segunda-feira, 18 de junho de 2012

A Radicalização do Debate e a Ofensa Como Regra

As vezes escrevo artigos que aparecem na seção de carta dos leitores. Como regra geral recebo ofensas e mais ofensas. A primeira coisa é desacreditarem minha qualidade acadêmica, depois minhas credenciais profissionais, e por fim a coisa desanda para a ofensa pura e simples. Já perdi as contas de quantas vezes li coisas do tipo “você tem que primeiro aprender economia” ou então “esse ai não sabe de nada”, para ficar nas ofensas publicáveis. Apesar de vários defeitos tenho um bom humor excelente, o que sempre me levou a rir desses comentários. Mas a verdade é que eles mostram um lado triste do debate: a ofensa como regra.

Ontem escrevi sobre minha discordância com Reinaldo Azevedo sobre o texto da PUC-RJ. E hoje reforço o ponto: acho que os comentários lá são agressivos, ofensivos e equivocados. Em ciência sempre existe a possibilidade de estarmos errados, e as críticas são muito comuns. Contudo, ofensas pessoais não ajudam nesse debate. Pior do que isso: levam a uma radicalização excessiva onde os argumentos técnicos vão para o segundo plano. Quem ganha com isso? Certamente não é a ciência e nem a sociedade.

No momento observo chateado a polêmica envolvendo o estudo da PUC-RJ. Quem ganha com esse nível de discussão? Mas essa é apenas uma dentre muitas discussões que tem desandado para ofensas, e não para argumentos. Sobre a polêmica atual vamos novamente aos pontos:

1) Policiais nas ruas e bandidos presos são duas variáveis importantíssimas para se combater crimes. Os exemplos de sucesso de Nova York e de São Paulo deixam isso claro.
2) Taxa de desemprego e renda são variáveis econômicas que muitos autores tentam relacionar com o nível de criminalidade. Mas não existe consenso sobre isso.
3) Desigualdade de renda e nível educacional são variáveis sociais que são comumente adotadas em estudos sobre criminalidade. Mas seus efeitos também são controversos.
4) Considerações demográficas e urbanísticas também são incluídas em estudos de criminalidade. Geralmente populações mais novas são mais agressivas, quanto a taxa de urbanização não existe consenso.
5) Variáveis religiosas, étnicas, de educação familiar, presença de quaras de esporte em áreas carentes, entre outras, também sao comumente incluídas nos estudos de criminalidade

Resumindo, sabe-se com razoável grau de certeza que colocar policiais nas ruas e prender bandidos é uma arma extremamente eficiente para se reduzir a criminalidade. Contudo, não são as únicas variáveis de políticas públicas que podem ser adotadas no combate ao crime.

Criticar um estudo não implica em criticar os autores. Quem trabalha com ciência deve entender isso. Mas criticar autores não é a maneira de se criticar um estudo. Espero que Reinaldo Azevedo, que é um excelente analista político, não insista nessa briga. Também espero que ele faça justiça ao estudo que criticou de maneira leviana e arrogante. Ele usou os argumentos errados e foi agressivo. Todos erramos de vez em quando, isso acontece com todo mundo. Nessas horas o melhor é nos desculparmos.

25 comentários:

Chutando a Lata disse...

Não é só colocar policiais na rua; se as ruas são movimentadas, o "crime" vai pra outro lugar. O triste é que temos leis do tipo os bares têm que fechar a uma da manhã.

José Carneiro da Cunha disse...

Beleza Adolfo,

Baixaria a parte, já me envolvi em varias, você também estuda crimes e poderia esclarer um ponto no qual fiquei em duvida.

Pelo que li, ainda não tive acesso ao artigo, portanto li pouco, os autores adotam como fato que os alunos cometem crimes próximos à região escolar. Pelos dados deles, essa seria uma hipótese, não testada no trabalho, fundamental para a consistência das conclusões. Pergunto, qual o grau de robustez dessa hipótese inicial? A evidencia teórica e empírica na área é suficientemente robusta para fundamentar a conclusão obtida?

Abs

José Carnerio

Chutando a Lata disse...

