sábado, 4 de janeiro de 2014

Três Comentários Acerca da Entrevista de Scheinkman na VEJA

O Professor José Alexandre Scheinkman deu uma entrevista para as páginas amarelas da VEJA dessa semana. Vamos deixar uma coisa clara: Scheinkman é um craque, certamente esta no rol seleto dos melhores economistas do mundo. Dito isso, gostaria de comentar três passagens de sua entrevista das quais não concordo (e talvez o errado seja eu, afinal não sou o dono da verdade).

1) Pergunta VEJA) O que funciona mesmo quando o objetivo é aumentar a produtividade?

Resposta Scheinkman) Antes de tudo, reproduzir em larga escala iniciativas já testadas com sucesso, dentro e fora do país. No Brasil, o melhor exemplo vem da agricultura, que experimentou ganhos notáveis de eficiência nas últimas décadas. Isso se deve, em grande parte, à criação da Embrapa, um centro de inovação com pessoal e estrutura capazes de obter soluções sob medida para nossas necessidades e desenvolver técnicas revolucionárias para o agronegócio. O Brasil multiplicou por quatro a produção de milho, enquanto a área cultivada caiu à metade. Conseguiu também transformar a cultura da cana em uma indústria moderna. Enfim, o campo está repleto de exemplos inovadores que devem ser copiados.

Comentário Sachsida) Acho que Scheinkman foi infeliz nessa resposta, pois ela da margem para o governo criar uma estatal da inovação ou do empreendedorismo. Sim, a EMBRAPA é exemplo de sucesso. Mas para ter ganhos de produtividade eu esperaria outra resposta de Scheinkman: simplificação e reforma tributária, diminuição da burocracia, abertura econômica, reforma das leis trabalhistas. Confesso que não entendi o porque desses temas não aparecerem nessa resposta. O exemplo da agricultura é de sucesso devido a dois fatores: a) a grande vantagem comparativa desse setor; e b) alto grau de competição. Sei que Scheinkman concorda com meu comentário, acredito que ele deveria ter explorado a questão da necessidade das reformas macroeconômicas para responder a essa pergunta.


2) Pergunta VEJA) O Brasil ocupa os últimos lugares nos rankings mundiais de inovação. Como mudar isso?

Resposta Scheinkman) O segredo está em criar canais de comunicação entre a academia e o mercado. Temos um bom ponto de partida: 200000 pesquisadores e mais de 10 000 Ph.Ds., publicações de nível internacional e instituições como a Embrapa e o ITA. O difícil é pôr a tecnologia a serviço da sociedade de forma rápida e eficiente. Em 1999, o número de registros de patentes brasileiras nos Estados Unidos era praticamente igual ao da índia e da China: cerca de 100 por ano. Hoje, a índia registra anualmente mais de 4 000 patentes; a China, 6000; e o Brasil quase não andou. Na origem desse atraso está a eterna discussão sobre uma suposta disputa entre pesquisa teórica e pesquisa aplicada, discussão tola e contraproducente.

Comentário Sachsida) Concordo com a primeira frase da resposta. Mas discordo fortemente da última frase: "Na origem desse atraso está a eterna discussão sobre uma suposta disputa entre pesquisa teórica e pesquisa aplicada, discussão tola e contraproducente". A discussão entre pesquisa teórica e aplicada tem bem pouca responsabilidade no baixo número de patentes brasileiras. O problema aqui tem outra nome: legislação e órgãos de controle. Hoje apenas pesquisadores extremamente propensos ao risco aceitam inovar dentro de universidades públicas. Aqui a legislação pertinente ao funcionalismo público, aliada ao TCU, CGU, MPU, e demais órgãos de controle é que travam a inovação no Brasil. Vou dar um exemplo: se um pesquisador de uma universidade federal tentar registrar uma patente, é bem capaz que ele termine sendo processado ou pela universidade ou por algum órgão de controle.


3) Pergunta VEJA) Que legado é esse?

Resposta Scheinkman) O país precisa de portos, de ferrovias, e o fato de uma quantia razoável de dinheiro barato ter sido alocada em projetos nesses setores ainda virá a ter efeitos positivos. É uma pena que, por falta de um ambiente regulatório mais adequado, tenhamos perdido uma ótima chance de aproveitar melhor a onda de expectativas positivas sobre o Brasil. Mas, reforço aqui, considero exagerada a atual onda de pessimismo.

Comentário Sachsida) Não existe nada de exagero em relação ao meu pessimismo sobre o futuro do Brasil. Em 2015 nosso país vai ser obrigado a fazer ajustes enormes. Para ler minha opinião sobre esse tópico clique aqui.


Para finalizar, ressalto que Scheinkman parece endossar a carta escrita nesse blog referente a questão do reajuste das poupanças ora em análise no STF.

2 comentários:

Pedro Erik disse...

Boas considerações, grande Adolfo.

A análise de Scheinkaman parece de alguém de fora, com base em livros textos e publicações internacionais, ele não alcança, vamos dizer assim, o "chão da fábrica" de nossas mazelas.

Abraço e Feliz Ano Novo, para você e a família.

Pedro Erik (Pp)

Ricardo R disse...

No que tange culturas agrícolas, a Embrapa já foi superada faz tempo por suas concorrentes privadas. Hoje é só mais um ralo de dinheiro em troca de experiência do feijãozinho. Experiências aliás, que são a tônica do mundo academico público. Pouca coisa se aproveita entre tantos estudos "forçados" pela CAPES.

Se esse cara é tão brilhante quanto você diz, deveria ter dado umas respostas melhores.

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