terça-feira, 31 de julho de 2012

Entrevista com Adolfo Sachsida: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-oitavo convidado: Adolfo Sachsida.

Essa entrevista foi publicada ontem no Ordem Livre.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Sim. Temos hoje um governo que tem as mesmas ambições, e que utiliza os mesmos métodos errados, empregados pelos gestores de política econômica do final dos anos 1970. Tal como no final da década de 1970, os gestores da economia brasileira se recusam a realizar os ajustes macroeconômicos necessários. Tal como no final da década de 1970 temos o governo como o grande promotor do crescimento econômico. Seja escolhendo setores, e favorecendo-os com generosos subsídios do BNDES, seja escolhendo indústrias e favorecendo-as com desonerações fiscais, o governo tenta a todo custo dizer para onde deve ir a economia. Essa política de dirigismo estatal não funcionou antes, e irá fracassar novamente agora. É estranho que o Brasil adote hoje políticas que já fracassaram no passado e espere por resultados diferentes.

É uma ilusão acreditar que o Brasil não necessita de recursos externos. Existe aqui algo diferente da década de 1970. Hoje uma desvalorização cambial, no primeiro momento, favorece as contas públicas brasileiras. Isto ocorre por dois canais: 1) as reservas internacionais que o Brasil mantém diminuiriam a dívida pública em reais; e 2) a inflação resultante ajudaria a equacionar o problema fiscal. Adicionalmente, o setor público não está tão endividado em dólares como ocorria ao final da década de 1970. É com base nisso que alguns analistas argumentam que a dependência externa brasileira não é tão severa. Contudo, se esquecem de que, num segundo momento, as incertezas decorrentes desse ambiente trariam o caos de volta à economia brasileira. Também devemos ressaltar o óbvio: de onde vem a poupança para financiar o investimento brasileiro? Certamente não é do setor público. A poupança interna privada também não é suficiente. Isto é, boa parte do investimento nacional se realiza por meio de poupança externa. Poupança essa que denota a grande dependência que temos dos recursos externos.

Tal como a década de 1980 foi conhecida como década perdida, temo que as políticas econômicas atuais do governo brasileiro (muito semelhantes às políticas adotadas ao final da década de 1970) nos joguem numa crise de proporções equivalentes no futuro. Existem hoje vários problemas que podem complicar razoavelmente o desempenho de longo prazo do Brasil. Em particular, quero ressaltar a questão demográfica, uma verdadeira bomba relógio que o governo insiste em não desarmar.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Existem hoje dois grandes riscos para o Brasil: a) uma queda no preço das commodities; e b) um aumento na taxa de juros internacional. Uma queda no preço das commodities afeta negativamente os termos de troca nacionais, em resumo, nos deixa mais pobres. Note que ao longo do tempo é normal a oscilação dos termos de troca. Assim como hoje tal oscilação nos favorece, um dia tal tendência irá se inverter. Nada de errado com isso. Errado é deixarmos em segundo plano o importante papel que as commodities representaram no desenvolvimento econômico brasileiro recente.

Cedo ou tarde a inflação irá ressurgir nos EUA e na Europa. Quando isso ocorrer tais países irão aumentar a taxa de juros, que hoje se encontra num patamar mínimo histórico. O aumento das taxas de juros internacionais será o começo do suplício da economia brasileira. Devemos aproveitar enquanto a taxa de juros internacional ainda é baixa para realizarmos os necessários ajustes macroeconômicos. Infelizmente, a recusa em fazer isso, aliada ao aumento dos gastos do governo, terá consequências nefastas para nossa economia quando do aumento da taxa de juros internacional.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Sim, o governo vem adotando mecanismos exóticos de combate à inflação. Essa equipe econômica é tão ruim que é bem provável que eles não tenham notado que as desonerações tributárias iriam reduzir a inflação medida pelo IPCA. Contudo, uma vez que o fruto proibido foi provado o governo parece ter gostado da ideia e insiste nela. O exemplo mais gritante foi a questão da CIDE, onde o governo clara e intencionalmente usou política tributária para conter a inflação.

Usar política tributária para combater inflação é uma ideia medíocre. Apoiar isso requer um alto grau de analfabetismo econômico.

4 comentários:

Thyago Américo Schio disse...

Muito interessante...

Pelo que acompanho, poucos tem ressaltado o problema que pode surgir com os juros internacionais em alta...

Não duvido que podemos ter uma grande quando isso ocorrer...

Quem o governo culpará dai? Veremos...

Rafael disse...

Concordo plenamente com a maioria da entrevista, principalmente no que diz respeito ao governo ta fazendo uma politica que ja deu errado e esperando um resultado diferente, e muita falta de senso desse governo está fazendo isso, o que causa mais indignação e que o caminho para o crescimento já e bastante conhecido, e as reformas necessárias também.
Concordo também que usar a politica tributaria como unica forma de combate a inflação é um equivoco total e mostra como esse governo não tem a menor preocupação com medidas que resolveriam os problemas de verdade. Entretanto criticar a queda de impostos no Brasil, pelo motivo que seja, também me parece errado. Fica a torcida para que o governo não so baixe os impostos pelos motivos errados mais que faça as reformas macroeconomicas necessárias e os baixe pelo motivo certo, um maior incentivo ao investimento privado.

Anônimo disse...

Poderia explicar um pouco melhor porque uma alta dos juros internacionais seria um desastre para o Brasil? Seria por causa da retirada de dinheiro que está aqui rendendo com a diferença de juros?
Obrigado!

Sérgio Sal disse...

Esse é o CARA.

Desde o Procurador Luiz Francisco de Souza, "desaparecido" misteriosamente em JAN/2003, não havia aparecido no Brasil pessoa com TAMANHA CORAGEM.

Aos que não sabem, imperam no serviço público o Princípio da Hipocrisia e a Leia da Mordaça: apaniguados e servidores "servis" recebem DAS, FG's, FC's e diárias, muitas diárias; aos outros...

Parabéns, NOBRE colega, pela CORAGEM, pelo Patriotismo, pelo Conhecimento e pela vontade de SERVIR.

Que outras pessoas de destaque se juntem a você!

Sou servidor do MJ, não tendo formação na área econômica, apenas conhecimentos básicos (concurseiro), mas já acompanho desde outubro de 2010 o desenrolar dessa situação. Meu primeiro contato com o tema, de forma mais específica com a bolha imobiliária, deu-se através de um trabalho, excelente trabalho realizado pelo Profº Luciano D'Agostini, intitulado A BOLHA IMOBILIÁRIA no BRASIL está FORMADA, publicada na Revista ECONOMIA E TECNOLOGIA, da Universidade Federal do Paraná (http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/ret/article/viewFile/26896/17926).
Após esse primeiro contato, muitos foram os conhecimentos adquiridos sobre o tema, e que têm se mostrado corretos. Mais tarde vieram os Profº Samy Dana e William Eid da FGV para sacramentar o assunto.
Finalizando: gostaria de agradecer-te imensamente, pois, que me estimula a continuar informando mais e mais pessoas, além de manter a coragem de "representar" contra ilegalidades. Meus parabéns!
Sérgio Alexandre Lima
Cascavel/PR

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