sexta-feira, 6 de junho de 2014

Falando sobre arte, texto de Rafaela Senfft

O texto abaixo foi escrito por Rafaela Senfft. Para saber mais sobre Rafaela Senfft clique aqui.

Não faço arte para chocar, para alertar, não a faço como denúncia política; minha arte não é social, não a faço com a finalidade de incomodar, não existem teorias persuasivas e pretensiosas por trás dela, ela não levanta bandeiras, não exige esforço intelectual específico para compreendê-la.

A arte não precisa desses tipos de justificativas para existir, arte não é escape para ideologias, ela não é uma fuga da realidade. Ela é pura e simplesmente uma expressão da criatividade humana, que demonstra a beleza contida nas pequenitudes da vida, mas que nos enriquece e nos torna mais plenos! É esse raciocínio que procuro seguir para realizar minhas pinturas, em buscar esteticamente um tipo de beleza simples e o comunicar: as expressões individuais, a sensação do refrigério a partir de combinações de tons frescos, o calor necessário no inverno sugerido por uma roupa quente e aconchegante através das dobras que se formam do empasto da tinta, ora pura, ora escurecida com o preto ou iluminada por branco e amarelo; o convite para se entregar a alguma paisagem para um momento de deleite; o encantamento da reação da água com a luz; a ação de tensão das mãos no contexto da espera... São esses eventos corriqueiros que me são caros e é onde encontro alguma identificação com as outras pessoas.

A beleza encontrada na organização de fatos, narrativas e ícones comuns é um presente precioso deixado pelo legado de pintores, poetas, compositores e escritores que vieram antes de nós para enriquecer o processo de representação na história, pelos quais tenho a imensa gratidão. Sou grata por Rembrandt e o aconchego dos seus tons dourados, pela luz dos impressionistas e as cores dos expressionistas, pelo som fluido de Debussy, por Caravaggio e seus velhos santos humanos, por toda pele enrugada e por minúcias estéticas que confortam o coração; por Dostoievski que conhecia o coração humano e foi capaz de extrair beleza das cenas mais sórdidas de uma Rússia longínqua. A arte que não comunica e que não convida o outro para um passeio no jardim não serve pra nada. A beleza é um bem moral, assim como a verdade, pois vem de uma fonte eterna!

Nenhum comentário:

Google+ Followers

Gadget

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

Follow by Email