Pelo que li da replica do Reinaldo Azevedo, você não criticou os pontos que ele levantou.

Anônimo disse...

Mas o seu estilo neste blog também é agressivo. Já pensou se esse seu estilo não acaba por atrair pessoas que também usam esse estilo ofensivo? Dizem por aí que "gentileza gera gentileza". Talvez didatismo e explicações com paciência gere melhores resultados.

Blog do Adolfo disse...

Carneiro,

Acho seu ponto valido. Acredito haver evidências de que as pessoas cometem crimes fora de sua regiao de residencia. Essa eh uma otima critica.

Adolfo

Blog do Adolfo disse...

Caro Anonimo,

Meu estilo eh objetivo e direto. Outro detalhe, as criticas duras sao feitas a pessoas publicas. Alem disso, minhas criticas sempre vem acompanhadas de explicacao. Veja o episodio de minhas criticas referentes aos pacotes economicos do governo.

Adolfo

a disse...

Bom dia Adolfo!
Como disse no post anterior, o Reinaldo iria para a treplica. O modelo que o Reinaldo adota para refutar ideias, vermelho e azul, paragrafo por paragrafo, é interessante. Quem sou eu para dar palpite, mas voce poderia fazer o mesmo com as refutações dele. Neste tipo de debate ele é bom. abs

Anônimo disse...

Adolfo, o pesquisador que você defende foi extremamente arrogante e agressivo com o Reinaldo. E deixou perguntas no ar. A réplica do RA foi clara. Também deploro a agressividade, principalmente entre pessoas do mesmo grupo ideológico, mas que o estudo do seu amigo é capenga - por mais sério que seja - isso é inegável.
Fernando J.da Silva - SP

amauri disse...

Adolfo, creio que o ultimo comentário meu saiu apenas a.
Voce já viu o treplica dele que saiu hoje. Fica difícil refuta-lo. abs

Anônimo disse...

Valeu Adolfo, muito bom!!! Tem pessoas que não sabem valorizar o esforço alheio. Continue sendo esta pessoa autêntica, guerreira e batalhodora. Os elogios nos encoraja, as críticas, mesmo que destrutivas, fazem-nos repletir e na maioria das vezes, como você diz, é motivo de piada.

amauri disse...

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-melhor-coisa-deste-blog-sao-seus-leitores/ Um comentario interessante de um leitor do Reinaldo Azevedo. abs

Dawran Numida disse...

A criminalidade migra, sim.
Há muitos casos de criminosos atuarem em locais próximos de onde residem.
E há outros, onde os crimes são realizados longe de onde residem os autores.
Isso tudo pode ser encontrado nas estatísticas da Secretaria da Segurança, na imprensa etc.
Ou alguém imagina que a "gangue da marcha a ré" morava na Oscar Freire, onde derrubavam vitrines para roubar as lojas?
Ou os que, agora, fazem arrastões em bares e restaurantes, moram e/ou trabalham no local onde assaltam?
Os tipos de crimes também migram Ora são furtos, ora são estelionatos, ora são roubos, ora são latrocínios etc.
O que não dá para afirmar é que estímulos de renda tenham influência comprovada na inibição disso. E ainda no Estado de São Paulo.
Como e por que isso, a inibição de crimes via estímulos de renda, ocorreria em São Paulo e seriam mais eficazes do que melhorias no policiamento de área, maior preparo de policiais e ações preventivas?
Dá para pensar que, se o BF exige a apresentação de comprovante de matrícula e frequência às escolas, isso possa ser remediado. Vai-se à escola, mantém-se a matrícula, assina-se lista de presença e sai.
Não raro, hoje em dia, há famílias que sequer sabem em qual série está o filho.
É uma pena, mas acontece. E muito.
Dessa forma e nesse momento, o estudo pode servir, sim de propaganda para o governo federal.
Talvez não com a eficacia desejada, mas pode servir sim.
Com base em conclusões não completamente aceitas e comprovadas.

Anônimo disse...

Nada mais fácil do que refutar os argumentos do Reinaldo Azevedo, aliás nos blogs que tratam do assunto o argumento dele foi refutado dezenas de vezes. Só não ver quem não quer.

