quarta-feira, 13 de março de 2013

A Assombrosa Falta de Compreensão do Processo Inflacionário por parte do Governo e da Imprensa


Entre junho e julho do ano passado eu fiz uma série de entrevistas com vários economistas. Todos respondiam ao mesmo conjunto de perguntas. A última pergunta era: “O governo parece estar usando política tributária para controlar a inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda com isso? Por quê?

Obviamente nenhum dos entrevistados concordava com essa política absurda (que reflete muito mais um controle de preços do que um combate a inflação). Em especial vejam só a resposta do economista Irineu Evangelista de Carvalho Filho:
Usar política tributária para conter inflação me parece uma das idéias mais estúpidas que podem ser concebidas em política econômica, portanto eu não acredito que o governo brasileiro esteja fazendo isso”.

Até o meio do ano passado era difícil ao governo reconhecer que usava política tributária para combater inflação. Afinal, essa é uma idéia estúpida. Mesmo os economistas não alinhados tinham dificuldade de acreditar que o governo estava cometendo este tipo de infantilidade econômica. O tempo passou, e desde o final do ano passado vejo o governo defendendo abertamente o controle da inflação por meio de desonerações tributárias. O que é incrível é que a imprensa aceitou esse absurdo. Mesmo na CBN vemos comentaristas econômicos comentando o uso da política tributária para combater inflação como sendo algo trivial e correto. ERRADO!!! Isso é estupidez econômica.

Inflação é a perda de poder aquisitivo da moeda. Quando o governo abaixa os impostos para combater inflação ele NÃO ESTÁ COMBATENDO INFLAÇÃO!!! Está combatendo as consequências do processo inflacionário (aumento de preços), mas não sua origem (perda de valor da moeda). Vamos dar um exemplo. Quando você compra uma barra de chocolate por 5 reais, no fundo você está pagando pelo chocolate e por um conjunto de bens públicos (pois o imposto embutido no preço está financiando a compra desses bens públicos). Isto é, você estaria pagando pelo chocolate e por uma aspirina (que seria comprada com seu imposto e dada num hospital público).

Quando o preço do chocolate sobe para 6 reais isso é um reflexo da perda de valor da moeda. Quando o governo reduz o imposto do chocolate para obrigar o preço voltar aos 5 reais ele NÃO COMBATEU A INFLAÇÃO!!! Note que agora seus 5 reais compram apenas o chocolate (e não mais o chocolate e a aspirina como antes). Ou seja, o poder de compra da moeda caiu, mesmo que o preço do chocolate tenha permanecido inalterado.

O truque é que essa manobra tributária ENGANA os índices de preço tais como o IPCA. Se o índice de preços aqui fosse calculado SEM IMPOSTOS isso mostraria o truque do governo para toda sociedade. Esses truques do governo enganam a população, pois maqueiam o verdadeiro valor da inflação.

Repito: política tributária NÃO COMBATE INFLAÇÃO, apenas maqueia os índices de preço!!! E muito me surpreende que a imprensa, e os economistas, não estejam denunciando essa manobra que além de absurda é burra!!!

15 comentários:

Anônimo disse...

Maqueia os índices de preços se futuramente os impostos voltarem.

Acredito que a desoneraçao que está acontecendo em setores da economia e para a cesta básica me parecem permanentes. Ao contrário do que aconteceu com o IPI.

Nao tenho certeza sobre este "detalhe".

Mas se estiver correto o governo está diminuindo o peso da carga tributária do Brasil. Coisa que nunca aconteceu na história recente do Brasil.

Se os índices de preços estivessem sem impostos e o Governo aumentasse a tributação, como você sugere,você alardearia com a mesma enfase, só que em sentido oposto.

Leonardo Monasterio disse...

Ótimo post. (A propósito, quando vcs me diziam que a política trib estava sendo usada com o objetivo de segurar a inflação medida, eu não acreditava.)

Celso Costa disse...


Adolfo,

Bela explicação. Com certeza essa equipe econômica é de uma inexplicável capacidade de besteiras. O problema é que o Brasil continuará patinhando por um bom tempo.
Em sala de aula tenho falado dessa questão da política fiscal, e sempre que necessário artigos do seu blog e de outros.
É preciso bater em cima dessa idiotice.

Anônimo disse...

Na Banânia, onde impera o Capitalismo sem risco, preço = custo + lucro. COMPETIÇÃO para baixar preços é uma idéia estranha – é coisa da cultura ANGLO SAXÃO, ou na visão bananense, é coisa do lado negro da força ;)

Klauber Pires disse...

Sr Adolfo,

Como deve saber, os austríacos divergem do seu posicionamento: Mises afirmava que a inflação é a própria expansão monetária, ao cabo que os aumentos de preços são meros reflexos dessa expansão, quando percebida pelos agentes econômicos.

