quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Provas subjetivas em concursos públicos

Todo concurso público (ai incluídos o antigo vestibular e o atual ENEM) possui ao menos uma prova subjetiva. A idéia de uma prova subjetiva é avaliar a capacidade de expressão escrita de um candidato. Tal tipo de prova tem algumas vantagens: 1) impede o famoso chute (afinal a pessoa precisa escrever algo); 2) evita que pessoas que não saibam se expressar por escrito entrem em determinadas vagas (concurso para juiz por exemplo); e 3) diminui a chance dos sortudos (aqueles que obtiveram nota alta na prova objetiva na base do chute) de serem aprovados.

Apesar das vantagens listadas acima, provas subjetivas também possuem algumas desvantagens importantes, entre elas acredito que as três mais importantes sejam: a) a variância entre as notas das mesmas provas corrigidas por avaliadores distintos; b) a difícil operacionalização das revisões de nota; e c) o alto peso da nota que geralmente se atribui à redação.

Em relação ao item “a”, me lembro de uma antiga prova que pedia ao candidato para dissertar sobre o tempo. O candidato preencheu as 20 linhas da redação com o seguinte conteúdo “tic tac... tic tac... tic tac...”. Genialidade ou enrolação? Ele recebeu nota máxima por essa sacada. Certamente ele demonstrou originalidade, e uma tremenda dose de auto-confiança. Mas pergunto, se ele tivesse recebido nota zero teria sido injusto? Claro que não, afinal uma redação dessas dificilmente mostra domínio da norma culta (requerimento fundamental em qualquer avaliação de redação). Além disso, o avaliador poderia julgar que a “brilhante” sacada do candidato não passava de pura enrolação de quem não sabe escrever. Ou seja, temos uma redação que pode tirar tanto a nota máxima como a nota mínima, sendo ambas igualmente justificáveis, a depender da interpretação (ou do humor) de quem corrigí-la. É evidente que esse problema não é desprezível, ainda mais se acrescentarmos que (no mundo real) o avaliador não é perfeito, e pode se deixar influenciar por suas próprias crenças na hora de fazer sua avaliação. Em particular, a correção da redação do ENEM torna isso oficial o que é um tremendo absurdo (no item 5 de avaliação da redação do ENEM lê-se “Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, demonstrando respeito à diversidade e aos direitos humanos”).

O item “b” não é menos problemático, tanto assim que em concursos para empregos públicos apenas uma fração das redações é corrigida (geralmente são corrigidas apenas as redações dos candidatos que se classificaram até determinada posição). Num exame como o ENEM essa saída não é possível, e todas as redações são obrigatoriamente corrigidas. Isso gera um enorme potencial para pedidos de revisão de nota (que aliás são direito de qualquer candidato). Problema esse agravado pelo peso absurdamente alto da nota de redação no ENEM.

Particularmente sou contrário a provas subjetivas em concursos públicos. Acredito que elas mais atrapalham do que ajudam, além de darem uma chance para que potenciais interesses ocultos atrapalhem a lisura do processo. Uma prova objetiva com mais questões, do ponto de vista estatístico, elimina as chances de um candidato ser aprovado na base do chute. Tais provas também são operacionalmente mais fáceis de se corrigir e de se impetrar recursos. Por fim, se uma redação é mesmo necessária para se avaliar os candidatos, então esta deve ter um peso menor na nota global, e deve julgar APENAS dois critérios: a) ortografia; e b) coerência interna do texto. Mas notem que, mesmo assim, uma redação do tipo “tic tac” continuaria a gerar polêmicas.

5 comentários:

Anônimo disse...

Caro Adolfo,

Acredito existir diferenças entre um concurso para entrar no serviço público e um para entrar em uma Universidade, mesmo que pública.

São situações de natureza bastante distintas. O servidor público deve ter uma total independência em relação ao governo de plantão, qualquer critério subjetivo compromete esta independência. Uma vez o vínculo pessoal ou de opiniões entre o servidor e o governante influencia a escolha do servidor toda a máquina pública fica comprometida. Desta forma , creio que a total objetividade dos concursos públicos é fundamental para a sociedade.

A entrada em uma Universidade, mesmo pública, tem um caráter bastante distinto. Alunos não estão na Universidade para fiscalizar professores nem para executar nossas decisões. Desta forma o risco de uma avaliação subjetiva estaria limitado à proteção de pessoas próximas ao selecionador. É um problema sério, mas que pode ser facilmente controlado e tem bem menos implicações do que o problema da seleção do servidor público.

Etapas subjetivas na seleção de estudantes tanto na graduação quanto na pós-graduação são utilizadas nas melhores Universidades do mundo, mesmo quando públicas. Aqui não deveria ser diferente. O grande problema do ENEM é querer centralizar nas mãos do governo federal a análise subjetiva. Além de uma prática perigosa esta centralização é ineficiente.

Creio ser mais adequado que o ENEM fosse apenas objetivo e aplicado várias vezes ao ano. A parte subjetiva (análise de histórico escolar, carta de recomendações e etc) ficaria por parte de cada Universidade. O ideal mesmo era que o ENEM fosse aplicado por uma empresa não relacionada ao governo. Uma espécie de SAT no Brasil.

Uma seleção nestes moldes permitiria que estudantes em todo o território nacional concorressem em condições de igualdade (ou quase) as melhores escolas do país e evitaria muito dos males do formato atual do ENEM.

Abraço,

Roberto

Anônimo disse...

Outro grande problema da prova subjetiva (redação), é o que isso facilita em termos de fraude na correção. Conheço uma pessoa que escreve muito bem, e que em um concurso com redação eliminatória, obteve nota ligeiramente abaixo da mínima, com a sustificativa "narrativa tangencial". Eu li a redação. Teor totalmente ao encontro do solicitado. Sem erros ortográficos ou gramaticais. A nota dessa pessoa, apenas nas provas objetivas, lhe daria o emprego (em 1o. lugar). Logicamente ela foi "retirada", para que alguém bem brasileiro ficasse em seu lugar.

Anônimo disse...

Pacotão com apostilas e ainda ganha uma Super Pendrive: http://educacaocoletiva.com.br/oferta-do-dia/78/super-pendrive-4gb-concursos-2012-os-melhores-materiais-em-um-unico-lugar/

Anônimo disse...

E logicamente, praticamente exigindo "respeito à diversidade e aos direitos humanos", o que querem que o examinado escreva?
O tema da última redação para o Enem foi "Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado".
Parodiando o "tic tac", se o examinado escrevesse que "alimenta o cão vira latas, pertencente a um mendigo mestiço de negro, com índio e branco, estaria tendo uma "grande sacada"? Ainda mais se colocasse que receberia o mendigo e o cão em sua sala de jantar.
Contudo, o examinado poderia escrever exatamente o contrário.
Querem avaliar a capacidade de expressão e desenvolvimento de ideias ou o quê?

Anônimo disse...

Concordo com o Prof., não adianta tratar um concurso público como se fosse um ato de loucura. É necessario ter um só objetivo,do que fazer mais do que um.O melhor seria fazer duas etapas de prova para que o candidato se sinta melhor, mais dependendo da ocasião, nem se deve ter prova subjetiva.

Nos vestibulares e o ENEM é necessario ter esses tipos de matéria por causa da diciplina do aluno. É bom ter uma prova de acesso, pelas quais, o estudante tenha um saber exemplar para cada uma das pessoas.

Claro, essa é minha opinião.

Vagner

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