terça-feira, 22 de novembro de 2011

Minha experiência no movimento estudantil

Abaixo segue meu artigo publicado ontem no Ordem Livre.

Nesses tempos de golpe no Diretório Central dos Estudantes da USP, nada melhor do que reavivar minhas memórias de quando participei do movimento estudantil, no Centro Acadêmico de Economia da Universidade Estadual de Londrina. Fui dirigente do CA de economia por dois mandatos, primeiramente como Primeiro-Tesoureiro, e depois como Primeiro-Secretário.

Estávamos em 1990 e eu era calouro na universidade. Então uma greve de alunos foi convocada. Não satisfeitos com a aprovação da greve, o movimento estudantil decidiu votar pela invasão da reitoria. Essa proposta foi colocada em votação e foi derrotada. Contudo, a assembleia não terminou por ai. Vieram discursos e mais discursos, todos salientando a falta de credibilidade da reitoria e do governo. Então veio a surpresa: a proposta de invadir a reitoria foi novamente colocada em pauta. Dado que muitos alunos contrários a essa idéia já tinham ido embora, a proposta tinha boas chances de ser aprovada. Nesse momento, me levantei e pedi a palavra: “Nós estamos aqui criticando a falta de credibilidade do reitor e do governador, mas estamos agindo igual a eles. Essa proposta já foi derrotada, votá-la novamente sugere pouca credibilidade de nossa parte”. Fui voto vencido, e a reitoria foi invadida naquela mesma noite. Eu fui pra casa.

Alguns meses depois, participei de uma chapa para concorrer ao CA de economia. Eu sempre ia as reuniões, e participava ativamente da divulgação dos eventos. Qual foi minha surpresa quando fui informado de que numa reunião, a qual eu não havia sido convidado, eu havia sido indicado para participar do conselho (e não da Primeira-Tesouraria). Como tenho personalidade forte, imediatamente ameacei me retirar da chapa, só assim fui reconduzido a posição original. Com o tempo, vim a saber que a pessoa que ocuparia meu lugar era filiada ao PT (aliás ele está em Brasília, num cargo alto do governo, atualmente). No meu segundo mandato no CA foram tantos desentendimentos que tive que pedir para sair. Basicamente, como nunca fui de esquerda, havia uma resistência enorme a projetos de minha iniciativa. Conheci bons amigos no meu tempo de CA, mas outros estavam ali apenas para marcar território para partidos socialistas.

De maneira geral, os engajados politicamente no movimento estudantil seguem sempre o mesmo ritual: reuniões, reuniões e mais reuniões. Basta que você não vá a uma delas para que propostas com as quais você nunca concordaria sejam automaticamente aprovadas. Outro truque é a série infindável de discursos: antes da votação das propostas existe algo como 3 a 4 horas de pessoas falando os prós e os contras da proposta. Ao contrário do aparente caráter democrático, essa embromação enorme tem outro propósito: fazer tantos discursos quanto os que forem necessários para o esvaziamento da plateia. Tão logo o aluno comum se canse de ouvir tantas besteiras (ou tenha que ir embora para trabalhar), e restem apenas uns poucos alinhados na plateia, a proposta é posta em votação. Em resumo, a sequência infindável de discursos tem como objetivo não o esclarecimento da plateia, mas sim o esvaziamento da mesma para que propostas mais radicais possam ser aprovadas em nome dos alunos.

Particularmente, acho pouco saudável que alunos possam intervir nas decisões de uma universidade. Universidade é lugar de meritocracia, universidade só é universidade porque uns estão lá ensinando e pesquisando, enquanto outros estão lá para aprender. Submeter a vida, e o destino, de professores e funcionários de uma universidade a um grupo passageiro de estudantes me parece uma decisão pouco inteligente.

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