Neste sentido, uma desoneração tributária tem um duplo efeito de baixar imediatamente o preço de um produto e de fomentar a sua oferta, o que fará com que os preços sejam baixados pela comum lei econômica da oferta e da procura.

Assim sendo, eu me ponho favorável á desoneração tributária, conquanto não ao modo fascista de orientá-la setorialmente, privilegiando uns setores em detrimento de outros. O dirigismo estatal do consumo perturba as escolhas dos consumidores e com isto, a escolha dos investimentos mais urgentes e necessários.

Adolfo Sachsida disse...

Caro Klauber,

Obrigado por sua mensagem. Contudo, DUVIDO que Mises aprovaria o uso de politica tributaria para combater inflacao.

O que Mises, e todos os economistas, argumentam é que a redução tributária DIMINUI o peso morto dos impostos, o que por sua vez aumenta a eficiência econômica.

Mas isso nao implica em se defender o uso da politica tributaria para combater inflacao.

Adolfo

Klauber Pires disse...

Professor Adolfo,

Entendi seu ponto de vista, e concordo.

Não obstante, como se diz, Deus escreve certo por linhas tortas. Jamais eu aprovaria qualquer plano econômico petista, e não por birra, mas por saber que os fundamentos deles estão todos errados.

Parece-me, pois, que o governo está fazendo um bem sem querer, isto é, sem ter outra opção, assim como foram as privatizações tucanas.

Se ele não colocar a impressora pra rodar, parece-me que estamos no lucro.

Sds

Klauber C. Pires

Anônimo disse...

Teria Mantega capacidade para ser aluno de Sachsida?

mauricio disse...

Inacreditável

Primeiro, ao Anônimo do primeiro post:

"Acredito que a desoneraçao que está acontecendo em setores da economia e para a cesta básica me parecem permanentes.
Mas se estiver correto o governo está diminuindo o peso da carga tributária do Brasil. Coisa que nunca aconteceu na história recente do Brasil."


O mais incrível, é que não somente no Brasil o passado é incerto, e que nada impede o governo de aumentar novamente os impostos dos mesmos ítens que desonerou - igual ao IPI - como também possa ser visto com qualquer tipo de otimismo o governo esperar a maré da inflação bater no queixo para começar a procurar alguma coisa para se agarrar e não morrer afogado.

Klauber Pires:
"Neste sentido, uma desoneração tributária tem um duplo efeito de baixar imediatamente o preço de um produto e de fomentar a sua oferta, o que fará com que os preços sejam baixados pela comum lei econômica da oferta e da procura. "

Só não explica como irá se aumentar a oferta dos ítens desonerados da cesta básica (como carne, café, manteiga e açúcar (uma vez que até que se aumente a produção desses produtos, é provável que as desonerações já "tenham vencido" e retornadas as taxas normais, ou talvez com a devida quantidade chuvas para a próxima safra?), sem falar que, esse governo absurdo com suas políticas insanas pode muito bem - a exemplo da petrobrás e elétricas - decidir por si só quanto deve ser a margem de lucro, pois qualquer empresário com o devido conhecimento prático viu que, se dilma mandou baixar o preço via imposto, também o irá fazer via margens de lucro, no melhor estilo chavista de lidar com canais de TV que não compactuam com o regime.

Segundo:
Queria saber a opinião de Mises quanto a essas desonerações - uma vez que NÃO HÁ a contrapartida por parte do governo na CONTENÇÃO dos gastos públicos, o que, por definição, irá aumentar o déficit, que acabará sendo coberto ou por maior endividamento do estado, ou via impressão monetária, o que em ambos os casos, acaba em mais expansão da moeda.

Por fim, é estarrecedor saber que em setembro de 2012 esse próprio governo AUMENTOU o imposto de vários produtos, entre eles, a batata, mas acho que esse não faz parte da cesta básica...

mauricio disse...

Por fim, a desoneração da cesta básica acabou sendo exatamente como a da energia elétrica: muito mais discurso do que na prática:
http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,setor-de-cafe-diz-que-nao-vai-adotar-desoneracao-da-cesta,147119,0.htm

Klauber Pires disse...

Maurício,

Você tem razão. Como eu disse, eu aprovo desonerações tributárias, em princípio, desde que sejam universais e permanentes.

O que este governo está fazendo é um dirigismo estatal via tributação: aumenta impostos de um setor em silêncio para diminuir os de outros sob os holofotes da mídia e assim fazer média eleitoral e políticas de alianças com empresários inescrupulosos = Sinônimo de fascismo, sem tirar nem pôr.

