domingo, 15 de julho de 2012

Entrevista com Gustavo Franco: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos nosso sétimo convidado: Gustavo Franco. O ex-presidente do Banco Central do Brasil é um nome que dispensa apresentações. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Sim é possível viajar no tempo, e também no espaço, geralmente com a ajuda da maionese. Parece-me que o verdadeiro destino da viagem aludida na pergunta é a China, cujas semelhanças com o Brasil dos generais é perturbadora. É verdade que estamos retrocedendo a mecanismos próprios daquele tempo, mas com muito mais ousadia. Um exemplo: BNDES, BC, BB, CEF, FGC funcionando “em harmonia”, tal como se fossem uma coisa só, e a China fosse aqui. Isso é assustador. Há um intervencionismo generalizado, uma mistura de voluntarismo e contrariedade com as realidades do mundo globalizado, que não sei onde vai nos levar. O dano foi pequeno, por ora. Talvez o modelo do Pré Sal se torne a “reserva de mercado”, e o modelo de capitalismo socialista brasileiro seja um conjunto vazio. Dessa maneira, vamos estagnar, ou rastejar, viver alguns anos meio melancólicos, como argentinos, mas a boa notícia é que o Muro vai cair de novo, como se passou no final dos anos 80, e virá uma novo governo desfazer tudo isso.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) A crise de 2008 deixou claro que todas as nossas ideias sobre ventania eram fantasias inocentes diante de um furacão desse tipo. Se as coisas podem dar errado desse jeito, as flutuações nos preços das commodities, bem como as coisas que normalmente movimentam o ciclo econômico, parecem eventos de importância menor. É como se apenas os “tail events” fizessem diferença, e esses podem vir de qualquer lugar. Eu desconfio que o próximo virá da China, mas não é possível descartar uma grande confusão na Europa.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) O governo anda usando muitos recursos incomuns para lidar com a inflação; o mais eficaz, na minha opinião, foi a sorte. Usamos os IPIs e os preços administrados, e mesmo o câmbio, para evitar um confronto que eles têm sido bem sucedidos em evitar, contrapondo as metas de inflação com os desejos do Palácio. Tanto em 2008, quanto no começo de 2012, a economia parecia superaquecer e provocar o confronto, quando sobrevieram ventos gelados do exterior e a inflação encolheu por obra e graça de fatores alheios à política monetária. Em ambas as ocasiões estabelecemos recordes para os juros, os menores talvez desde a República Velha. Sorte. A se observar o mesmo padrão, vamos recuperar a economia no segundo semestre, e no final de 2013, quando a inflação estiver rondando o teto, com superaquecimento, algum problema externo vai nos salvar da inflação.

5 comentários:

Philipe Maciel disse...

Só tem fera nessa série! Bem legal

Pedro Erik disse...

Parabéns pela entrevista com Gustavo Franco, Adolfo.

Apesar de eu achar que até agora ninguém respondeu com profundidade ao defender o ponto de vista, nem amplamente (usando muitos fatores de análise).

Continue.

Grande abraço,
Pedro Erik

Anônimo disse...

Adolfo,
parabéns!

Excelente!!

Abs,
Gilberto

Anônimo disse...

Top tier é o Arminio, o Castelar e o Oliveira Alves P. Filho, nosso Wally Tampinha. Mesmo descontando que o Castelar não é um autêntico economista. Vamos entrevistar que é bom, não quem é famoso.

Dawran Numida disse...

Um bom e vasto panorama da economia brasileira. Em poucas palavras são procurados os possíveis caminhos utilizados pelo governo na condução da moeda, juros e câmbio. E a política fiscal expansionista. Atualmente o governo parece brigar com os fatos e atraca a evolução do PIB com om indicador de "pujança de uma nação". Assim, é de esperar que o PIB venha realmente muito baixo.

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