domingo, 29 de julho de 2012

Entrevista com Claudio Shikida: a década de 1970 está de volta?

Neste post, entrevistamos nosso décimo-sexto convidado: Claudio Shikida. Além de sua qualidade acadêmica, o professor Shikida mantém um dos melhores blogs da internet. O Sachsida só tem a agradecer pela gentileza da entrevista.

1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década perdida)? Por quê?

Resposta) Imagino que a pergunta foi pensada no contexto do crescimento econômico. O que tivemos na década de 70? Um período de crescimento econômico afetado por dois choques nos preços do petróleo (1973 e 1979) seguido de uma opção governamental de prosseguir com investimentos em infra-estrutura. Se esta foi ou não uma opção correta é algo que se pode discutir. Entretanto, o fato é que a década de 80 não apresentou o mesmo desempenho. Podemos pensar nestes eventos como parte de um ciclo econômico de longo prazo. Neste sentido, pode ser que estejamos próximos de uma década “perdida”, mas por motivos diferentes. Por que?

Em primeiro lugar, temos várias mudanças importantes desde os anos 80 para os dias de hoje. Parece-me que tivemos a ascensão e queda do modelo das agências regulatórias: políticas de defesa da concorrência não sensibilizam mais os burocratas do governo, mais preocupados com a manutenção de altos índices de popularidade para o governo.

Em segundo lugar, houve uma mudança brutal na forma de se fazer política monetária no Brasil. Para o desespero dos defensores do “nacional-inflacionismo” (por eles denominado “nacional-desenvolvimentismo”), a política monetária é hoje feita com um capital humano de muito maior qualidade. Tantos fracassos com planos heterodoxos e com políticas fiscais irresponsáveis nos levaram a um aprendizado doloroso sobre o que pode ou não pode fazer a política monetária. É mais fácil perceber, hoje, quando a política monetária foge de seus objetivos para se acomodar à política fiscal. Assim, há um avanço institucional nesta área que, embora sempre corra o risco de ser solapado – como parece estar ocorrendo no marco regulatório citado – parece ter forças para se manter por mais alguns anos.

Terceiro, intencionalmente ou não, os governos democráticos lograram obter ganhos no combate à inflação, promovendo uma importante redistribuição de renda a favor dos pobres seguida de políticas inclusivas que, embora tenham problemas em sua concepção (o famoso “efeito catraca” – ratchet effect) , parecem ser um sucesso microeconômico, embora não possamos nos esquecer do crescimento econômico duramente obtido sobre os governos FHC e facilmente derivado do crescimento da economia mundial nos governos seguintes, até 2008. Em outras palavras, inclui-se mais pessoas no mercado consumidor, embora não se possa se dizer o mesmo sobre o empreendedorismo, que ainda enfrenta dificuldades em seu crescimento, em grande parte por culpa do governo.

Quarto, durante o período militar, pelo bem ou pelo mal, havia maior estabilidade política do que existe hoje. Os governos de esquerda não se mostraram melhores do que seus antecessores neste aspecto. A crise política do mensalão, o “ano perdido” que foi o primeiro ano da administração Rousseff, com denúncias quase semanais de corrupção e trocas de ministros em ritmo elevado (nunca antes visto neste país?) não mostram que a esquerda governante lida melhor com a corrupção do que seus antecessores. Além disso, as tentativas de intervir nas políticas de grandes empresas para, novamente, manter elevados índices de popularidade, embora de forma muito menos intensa do que o que se faz atualmente na Argentina, não deixa de ser um perigoso precedente.

Quinto, quanto aos investimentos, o governo atual não se sai muito melhor do que governos anteriores. O chamado “custo Brasil” segue firme e forte. Há, por outro lado, um tímido avanço da sociedade civil no sentido de fiscalizar estes gastos. É desejável que este movimento aumente. Afinal, paga-se imposto online, mas para falarmos de gasto público, estamos longe de um nível ótimo de transparência.

