terça-feira, 2 de abril de 2013

Homosexualismo, Divórcio e a Igreja Católica

Qual é a implicação prática da igreja católica ser contrária ao casamento entre homosexuais? A rigor, isso não impede nenhum homosexual de se casar no civil. A única implicação prática, da negativa da igreja, é que isso impede os homosexuais de receberem os sacramentos. Para que a igreja administre o perdão ao pecador dois requisitos são necessários: 1) arrependimento; e 2) disposição para não voltar a cometer o pecado novamente. A igreja considera homosexualismo pecado, sendo assim, enquanto o homosexual continuar com sua conduta ele não pode receber a absolvição. Logo, não pode receber os sacramentos (não pode receber a hóstia por exemplo).

Será que isso representa uma discriminação específica contra homosexuais? A resposta é NÃO. Veja o caso de uma pessoa divorciada. A igreja se RECUSA a absolver os pecados de um homem que, tendo casado na igreja, se divorciou e casou pela segunda vez. Sendo assim, este homem (ou mulher) também não pode receber os sacramentos. Do ponto de vista prático, está na mesma situação de um casal homosexual. Isto é, para a igreja, ambas as situações representam viver em pecado.

Evidente que não concordo com a interpretação da igreja. Contudo, compreendo que essa interpretação foi construída com base em complicadas bases teológicas. Não é possível a igreja alterar o resultado sem antes alterar os fundamentos. E alterar fundamentos de uma instituição milenar não só leva tempo como está longe de ser um processo trivial.

Divorciados não são expulsos das igrejas. Homosexuais não são expulsos das igrejas. Contudo, a ambos os grupos são negados os sacramentos. Como alterar isso? Eu não sei a resposta, mas sei que a igreja está buscando por soluções. Soluções essas que virão com o tempo, não por simples modificações do tipo: “agora pode”. Mas por profundas alterações em fundamentos, que por sua vez devem ser adequados a toda a estrutura teológica da igreja.

Dito isso, vamos parar com essa farsa de que a igreja discrimina homosexuais. Isto simplesmente não é verdade. Quando o papa se manifesta contra o casamento gay, isso não quer dizer que ele fecha os olhos para a realidade. Afinal, o divórcio é uma realidade muito mais forte e presente na sociedade do que a homosexualidade. Nem por isso os divorciados recebem um tratamento mais brando da igreja.

Sou católico, e não posso receber os sacramentos. Isto me deixa triste, certamente vários indivíduos estão na mesma posição. O que fazer? Ter fé em Deus e confiar que a igreja está estudando possibilidades de se adequar a realidades presentes, mas mantendo as bases para a realidade futura.


20 comentários:

Anônimo disse...

"Qual é a implicação prática da igreja católica ser contrária ao casamento entre homosexuais? A rigor, isso não impede nenhum homosexual de se casar no civil."

Na medida que a igreja católica se manifesta contrária ao próprio casamento civil entre homossexuais. Até quem não é católico sai prejudicado. O próprio divorcio foi algo que a igreja católica tentou inibir ao máximo.

Sei que o Estado que se diz laico não deveria levar isso em consideração ao normatizar nossa vida. Contudo, na pratica, é considerada e o Vaticano sabe disso melhor que nós.

Resumindo, a igreja católica e deveria se restringir a doutrinar seu rebanho. E não tentar regular "a lei dos homens".

nilo disse...

Ainda tem um ponto que considero importante, a igreja Católica não tem representantes oficiais no governo (não há padres no congresso), logo a opinião da igreja não é imposta à sociedade. Ao contrário de alguns protestantes que estão efetivamente presentes no congresso agindo pelo interesse de suas igrejas.
A respeito do divórcio, existem tópicos no código de direito canônico da Igreja Católica que abrem a possibilidade de uma anulação do matrimônio, fato que permitiria aos divorciados voltarem a receber os sacramentos. Já sobre os homossexuais, a mesma regra imposta a todos os católicos pode ser aplicada a eles, a abstinência sexual fora do casamento, ou seja, caso desejem se "adequar" a igreja, devem simplismente não praticar o "pecado".
Achei o raciocínio correto, haja visto a não obrigatoriedade de ninguém seguir a doutrina da igreja Católica.

Anônimo disse...

Sobre o comentário anônimo anterior... Eu, enquanto pessoa católica, não acredito que a igreja católica tente regular a lei dos homens. A igreja está no mundo e está atenta pras discussões do mundo. Como todas as pessoas, a igreja projeta uma opinião. É isso o que ela está fazendo: expondo uma opinião (opinião fundamentada em preceitos Bíblicos e não ordinários).
Sendo a maior missão de um cristão "ir pelo mundo e pregar o evangelho", naturalmente a igreja católica quer sim que todos escutem, ela está pregando.
O próprio Deus deu o livre arbítrio. Naturalmente nenhum cristão vai impor suas crenças (ou não deveria).

