quarta-feira, 18 de julho de 2012

Entrevista com Samuel Pessoa: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo convidado: Samuel de Abreu Pessoa. Além de seus méritos acadêmicos, o Professor Samuel Pessoa é um especialista em desenvolvimento econômico. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Penso que há inúmeros paralelos entre a dinâmica da economia no atual período e na década de setenta. Evidentemente há diferenças também. Minha leitura é que o governo FHC e o período Palocci estão para a aceleração do crescimento que houve no segundo mandato de Lula da mesma forma que o governo Castello Branco esteve para o período Médici. E, por este prisma, podemos afirmar que Dilma desempenha hoje papel próximo ao do governo Geisel. Tanto lá quanto cá houve entre Médice (Lula) e Geisel (Dilma) um choque externo. A leitura que ambos os grupos políticos que eram (são) os responsáveis pela formulação da política econômica fizeram (fazem) da melhor resposta ao choque externo foi (é) elevar em muito a interferência do Estado da economia. Penso também que ambos os grupos de técnicos que lideravam (lideram) a formulação da política econômica interpretaram (interpretam) que a aceleração do crescimento resultou da correção das políticas implantadas por Delfin (Mantega) e não da maturação das reformas institucionais feitas pelas gestões anteriores da política econômica. Em que pese a maior ou menor correção das políticas econômicas de Delfin Netto no período Costa e Silva/ Médici e de Mantega no governo Lula eu atribuo a aceleração do crescimento que houve no período à maturação de um conjunto de reformas institucionais e à estabilização macroeconômica conquistadas nos governos anteriores, em associação a uma situação internacional muito favorável.

No entanto achou que a sociedade brasileira está muito mais amadurecida e não repetiremos os erros dos anos 80. Boa parte das empresas estatais inclusive do setor financeiro apresenta hoje governança muito melhor do que havia no período de exceção. Acredito que a política funciona relativamente bem no Brasil e que quando ficar claro ao eleitor mediano os erros recentes da política econômica haverá suporte para um projeto alternativo. Penso que ficará para 2018 e não para 2014. Temos que lembrar que os erros cometidos nos anos 80 derivaram também dos erros de diagnósticos que a sociedade fez a respeito do funcionamento de uma economia de mercado em função do excesso de otimismo com a transição democrática. Neste aspecto estamos muito melhores.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Com certeza uma parada súbita da economia chinesa que derrubaria os preços das commodities. No entanto o câmbio compensaria o movimento dos preços e haveria perda de renda interna – em função das perdas dos termos de troca – e desaceleração da economia mas não necessariamente uma crise prolongada. Uma quebra de algum banco grande europeu com parada súbita de crédito nos níveis de 2008 poderia produzir uma forte desaceleração. No entanto como foi o caso em 2008/ 2009 a desaceleração seria aguda mas haveria espaço para retomada também rápida. Penso que os maiores problemas de nossa economia são internos e não externos: baixa poupança, baixa qualidade da educação e, mais recentemente, baixa taxa de crescimento da produtividade.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) O governo emprega um conjunto de políticas tópicas, discricionárias para controlar a inflação. Este padrão de microgerenciamento da política econômica feita em resposta às pressões empresariais aos gabinetes de Brasília é responsável em parte pela queda do investimento. Dois exemplos ilustram. O primeiro exemplo é o setor do etanol. Há delegação para haver redução do juros. OK. Assim a inflação tem que ficar contida. Para tal congela-se o preço da gasolina. No Brasil os carros são flex de sorte que o preço do etanol fica também congelado. Todo um setor muito produtivo, no qual temo óbvias vantagens comparativas, e no qual dominamos toda a cadeia produtiva – desde a indústria de bens de capital de usinagem e da agricultura (plantadeiras e colheitadeiras) até a parte de bioquímica do etanol e da genética da cana – apresente fortes problemas de desempenho. A menina dos olhos do primeiro governo Lula perde seu brilho. O segundo exemplo refere-se ao aumento do IPI para bebidas. O setor automobilístico apresenta problemas em função também de um ciclo de estoques que foi induzido em parte pela mão pesada da política econômica em resposta à crise de 2008. É necessário estimular a indústria automobilística. Reduz-se o IPI desta indústria e eleva-se o IPI de bebidas! A conclusão é que hoje é quase impossível um cálculo empresarial. Qual é a TIR de um projeto? Há tantos eventos que precisam ser ponderados pelo empresário que o risco percebido na economia em função do microgerenciamento da política econômica elevou-se muito.

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