sábado, 6 de maio de 2017

Há 16 anos morreu o homem de minha vida

Só estudou até a sétima série, mas foi o único aluno que leu toda a biblioteca de seu colégio. Filho de um pedreiro, teve infância pobre. Começou a trabalhar aos 12 anos de idade, mudou de cidade buscando uma vida melhor. Chegou na nova cidade com dinheiro suficiente para comer um pão. Encontrou emprego num restaurante, mas no mesmo dia foi contratado para ser motorista de caminhão. Foi caminhoneiro por 10 anos e aprendeu a falar inglês. Conheceu uma bela mulher, teve filhos, virou gerente, construiu uma casa maravilhosa, e sempre se preocupou em dar uma excelente educação aos filhos, e depois montou sua própria empresa.

Na biblioteca de minha casa estavam as obras de Knut Hamsun, Thomas Mann, Erico Verissimo, entre outros gigantes. A coleção completa da Barsa e da Mirador. Diversos livros que versavam sobre temas que iam das grandes navegações e civilizações desaparecidas até o esplêndido compêndio de 3 volumes sobre a segunda guerra mundial.

Quando vi a teoria da relatividade pela primeira vez exposta num dos exemplares da revista Super Interessante comentei com ele. Em resposta me deu uma aula sobre essa teoria. Quando mencionei que tinha comprado o livro "Nada de Novo no Front" ele disse na hora o nome do autor (Erich Maria Remarque) e que o livro era sensacional. Dono de um raciocínio que mesclava extrema velocidade e brilhantismo foi de longe a pessoa mais inteligente que conheci na vida (e eu conheço muitas pessoas inteligentes), um verdadeiro gênio. Conhecia e admirava músicas clássicas, falava com desenvoltura sobre cultura, história e política. Desnecessário dizer que nunca votou no PT.

Lutou contra a ditadura militar, mas ao contrário dos comunistas lutou em prol da democracia. Sempre abominou a ditadura, sempre foi um defensor da liberdade. Mesmo em épocas que não era seguro criticar a ditadura nunca se escondeu. Sempre defendeu a democracia e a liberdade.

Honestidade, respeito (principalmente aos mais velhos e necessitados), amor a família, simpatia, humildade, e um gigantesco bom humor, além é claro de sua inteligência privilegiada, eram suas características internas. Externamente era lindo, alto, cabelos negros, e olhos verdes. Não é todo dia que se vê um homem lindo por fora, mas mais lindo ainda por dentro.

Teve um derrame, e ficou doze anos com sequelas sérias que o impediam de trabalhar e de se locomover. Suportou esse suplício com resignação e bom humor. Com ele aprendi tudo que sei. Lembro de nossas conversas, nossas viagens, os filmes a que assistimos juntos, as idas ao Estádio do Café para assistir o Londrina jogar, suas risadas, seu humor e sua inteligência, sua honestidade e hombridade, sua honra e coragem.

Em 06/05/2001 meu pai faleceu aos 68 anos de idade. Uma saudade enorme só é superada por uma única certeza: cedo ou tarde te verei novamente meu amigo, o melhor pai do mundo. Obrigado pai.

8 comentários:

Anônimo disse...

Com esta descrição acho que seu pai era o Guido Sachsida?

Anônimo disse...

Parabens pela bela historia de seu pai.!Eu sei o que vc sente, a saudade, o vazio que ninguem preenche...Passei exatamente por isso que vc passou, ,,.MEu VELHO DIZIA SEMPRE:"Meu filho, não se aborreça , pois tudo passa..."E é verdade tudo esta passando...,haverá um termino e um novo começo. Tenha fé!

Maritônio Barreto disse...

Como asseverou Chico Xavier: A vida continua... Com certeza vão se reencontrar.

Adolfo Sachsida disse...

Caro Anonimo,

Sim, ele mesmo.

Adolfo

Tati disse...

Linda homenagem, aposto que lá no Céu, ele está feliz e muito orgulhoso de seu filho. Abraço!

L� disse...

Belo e inspirativo texto!

Maria disse...

Grande postagem, soube exemplificar de forma clara e objetiva o Grande Homem que foi seu Pai.

Anônimo disse...

Parabéns caro Adolfo! Belas lembranças do seu pai. Abraços liberais. José Carlos Scudeller

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