sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Meio Ambiente e a Maldição do Crescimento Coletivo, artigo escrito por Rodrigo M. Pereira

Artigo escrito por Rodrigo Mendes Pereira

No mundo em que vivemos há uma grande correlação entre a prosperidade material e a destruição do meio ambiente, sobretudo de recursos naturais não renováveis. Essa correlação nos leva a questionar como será esse mundo daqui há cem anos, quando boa parte das economias hoje em desenvolvimento terão se tornado desenvolvidas, quando mais de 2,5 bilhões de chineses e indianos (e, quem sabe, brasileiros) terão rendas convergindo para os padrões das economias avançadas do oeste. Se o crescimento econômico está associado à destruição do meio ambiente, então a prescrição de política mais lógica seria crescer menos, certo? Afinal de contas, queremos que a geração que nos sucede herde um planeta o mais próximo possível em termos ambientais do planeta que herdamos da geração que nos antecedeu. Nas linhas que se seguem eu vou argumentar que ao contrário do que esse raciocínio prescreve, no mundo dos próximos cem anos o crescimento econômico será mais importante do que nunca como instrumento para a geração de bem-estar.

Numa certa localidade geográfica, quando todo mundo enriquece junto, o aumento no poder de compra é menor do que quando se enriquece individualmente. Trata-se de uma externalidade negativa, uma maldição do crescimento coletivo. Com o crescimento generalizado da renda há uma expansão natural da demanda por bens e serviços. O efeito final sobre o preço de cada um desses bens vai depender de como a oferta responde a esse aumento de demanda. Mas essa resposta depende fundamentalmente da natureza do bem ou serviço em questão. Bens que são transacionáveis (carros, roupas, alimentos, etc), que podem ser “importados” de outras localidades não sofrerão grandes aumentos de preços. Bens que não são transacionáveis (apartamentos, terrenos, corte de cabelo, serviços de encanador, eletricista, etc), que não podem ser “importados”, tendem a ficar muito mais caros. Com isso, o aumento de poder de compra e de bem-estar material de cada indivíduo naquela localidade será menor, porque haverá inflação local, tão mais alta quanto maior for a parcela de bens não-transacionáveis na cesta de consumo média desses indivíduos. Daí a maldição do crescimento coletivo: enriquecer quando todos enriquecem na mesma proporção deixa o indivíduo ou o país menos rico do que quando ele enriquece sozinho.

Brasília, Nova Iorque, Tóquio, ou Cingapura são réplicas regionais do que deverá acontecer em escala global. Nos próximos cem anos, muita gente no mundo vai prosperar. O acesso de bilhões de pessoas ao consumo vai provocar uma pressão de demanda e um aumento de preços. Então cada país que prosperar, na verdade estará prosperando um pouco menos em termos reais. A diferença é que enquanto nessas localidades existe a válvula de escape dos bens transacionáveis, no mundo considerado como uma unidade, todos os bens são não transacionáveis (a menos que surja um fluxo comercial do planeta terra com outras civilizações extra-terrestres, o que é bastante improvável). Então a pressão sobre os preços será muito maior, e da mesma forma que na Brasília do início do século XXI, a pior situação possível será não prosperar.

Sem dúvida dá arrepios pensar na perspectiva de viver num planeta degradado pelo consumo desenfreado de bilhões de habitantes. Mas a evolução tecnológica e o próprio sistema de preços devem ser importantes freios a essa degradação. A perspectiva que realmente deveria estar tirando o sono de policy makers é a de não crescer, a de ser pobre ou tornar-se pobre num planeta que terá 1,3 bilhões de chineses e outros tantos indianos, dirigindo automóveis, comprando livros, roupas, viajando e comendo carne.

7 comentários:

Anônimo disse...

daqui há cem anos?

Anônimo disse...

É muita pretensão e exercício de adivinhação pro meu gosto, a unica coisa que dá pra afirmar que a nossa salvação esta na tecnologia...

Roberto Cesar disse...

Caro Rodrigo Pereira,

Entendo o seu raciocínio e concordo parcialmente com ele. A sua linha de pensamento é lógica, consistente, mas não leva em consideração um esgotamento dos recursos naturais, o que certamente terá como consequência um colapso econômico-social.

Não consigo ver como boa parte das economias em desenvolvimento se tornarão desenvolvidas. Não consigo ver como bilhões de chineses e indianos estarão dirigindo carros e comendo carne. O planeta simplesmente não tem recursos suficiente para isso.

