveja fluminense de ontem.

Anônimo disse...

OK Adolfo, não disse q vc é diferente dos demais cientistas, apenas penso que não dá prá imaginar um país ignorante e liberal. Essa cambada brasileira tem que aprender muito, estudar muito, pensar muito, enfim evoluir muito para saber o que é melhor prá eles, vc não acha? Se eles soubessem o que é melhor prá eles não votariam nesse lixo que os governa.

Anônimo disse...

Adolfo, os liberais conversam com o Amartya Sen? Concordo que pessoas livres saibam o que é melhor para elas, mas assumindo que essas pessoas são realmente livres, como bem explica o aludido professor.

Anônimo disse...

Sobre instituiçôes, essa é um dos grandes problemas do nosso país, pois em conversa de botecos podemos perceber que os brasileiros não acreditam nas instituiçôes.
Conversando com uma médica sobre os problemas de saúde, ela me disse: não sei como o governo (DF)tem coragem de fazer essas propagandas sobre saúde. Eu perguntei: voçê é favor das privatizações do serviço de saúde? Ela respondeu: sim, se nós tivessemos o país sério seria a melhor alternativa. Ou seja, nós brasileiros de um modo geral não tem confiança nem nas instituições e nem nos empresários.

Danilo disse...

Aos amigos que perguntaram se há pesquisas sobre a confiança: sim, existem e são muitas. Mundialmente, temos vários estudos de survey feitos por Ronald Inglehart, de Michigan, que chamam-se "World Values Survey". A amostra engloba dezenas de países, e há algumas perguntas sobre confiança.

No caso brasileiro, temos as pesquisas do professor José Álvaro Moisés, do Departamento de Ciência Política da USP, com quem tive o prazer de estudar. O professor trabalha na área de cultura política e estuda a relação entre confiança (entre cidadãos e nas instituições) e sua influência na qualidade da democracia. Vocês encontram artigos dele na internet, com certeza. Boa pesquisa! :)

samuel disse...

Shakespeare responderia ao Adolfo: O QUE VEIO ANTES O OVO OU A GALINHA? É um aprendizado. As pessoas têm de compreender que precisam confiar porque isto lhes convém. O importante é que apesar da aparente balbúrdia na formação da sociedade liberal, NUNCA SE PODE DEIXAR CAIR NA TENTAÇÃO DO AUTORITARISMO E DA AUTOCRACIA. Este o perigo que aborta qualquer tentativa liberal. A competição entre grupos ou cidades é um fator de pressão para se organizar a CONFIANÇA CONSTRUTIVA GERADORA DE CRIATIVIDADE. Veja como se formaram as democracias. Na Grécia se formou a partir de uma sociedade pulverizada em um ajuntamento de cidades estado em competição. Na China, a partir de estados independentes competindo uns com outros (antes do império Chin). Na Europa medieval os feudos em oposição (aqui o desenvolvimento comercial no Atlântico criou condições de competição semelhantes aos da Grécia mediterrânea).

Anônimo disse...

Caro Adolfo,
O argumento liberal peca por não perceber que os indivíduos são diferentes, o que cria, se não houver regulação, grandes desigualdades econômicas, as quais por sua vez sufocam o mercado interno e a própria economia.
Não sou contra as diferenças, até por que não adiantaria nada ser contra. A natureza humana tem em si vontades incomensuráveis. É preciso um condomínio público forte para regular as vontades individuais.
Não acho que são "os burocratas de brasília" que comandam, é o cidadão, por ação ou omissão. O que falta é mais participação do cidadão, mais identificação do cidadão com suas estruturas públicas. Mas isso não é a iniciativa privada que vai fazer.E nem o discurso liberal ajuda para isso, muito pelo contrário.
Abraço.
João

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