quinta-feira, 12 de julho de 2012

Entrevista com Leonardo Monasterio: a década de 1970 está de volta?

Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao mesmo conjunto de três perguntas.

Neste post, entrevistamos nosso quarto convidado: Leonardo Monasterio. Pesquisador sério e com amplo conhecimento sobre a economia brasileira, também mantém o excelente blog: Blog do Leo Monasterio. O Sachsida agradece a gentileza da entrevista.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por que?

Resposta) O momento é distinto do final dos 70. Ali o Brasil já tinha passado uns bons anos nadando contra a recessão mundial. Isso levou a um acúmulo de problemas que estouraram na década seguinte. Agora o país - tal como outros países exportadores de commodities - saiu relativamente ileso da crise de 2008. Como tivemos muita sorte e os termos de troca se recuperaram bem rápido, a gravidade é menor.

A maior diferença entre os anos 70 e agora é que, no passado, mesmo que de forma bem questionável – o setor público investiu na busca de mudanças setoriais. Já agora, alguns setores da equipe econômica buscam voltar no tempo. É como se houvesse um perfil setorial ideal - perdido lá na década de 80 - e com as proteções e subsídios aos setores selecionados, ele seria alcançado e todos seríamos felizes. Ora, mesmo que isso fosse desejável, o grau da distorção necessário hoje- dados os termos de troca atuais- é imenso. Tem-se uma política inútil que não prepara o país para a época das vacas magras, quando a maré internacional virar de vez contra o Brasil.

O pior é a crise tornou-se justificativa para qualquer coisa. Desde 2008, o governo parece ainda mais sensível aos setores mais reclamões. Eu sei que desde sempre e em todo lugar, existem grupos de interesse e rent-seeking, mas no Brasil recente isso está exagerado, até mesmo para critérios brasileiros. Distribuem-se proteções e privilégios de maneira irrefletida. Ou seja, não só a ideia geral da política industrial é equivocada, mas também a forma de execução é atabalhoada.

Eu também estou preocupado com os investimentos. Lá nos anos setenta, aos trancos e barrancos e com um custo que se mostrou altíssimo, o II PND ao menos fez um tanto de infraestrutura econômica importante. Hoje, eu temo que o parco investimento público aconteça em atividades com retorno nulo ou muito baixo, mas de alta visibilidade.

Uma palavra de otimismo: o risco de uma década tão perdida quando os 80 é baixo. Mesmo que ainda muito ruins, as instituições de hoje são melhores do que no passado. Além disso, a evidência histórica mostra que sociedades menos desiguais são mais capazes de absorver choques externos. Como a renda cresceu e ficou um pouco mais bem distribuída, as maluquices dos anos 80-90 estão mais longe de nós.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Se a China faz um pouso forçado e os termos de troca viram, nos danamos (e o mundo inteiro também). Contra isso, não há muito que fazer agora.

Na verdade, a maior ameaça no médio/longo prazo está no fenômeno oposto: eu temo que o preço do petróleo fique nas alturas e o pré-sal seja um sucesso. Aí os riscos de uma maldição de recursos naturais institucionais são maiores. Apesar da melhoria da qualidade das instituições que citei acima, o Brasil ainda está na bifurcação que indica: Venezuela e Nigéria para um lado e Chile e Noruega de outro. Quanto mais bem sucedido o pré-sal, menor a necessidade de reformar o país na direção certa. Nesse cenário ruim, lá por 2030, quando o bônus demográfico desaparecer e o passivo previdenciário se agigantar, ficaremos sujeitos às flutuações dos preços do petróleo.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por que?

Resposta) Eu não entendo do assunto e prefiro nada dizer.

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito boa a sua iniciativa Sachsida de fazer as mesmas perguntas à economistas diferentes! Isso me fez lembrar de uma das primeiras aulas da minha graduação, em que o professor falava que, diante da mesma pergunta, economistas poderiam ter opiniões bastante distintas e, mesmo assim, todos eles poderiam estar certos (ou errados). Porém, as ideias que os 4 tem em comum, como a dependência do preço das commodities, são as que chamam atenção.

Anônimo disse...

pô, não vai chamar nenhum heterodoxo? Aí fica pregação para os convertidos.

Anônimo disse...

O Monastério falou de um bônus demográfico e que a partir de 2030, teremos graves problemas previdenciários. Existe alguma bibliografia sobre isso ou, por enquanto, é apenas uma hipótese levantada por ele?

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