Como você bem disse, teríamos que crescer menos, mas infelizmente não podemos pois o nosso modelo econômico-social exige crescimento a qualquer custo. Então a impossibilidade de crescimento fará esse modelo implodir, e essa impossibilidade virá exatamente do esgotamento dos recursos naturais, incluindo petróleo, comida e água.

Eu escrevi alguns artigos sobre o tema, inclusive um artigo com a minha visão para o planeta em 2100:

http://rcesar.net/2011/10/terra-2100-populacao-15-bilhoes/

http://rcesar.net/2011/11/crescimento-eterno/

http://rcesar.net/2012/02/onu-alerta-que-o-mundo-nao-tem-comida-e-energia-suficientes-para-uma-populacao-que-nao-para-de-crescer/

http://rcesar.net/2012/01/world-economic-forum-publica-relatorio-dos-riscos-globais-2012/

Anônimo disse...

Prezado Roberdo Cesar,
Obrigado pelos comentarios. Em geral ha uma tendencia de pensar o mundo futuro sujeito ao nosso estoque de tecnologia do presente. Mas num mundo onde os avancos tecnologicos ocorrem com grande rapidez, pode ser possivel em um seculo dar padroes de vida desenvolvidos a boa parte do planeta, sem que para isso seja preciso dilapida-lo.

Roberto Cesar disse...

Caro Anônimo,

Seu raciocínio é correto, mas falta uma variável muito importante: Energia.

Toda a tecnologia de que dispomos hoje, bem como os avanços nessas mesmas tecnologias, demandam uma quantidade enorme de energia.

Sem energia farta e barata proporcionada pelos combustíveis fosseis não teríamos chegado ao nível tecnológico que temos hoje. Sem energia abundante e barata não conseguiremos muito progresso tecnológico no futuro, e sem energia abundante e barata não conseguiremos nem ao menos manter a tecnologia que temos hoje. Sem a tecnologia a nossa disposição, a nossa sociedade entra em colapso.

Existem fortes indícios de que chegamos ao pico da produção do petróleo. Os mais otimistas dizem que o pico será entre 2030 e 2040. Se o pico é agora ou será em 2040 (meras 3 décadas a frente), não importa muito pois os efeitos serão os mesmos, apenas com 30 anos de defasagem.

Atingir o pico da produção significa que basicamente extraímos metade do que havia disponível, e que a produção dai pra frente vai diminuir (e não estabilizar como muitos tendem a pensar). Pior ainda, como a metade do petróleo que já extraímos foi a mais fácil de obter, significa que a outra metade será a difícil de obter, como poços maritmos de altíssima profundidade, petróleo de areia (tar sand), fracking, etc.

O pico de descobertas de poços de petróleo foi há 40 anos. De lá pra cá as descobertas de novas reservas tem caído muito. Todos falam do pré sal, mas se pensarmos nas reservas do pré sal em relação ao consumo de petróleo mundial ela não duraria 3 anos. E o pré sal vai exigir muita tecnologia (e muita energia) pra tirar petróleo de lá.

Isso significa que a Energia daqui pra frente vai ficar mais cara e isso terá impacto em tudo que depende de tecnologia, inclusive produção, transporte e armazenamento de comida.

É por isso que eu não vejo as nações em desenvolvimento se desenvolverem mais. É por isso que eu não vejo 500 milhões de chineses e um número igual de indianos na classe média, com carro, TV de plasma, micro-ondas, ar-condicionado. De onde virá a energia pra tudo isso?

Recomendo a leitura do blog http://ocrepusculodopetroleo.blogspot.com/

Um abraco,
Roberto Cesar.

Roberto Cesar disse...

Se tiver uma oportunidade, dá uma olhada nesse vídeo:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=VOMWzjrRiBg

Anônimo disse...

Bem não podemos parar de crescer, porém devemos crescer com responsabilidade e muito planejamento. Um exemplo de crescimento desordenado e sem planejamento é São Paula que somente com uma medida que resolver um problema de anos que é o problemático trânsito de São Paulo (tráfego de caminhões em certas vias e em determinados horários).

reportagem: http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2012/03/trafego-de-caminhoes-e-proibido-em-quatro-vias-da-serra-es.html

Devemos nos desenvolver e sem tecnologia impossível, pois nela está a esperança de novas fontes de energia, busca de medidas para se desenvolver sem agredir tanto o meio ambiente e de explorá-lo com equilíbro! Pois ele é um grande aliado no desenvolvimento de nosso planeta!

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