quarta-feira, 25 de julho de 2012

Entrevista com Pedro Albuquerque: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-terceiro convidado: Pedro Albuquerque. O Professor Albuquerque tem ampla experiência em macroeconomia e economia brasileira. Além disso, mantém o excelente blog Incentives Matter. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista. Esta entrevista foi publicada hoje no Ordem Livre.


1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Há diferenças e similaridades importantes. As duas grandes similaridades são, por um lado, o aprofundamento do modelo de desenvolvimento econômico fortemente baseado em gastos e projetos estatais que alimentam a fragilidade interna e externa do país, e, por outro lado, a dependência da economia brasileira em relação a ciclos de termos de troca internacionais e ciclos de juros nas economias avançadas.

A economia brasileira é hoje também diferente da década de 70, mas não necessariamente de maneira positiva. A primeira diferença é que o choque dos termos de troca nos anos 70 veio predominantemente pelo lado das importações, enquanto que hoje vem pelo lado das exportações. A segunda diferença é que nos anos 70 o Brasil conhecia aumentos reais de produtividade, de capacitação tecnológica e de educação qualitativamente superior às que conheceu nas décadas anteriores, mesmo que não necessariamente de forma universal. Por isso, o país conheceu, durante a década que se seguiu, aumentos de produtividade e uma tendência à diversificação de sua pauta de exportações que muito o ajudou a superar a terrível crise fiscal dos anos 80 e os choques sequenciais negativos de termos de troca. Hoje, ao contrário, o país não somente presenciou a estagnação da sua produtividade, mas também um retorno à participação excessiva de produtos básicos na sua pauta de exportações que não era vista desde os anos 70. As tendências, portanto, ainda eram positivas nos anos 70, e hoje, infelizmente, são estáveis ou negativas.

Uma diferença que é incorretamente citada por muitos economistas brasileiros é a mais fraca exposição do Brasil a dívidas externas hoje. Mas tal crença é incorreta, pois ignora a existência dos “esqueletos no armário” dos setores público e privado num país ainda mais incapaz de poupar que nos anos 70. Como estamos vendo hoje até mesmo no caso de economias avançadas que poupam, posições externas favoráveis podem rapidamente transformar-se em posições externas desfavoráveis após uma crise fiscal ou creditícia severa.

2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Poucos no Brasil se dão conta de que os EUA já deixou de ser há tempo um parceiro comercial muito importante para o Brasil. De fato, o valor combinado das exportações brasileiras em 2010 para a União Europeia e a China foi nada menos que quatro vezes maior que o valor das exportações para os EUA. O que isso quer dizer é que, considerada a reduzida dependência de exportações diretas aos EUA, o Brasil não foi tão afetado quanto outros países emergentes pela crise americana durante os últimos cinco anos. Hoje, por outro lado, a economia brasileira corre sérios riscos por conta da crise fiscal de alguns importantes parceiros comerciais europeus e pela inevitável desaceleração do crescimento na China. Os efeitos da desaceleração econômica nessas duas regiões, combinados com uma queda dos preços de commodities exportadas pelo Brasil, poderão fazer cair por terra a tese da “blindagem”, tendo em vista que a robustez aparente da economia brasileira teria sido nada mais que o resultado de uma série de coincidências externas favoráveis ao país.

Outro risco muito grande para a economia brasileira é o descontrole fiscal americano que pode resultar num processo de aceleração súbita dos juros internacionais, o que seria fatal para o Brasil dada a intensa participação estatal nos mercados subsidiados de crédito à produção e a fragilidade do sistema de crédito ao setor privado brasileiro, fragilidade que se manifesta historicamente via taxas de juros reais e nominais incomparavelmente elevadas, mesmo durante momentos de farta liquidez doméstica e internacional, como os que o Brasil conheceu durante a última década.

3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

A única política tributária que pode ajudar a controlar a inflação, indiretamente, é a disciplina fiscal. Desonerar ou onerar fiscalmente pode ser justificável pela teoria das finanças públicas, mas não como instrumento de combate à inflação.

Cabe notar, porém, que desfigurações dos instrumentos de política fiscal e regulatória com fins heterodoxos não são novidades no Brasil. Fala-se muito da independência operacional do Banco Central do Brasil e de sua política monetária quando, na verdade, a inflação brasileira, diferentemente do que ocorre na maior parte dos países desenvolvidos, é fortemente influenciada por preços determinados artificialmente por agências que têm pouco compromisso com eficiência econômica ou controle inflacionário. Ou seja, uma boa parte da inflação brasileira é facilmente manipulável por medidas administrativas distorcedoras que tendem a dominar a política monetária até mesmo no longo prazo, pois o Bacen torna-se refém, como formalizado por Kydland e Prescott, dos objetivos estreitos das agências que detém efetivamente o poder decisório. Em resumo, o que vemos nesse momento é uma perda da capacidade de confrontação do Bacen, ao mesmo tempo que se acumulam distorções setoriais causadas por políticas de preços que transferem os custos de ajustamento para um futuro não tão distante.

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