Sobre a exposição do texto, Adolfo, achei ótimo. Bem posicionado. Só uma breve observação sobre uma coisa que me chamou atenção: "Não é possível a igreja alterar o resultado sem antes alterar os fundamentos."
Fato. Porém os fundamentos não vão(ou não deveriam) mudar. Observe que a igreja é um "autofalante" da vontade de Deus. As vontades de Deus são encontradas na Bíblia. O posicionamento da igreja a respeito dos homossexuais ou dos divorciados foi retirado da Bíblia. Portanto, a vontade de Deus é o que a igreja expõe, ou é o que entendemos ser essa vontade.
Os "fundamentos" só mudarão se a vontade de Deus "mudar". Ou pelo menos se ela (vontade de Deus) se mostrar a nós de outra forma.

Enquanto isso, realmente só importa o que a "igreja" acha pros que creem na igreja. Se não crê, não existe razão pra tanta ânsia por mudar a premissa. Se crê, tenha sua própria reflexão e conversa com Deus e o resto não vai importar.

Anônimo disse...

Não há padres no Congresso?

Padre João, PT
Padre José Linhares, PP
Padre Ton, PT

Estes eu achei em cinco minutos no Google, deve ter mais.

Luiz Augusto Silva disse...

Os católicos representam um grupo social importante e tem todo o direito de quererem que seus valores sejam expressos nas leis do país (assim como os homossexuais).

Adolfo Sachsida disse...

Caro Anonimo,

Sobre os fundamentos da igreja: muitos deles sao construidos por doutrina. Isso pode mudar com o tempo.

Mas essa eh uma boa discussao, obrigado pelo comentario,

Adolfo

Anônimo disse...

Mas a palavra de Deus não é atemporal? Como fundamentos podem mudar?

Isaías 40:8 "A relva murcha, e as flores caem, mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre"

Anônimo disse...

O pobrema é que não foi a igreja que inventou o casamento, mas ela se acha no direito de interferir na legislação civil. Se ela não quer dar os sacramentos aos católicos, problema deles, mas ela não deveria ter o direito de interferir na legislação civil.

nilo disse...

Anônimo, os quatro padres que estão atualmente na câmara estão sob restrições da igreja, que por sua vez é contra até mesmo a filiação dos padres a partidos políticos. Em 2012 o então papa Bento XVI emitiu uma ordem contrária a que padres fossem candidatos a qualquer coisa, além da CNBB e das diversas dioceses brasileiras.

Anônimo disse...

Que dois homossexuais tenham o direito de firmar um contrato civil, me parece razoável. Mas que isso se equipare a um casamento é uma esculhambação do casamento, além de dar aos gays o direito de adotarem. Ora, está na lei natural: se eles não constituem família naturalmente é porque a natureza das coisas - criada por Deus - diz algo a respeito desse tipo de união, algo como - "isto não é uma família."

Se tu passa a considerar a união entre dois homens como um casamento, então o qualquer união passa a ser também: um homem com um botijão de gás, um homem com um cacho de banana, um homem com 15 homens, etc.

Tiago disse...

E por que a Igreja não podeira querer interferir na legislação civil? Por acaso os cristãos são menos cidadãos do que os ateus? São menos cidadãos que os homossexuais??
Estado laico não é (ou não deveria ser) um Estado anti religioso.

Anônimo disse...

Em nome de uma doutrina dos testemunhos de jeová, aquela que considera pecado receber transfusão de sangue, alguém aceitaria de boa morrer, se eles fossem maioria religiosa, ainda que não fosse dessa igreja?

É muito fácil aceitar uma religião que você abraçou normatizando as leis do Estado. Agora ter empatia com o diferente... fica para as próximas gerações.

Tiago disse...

Se eles fossem maioria e aprovassem a lei de forma legítima, então que seja obedecida. E quem não concorda que lute para mudar a lei. Esse é o preço da democracia.

Anônimo disse...

Tiago

"Se eles fossem maioria e aprovassem a lei de forma legítima"

Partindo desse pressuposto a crucificação de Jesus é legitima pois representou a vontade da maioria, segundo a Bíblia, naquela sexta feira fatídica.

preço da democracia, Tiago?

Isso é o preço da intolerância.

Democracia pressupõe diretos e deveres para todos. Na hora de cobrar tributos ninguém tem abatimento por lhe ser negado diretos civis.

" E quem não concorda que lute para mudar a lei."

Isso que muitos fazem. Contudo, se o estado não fosse inspirado em livros "sagrados", não seria necessário.

Tiago disse...

Intolerância? Por que? Porque vc não concorda?