Em último lugar, o mais importante: o capital humano. O que observamos no Brasil? Não se percebe um esforço real de melhoria do ensino básico, embora o presidente anterior tenha feito questão de inaugurar várias universidades públicas. Há quem pense que basta empregar algumas pessoas em alguma “incubadeira” pública para que se gere inovações. Se o governo (com co-responsabilidade de muitos que o elegeram) – estivessem realmente preocupados com a formação do capital humano veríamos muito mais propaganda de estantes de livros e escrivaninhas em jornais. Outro indicador: o bom e velho apoiador de livros que se encontra em qualquer papelaria norte-americana. Fácil de se transportar em uma mochila e útil para a leitura em qualquer lugar, este item não existe aqui. Tecnologia e inovação se não saem de “incubadeiras”, mas da educação doméstica aliada a uma educação decente nas escolas. Caso alguém queira um indicador mais famoso, que veja os diversos artigos que medem retornos para o capital humano no país.

Embora incompleta, a lista não me deixa muito otimista quanto ao crescimento econômico no médio prazo. No longo prazo, entretanto, ainda há esperança caso o setor privado (leia-se: (e)leitores!) pressione o governo para que cumpra seu papel correto (não este de escolher perdedores às custas de um vencedor). A boa condução das políticas econômicas também é um fator que foi duramente conquistado nos últimos anos e deve ser preservado.


2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?

Resposta) Para mim, o maior risco do cenário externo não são a China ou as commodities. Claro que estes são fatores importantes para o crescimento, ceteris paribus. O que me parece mais importante é o crescimento da economia mundial. Tenho dúvidas, por exemplo, sobre como as regulamentações do mercado financeiro pós-2008 afetarão o potencial de crescimento.

Por outro lado, as mudanças geopolíticas que ocorreram recentemente no mundo árabe podem ter consequências ainda imprevisíveis para a economia brasileira. Pode-se pensar apenas na balança comercial, mas, na verdade, mudanças como aquelas podem gerar reestruturações em outras economias como vimos nos anos 70. Este é um ponto sobre o qual ainda especulo.

O crescimento da China, assim como o foi o do Japão nos anos 80, gerou muito dinheiro em palestras e livros, mas a economia chinesa é, em última instância, como em qualquer economia, gerida por incentivos de mercado, quer o governo chinês goste ou não disso (obviamente ele pode atrapalhar estes incentivos). Assim, a elevação do custo da mão-de-obra que observamos atualmente na China, as pressões inflacionárias, etc, diminuem a atratividade dos investimentos externos naquele país, mas isto não necessariamente afeta o ciclo de crescimento atual (e os efeitos defasados de sua demanda por nossas commodities).

Quanto a isto, basta que nossos empresários estejam atentos (ou “alertas”, para adoçar os ouvidos de alguns) às oportunidades e diversifiquem os mercados. Mas, obviamente, isto é algo que, por definição, um empresário sabe fazer.


3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Resposta) Confesso que esta foi a pergunta mais difícil para mim. Procurei em alguns livros-texto por algo como “política tributária e inflação”, mas, como desconfiava, não encontrei nada. Não é à toa, claro, pois todos aprendemos que a política tributária tem alguns objetivos dentre os quais não se encontra o controle da inflação.

Isto não quer dizer que o governo não possa tentar fazer algo como tentar controlar a inflação via política tributária. Entretanto, acho difícil dizer que ele conseguirá algum resultado que possamos claramente atribuir à política tributária.

O combate à inflação deve ser feito pela política monetária. Sabemos disso e sabemos também que a política fiscal tem outro objetivo que é o crescimento econômico.

Mas como a política tributária influencia no nível de preços? Pode-se pensar em uma política de “incentivos fiscais. Quando se fala em incentivos fiscais (ou, como prefiro, “favoritismos fiscais”), o que realmente acontece é algo mais complicado: o governo pretenciosamente acha que sabe que setores gerarão maior crescimento (e este crescimento gerará votos) e aposta em um número, por exemplo: “15 pontos percentuais de queda no imposto X”. O que esta política faz? Gera mudança no nível de atividade nos setores relacionados à produção do produto favorecido. Caso não seja uma queda, mas um aumento no imposto, obviamente, ocorre o contrário.

Assim, o preço do produto em questão é alterado e isto gera consequências na cadeia produtiva. O problema é como distinguir estes efeitos de forma a diferenciar a mudança da política tributária de outros choques que afetam a economia. Além disso, se há um aumento de alíquota de impostos, gera-se o contrário do que o governo atual quer, vale dizer, as pressões são para queda da atividade produtiva.

Talvez o que o governo esteja, de fato, fazendo, é tentar estimular alguns setores com forte poder de geração de empregos, em ano eleitoral, em detrimento de outros, para tentar compensar o desempenho sofrível da atividade econômica mundial recente.


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