Ademais, as desonerações tributárias anunciadas estão sendo feitas administrativamente, isto é, dentro de limites autorizados por LC, o que significa que podem voltar a ser aumentadas a qualquer momento.

TS disse...

Sr. Klauber:
Não vejo como a desoneração, por si só, consiga fomentar a oferta (a oferta normalmente é aumentada através de investimentos). O que pode acontecer é que, com o preço mais baixo, a demanda pode ser estimulada e aí, sem condições de aumentar a oferta, os preços subam, anulando portanto a redução de preços pretendida. (Ou será que o governo vai importar arroz/feijão para equilibrar a oferta e a demanda, sem que haja necessidade dos agentes aumentarem o preço?)

Klauber Pires disse...

Sr TS,

Sob uma forma ampla, a desoneração tributária propicia o aumento da poupança privada, o que aí sim, possibilita os investimentos, e não somente em relação aos produtos desonerados. Pensemos que nem todas as pessoas vão gastar ou aplicar seu dinheiro exatamente no setor tributariamente desonerado.

Ainda, a desoneração pode vir a aumentar a demanda, mas isto se dá pelo valor atual da moeda, ao invés de por expansão monetária. Para os austríacos, toda a inflação provém primordialmente da expansão monetária.

Em outras palavras, isto significa que a demanda está financiando os fornecedores - que qualquer setor - com dinheiro relativamente robusto (se é que estou me expressando corretamente).


samuel disse...

Bem aventurado os pobres de espírito, os ignorantes. Ignorantes precisam de burocracia. Burocracia produz manteiga e mel. Burocracia é bom. Burocracia enche barriga.
Bem aventurados os pobres de espírito. Deles é o reino de Brasília!

NÃO COMBATEM INFLAÇÃO, apenas maquiam o verdadeiro valor da inflação.

A aspirina vai ter que ser comprada com emissão de MAIS MOEDA uma vez que NÃO HÁ a contrapartida por parte do governo na CONTENÇÃO dos gastos públicos, o que, por definição, irá aumentar o déficit e MAIS EMISSÃO DE MOEDA, MAIS INFLAÇÃO! Vamos nos ater ao exemplo da aspirina. NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS...

André Franzin disse...

Prezado professor Adolfo Sachsida,

quero agradecê-lo pelo excelente trabalho no blog, que está nos meus favoritos desde que ouvi uma entrevista sua no site do Instituto Mises Brasil.
Sou advogado tributarista e meus conhecimentos em economia não passam do nível elementar, mas, se eu entendi bem a questão, o que se vislumbra nas exóticas políticas de combate da inflação promovidas pelo governo brasileiro (que você tem analisado com maestria) não é apenas falta de compreensão do fenômeno inflacionário, também uma irresponsabilidade patente quanto aos seus efeitos de médio e longo prazo, seguindo assim a infame máxima econômica segundo a qual "no longo prazo estaremos todos mortos".
Isso porque as desonerações fiscais setorizadas contribuem diretamente para o aumento da complexidade do sistema tributário nacional (que já é um emaranhado caótico de leis, medidas provisórias e decretos editados sem nenhuma preocupação com seus reflexos sistêmicos), obrigando as empresas a buscar orientação constante de advogados e contadores simplesmente para discernir o que o fisco está exigindo... Isso, é claro, aumenta o custo burocrático das estruturas produtivas da economia e desemboca em pressão para o aumento dos preços.
Ademais, essa política de desonerações não vem acompanhada de um ajuste fiscal que faça frente às renúncias de receita tributária, o que significa que o Estado vai ter que financiar seu funcionamento por outro mecanismo: expansão da base monetária.
Em última instância, isso significa que a desoneração concedida pelo governo a setores escolhidos por ele é repassada para todos nós na forma de um tributo secreto (hidden tax), ou seja, no roubo do poder de compra da moeda. Em uma palavra, inflação.
A política de “combate” a inflação por desonerações tributárias, portanto, é mais que uma camuflagem contábil da inflação: é uma causa da inflação monetária.
Amarrando as pontas, concluo que as desonerações tributárias só resultam na diminuição da inflação (ou, ao menos, são neutras em seus impactos inflacionários) se efetivamente representarem uma simplificação do sistema tributário (reduzindo os seus custos para as empresas) e se acompanhadas da correspondente adequação do aparato estatal, de sorte que o Estado não vá compensar as “perdas” na arrecadação com uma política monetária expansionista.
Enfim, esse raciocínio lhe parece correto? Gostaria muito de ser corrigido se tiver dito alguma bobagem...
Mais uma vez agradeço pelo trabalho esclarecedor.

Atenciosamente,
André Franzin

Google+ Followers

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Follow by Email