Vamos inverter a lógica. Se um Estado "laico" aprovasse a legalização do aborto, o que deveria fazer o cristão que não concorda? Entrar no hospital e tirar o médico de lá na porrada? Ou se submeter à lei e lutar para que ela seja derrubada?

É muito fácil aceitar uma posição anti-religiosa que vc abraçou normatizando o Estado. Agora ter empatia com os diferentes...


Direitos e deveres para todos é fundamento da vida em sociedade. Qualquer um que tenha uma posição contrária a uma determinada lei vai achar que está tendo seus direitos civis negados. Qual a saída? Não ter leis?

Anônimo disse...

Intolerância porque o fato de gays se casarem não impede em nada o direito de outra pessoa. O que muda na vida de outros o fato de algum homem se casar com outro homem? Nada. Logo quem é contrário é por pura intolerância. Eu tenho empatia com a a religião sim. Sou a favor de todos terem liberdade religiosa. Não penso que igrejas sejam obrigadas a celebrar casamento gay por exemplo.

A questão é que o Estado deve ter leis que maximizem as liberdades individuais ao máximo de forma que cada um viva como queira sem interferir na vida alheia. O direito da igreja em censurar o casamento gay termina onde começa o direto de gays se casarem . O direto de gays se casarem numa igreja termina quando aquela igreja não aceita casamento gay. Ou seja, o gays podem se casar no civil e não naquela igreja. Uma igreja não pode impedir um casal de se divorciar, mas também não é obrigada a aceitá-lo como membros depois.

O cristão que não concorda com o aborto não deve abortar. Ele vai poder ter quantos filhos quiser. As igrejas podem advertir seus membros de que abortar é pecado.

Só um Estado não religioso pode garantir liberdade religiosa a todos. Um estado religioso islâmico não agradaria cristãos e vive versa. O Estado laico é um garantia a todos.

Lembrando a máxima de Jesus "Dai a Cesar o que é de Cesar e a deus o que é de deus" (Mateus 22.21). Ele falava sobre tributos, mas evidenciava a necessidade de separar religião de Estado.

Anônimo disse...

VEJO ASSIM UMA "VERDADEIRA TORRE DE BABEL". PARA MIM SÓ UMA COISA BASTA: O QUE É PALAVRA DE DEUS,NUNCa PODERÁ MUDAR PARA ATENDER OS ANSEIOS HUMANOS...NÃO POSSSO QUERER CRIAR UM DEUS A MEU FAVOR; ISTO É; UM DEUS QUE VENHA PREENCHER MEUS DESEJOS HUMANOS, UM DEUS QUE SE AJUSTE A ATENDER AS MUDANÇAS DOS TEMPOS SATISFAZENDO OS CAPRICHOS HUMANOS. TEM MUITA GENTE SONHANDO COM MUDANÇAS NA IGREJA APENAS PARA JUSTIFICAR SUAS CONDUTAS CONTRÁRIAS A DOUTRINA CRISTÃ,"SEUS PECADOS"... PORQUE EM VEZ DISSO NÃO OLHA PARA DENTRO DE SI MESMO E TENTE MUDAR SUAS ATITUDES, SEU JEITO DE AMAR E ACOLHER DEUS COMO ELE REALMENTE É, E NÃO O ENTENDENDO COMO UM SOBERANO SENHOR QUE TEM QUE ATENDER MINHAS VONTADES!

Tiago disse...

Parece que nós concordamos com o que seria um Estado laico "ideal". Nenhum problema com o casamento civil gay. Cada um é dono de sua própria vida.

Mas não posso concordar que algum grupo seja privado do direito de participar do Estado por suas convicções. Vc parte do princípio de que ter convicção religiosa é ser um tirano por natureza e que não ter religião garante uma superioridade moral. Por que não posso ser religioso e respeitar os direitos dos outros? Não existe esta incompatibilidade.

Numa democracia de verdade, todos devem ter o direito de participar do Estado, sejam quais forem suas convicções.

Anônimo disse...

"Vc parte do princípio de que ter convicção religiosa é ser um tirano por natureza e que não ter religião garante uma superioridade moral."

Não vejo superioridade moral em ser ou não religioso. Vejo superioridade moral quando há respeito pela liberdade alheia e isso é praticado e pode ser praticado por ambos.

O Estado laico não é formado apenas por pessoas sem religião. Numa democracia, todos devem participar do Estado respeitando as liberdades individuais como citei nos outros posts. Inclusive o não religioso também deve respeitar as liberdades religiosas numa democracia. Sem esse respeito, ocorre casos como URSS ou Irã.

Claudio Chad disse...

professor, o fato de vc ser divorciado - dependendo do motivo do divórcio - não te impede de receber os sacramentos, desde que vc não tenha se casado de novo.

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