Anônimo disse...

O pesquisador da PUC cometeu alguns erros graves. O principal na minha opinião foi usar o seu merecido título de PhD como ponto final de uma discussão. Terrível atitude, muito próxima da carteirada.
Uma coisa que me deixou curioso é saber como o artigo - que ainda será publicado - virou pauta de um jornal. Afinal foi assim que RA tomou conhecimento das conclusões do pesquisador. Que universidade ou grupo de pesquisa deixa ir na imprensa conclusão de artigo não publicado? Isto é irresponsável, no mínimo, dado que o tema tem implicações na política de SP. Falar em "ciência neutra" é brincadeira. Ainda mais qualquer tipo de ciência social. Antes de criticar o blogueiro, penso que se devia estudar um pouco de epistemologia e entender as limitações e implicações da ciência que cada um pratica.

Anônimo disse...

Com todo respeito a todos vocês, mas creio que os senhores não sabem oque é criminalidade. Não sabem oque acontece na cidade onde moram. Aqui em BSB, morrem 13 pessoas em um fim de semana. Os pesquisadores tem que sair de suas salas e ver a realidade do mundo

Anônimo disse...

Que universidade ou grupo de pesquisa deixa ir na imprensa conclusão de artigo não publicado?

Vários. A maioria dos artigos são apresentados em congressos antes de ser publicados.

Anônimo disse...

Quando a conclusão de um estudo é divulgado em um jornal de grande audiência o Reinaldo Azevedo tem razão em criticar o estudo da forma como ele fez. Qualquer informação divulgada deve ser analisada também do ponto de vista político. Qual foi o objetivo do jornalista e da fonte da informação? Você já viu o Reinaldo criticando artigos publicados em revistas cientificas?

Virginia disse...

Não acredito que as palavras bobagem e besteirol sejam ofensivas e estas foram as palavras usadas por RA em seu primeiro texto criticando o professor Doutor Manuel Pinho de Mello. Enquanto que a resposta deste foi um claro 'quem você pensa que é??' e pouca fundamentação.
O politicamente correto venceu neste país, uma pena.

j.a.mellow disse...

Eu acho que o avanço da criminalidade é um processo cultural, ele avança lentamente ao passo que caminham outras condicionantes que podem ser todas essas que o Professor falou e mais uma cultura que foi implantada pelos meios de divulgação e importada de países hoje do mundo desenvolvido do que lá ocorria nos anos 30, principalmente nos EE.UU.
Agora, apenas num tópico, a peqenissima criminalidade existente no Brasil dos anos 40 e 50 devia-se por exemplo a um menor desnivel socio-economico?
-É claro que não, mas o aumento dessa criminalidade deveu-se a um somatório de várias coisas como exodo rural, falta de politicas de educação,falta de uma politica urbanização adequada e a própria repressão evitando-se que fosse feita uma apologia do crime como compensável.
Então, eu deduziria sem muito estudo que sem que sejam feitas todas essas coisas que nos referiamos, pouco ou nada valeria considerar num espectro estatistico um simples programa de transferencia de renda.
Essa é minha opinião, apesar de não defender que se faça criticas de um estudo cientifico sem contudo ser demonstrado através de um estudo também cientifico, muito mais amplo.
blogdojamellow.blogspot.com

Anônimo disse...

Então ter um trabalho sério classificado como bobagem e besteira não é ofensivo?

Como não gosto de ofender ninguém sugiro que vá escrever suas bobagens e besteiras no blog do RA.

Anônimo disse...

Então ter um trabalho sério classificado como bobagem e besteira não é ofensivo?

chest- se o autor estivesse seguro do que fez acharia graça. Agora eu pergunto. Trabalho científico sério sai em O Globo?

lgn disse...

Prezado Sr. Não entendi o seu discurso. O estilo do Sr. Reinaldo Azevedo foi e é sempre o mesmo, desde a Primeira Leitura. Bom de argumentos e gosto pela discussão, a leitura de seus artigos sempre levantam polêmicas que têm relevância nos fatos políticos atuais. Qualquer acadêmico que investir seu tempo no estudo do comportamento humano baseado em estatísticas vai expor a cara para bater. Em que pese o trabalho árduo que o acadêmico se propôs a fazer e, uma vez colocado aos olhos públicos, deveria saber que estava se expondo às críticas. Não é preciso ser acadêmico para refutar ou aceitar o trabalho de outro. Quando se trata de trabalho feito em área não exatas maior é a possibilidade de contestação. Penso que é muita frescura, desculpe o termo, ficar com o beicinho porque não foi bem interpretada, ou porque o argumento foi grosseiro. Pouco importa a forma. O fato é que existem campos de pesquisa que são portadores de polêmica e todo e qualquer pessoa que se meta a expor suas conclusões está sujeita à contestação. Se não for permitido ao Sr. Reinaldo fazer nunhum comentário a respeito por não ter atributos da área, então que a exposição seja feita em orgão próprio dos acadêmicos para sua discussão crítica. É tolice ficar discutindo as falas do Sr. Reinaldo. Ele, na verdade, representa de alguma forma a um grupo admiradores que não possuem voz ou coragem para o debate. Simples assim!

Anônimo disse...

Trabalho científico sério sai em O Globo?

Por que não? O trabalho não foi publicado no O Globo, foi comentado pelo jornal.

Dawran Numida disse...

refutado o estudo ou ou quem fez as cíticas, o importante é que nunca o BF foi tão esmiuçado como agora.
Isso é de suam importância, pois, parecia ter sido descoberta a redenção do desalento, da penúria, da pobreza e todos, exceto uns não atingidos, teriam até mudado de classe social em virtude dos programas sociais.
Como, se os valores transferidos são pequenos? E como, se em realidade, os valores não são renda e nem salário? O beneficário não poderia adquirir um carro com o que recebe do BF. Não só pelo valor, mas pela característica do programa.
Seria para estimular a manutenção dos filhos nas escolas e ter todos os cuidados de saúde com a infância e adolescência.
Seria ótimo que fosse o BF um toque de Midas. Mas, não é.
Que o debate não seja interditado, nem que seja utilizado em programas eleitorais.

Anônimo disse...

Infelizmente a maioria das pessoas se pauta, ainda, pelos noticiários que chegam às suas residências e não acompanham a maioria dos processos que envolvem autores e vítimas dos crimes praticados. É fato que, infelizmente, os quadros policiais de nosso país encontram-se defasados, desvalorizados e, em alguns casos, despreparados, o que leva a opinião pública, por um fator lógico, ir contra a força policial. Todavia, uma observação mais minuciosa nos casos de investigação e apuração de crimes nos revela o quanto é complexo prender ou manter presos criminosos que mesmo diante do conjunto de provas obtidas, têm os mais diversos recursos que, ao final, levam inegavelmente tais pessoas a voltarem para as ruas e lá cometerem os mesmos crimes, quando não, se especializam em crimes de maior gravidade. Ainda custo a entender o verdadeiro retrocesso da reforma de nosso código penal. Aqui poderia dissertar sobre minha indignação ao me debruçar sobre tamanhas incongruências que nada ilustram o atual posicionamento da sociedade, constante vítima de grupos criminosos cada vez mais organizados. Ver, por exemplo, o intuito do Poder Legislativo em abaixar o tempo de prisão daqueles que cometem roubo (art. 157) é de tamanho absurdo que não consigo entender. Perguntamos: Hoje em dia há menos casos de roubo, ou mais? As pessoas que cometem esse delito estão, de fato, sentindo-se punidas pelo crime que cometem? Como a resposta é óbvia, não consigo entender o raciocínio dos governantes, ou pior, acho que consigo, o que me preocupa ainda mais. Assim como a economia brasileira vem assumindo atitudes totalmente descabidas, a nossa legislação penal parece caminhar para o mesmo rumo. Realmente me preocupo com o resultado dessa explosiva e péssima combinação legal. Peço desculpas a todos pelo extenso comentário, mas é difícil segurar a indignação que me acomete ao ver o que vem sendo feito no Brasil.

Álvaro Naspolini

Google+ Followers

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Follow by Email